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“A guerra marca-nos para sempre”

Da Guiné recordo sobretudo os meus tempos em Cufar – entre o Tombali e o Cantanhez, zonas míticas de uma guerra que não estava perdida
30 de Maio de 2010 às 00:00
Com um Obus 14 em Mansoa, no centro da Guiné, em 1973. Foi a segunda de três bases onde António cumpriu a sua comissão de serviço na Guiné
Com um Obus 14 em Mansoa, no centro da Guiné, em 1973. Foi a segunda de três bases onde António cumpriu a sua comissão de serviço na Guiné FOTO: Direitos reservados

Já com 20 meses de serviço militar em Portugal, fui mobilizado para a Guiné, em rendição individual. Cheguei a Bissau nos últimos dias de Junho de 1972 e fui colocado no CAOP 1 (Comando de Agrupamento Operacional nº 1), em Teixeira Pinto, na zona de acção norte, entre os rios Mansoa e Cacheu. Eu era um alferes miliciano num Comando de Operações que tinha consigo a 35ª Companhia de Comandos (depois a 38ª), mais as três companhias (que rodavam) 121, 122 e 123 do Batalhão da Caçadores Pára-quedistas 12, e ainda o Destacamento de Fuzileiros, no Cacheu.

Não sendo propriamente um operacional, cabiam-me as funções de alferes dos papéis e da pequena logística do CAOP 1. Mas, ao longo dos 22 meses de comissão tive a sorte, ou a pouca sorte, de acompanhar muito de perto o desenrolar da guerra a partir de um comando de operações, inicialmente estacionado em Teixeira Pinto, depois em Mansoa, no centro da Guiné, e finalmente, durante os meus últimos onze meses de comissão até Abril de 1974, em Cufar, no sul. Fui de algum modo testemunha e participante privilegiado do fim do velho império colonial português.

Hoje, da Guiné, recordo sobretudo os meus tempos em Cufar – entre o Tombali e o Cantanhez, zonas míticas da guerra –, com os homens do meu CAOP 1, a C. Caç. 4740 e os pilotos da Força Aérea que todos os dias, desde Bissau, chegavam à nossa grande pista asfaltada de Cufar, com os seus helicópteros e avionetas DO, nos traziam correio e os géneros fundamentais para a alimentação dos aquartelamentos. Em Abril de 1973, estava eu em Mansoa, haviam sido abatidos cinco aviões portugueses pelos mísseis ‘Strela’ que começaram a ser usados pelos guerrilheiros.

O apoio aéreo quase parou durante algumas semanas, mas depois os nossos pilotos passaram a conhecer a natureza dos mísseis e aprenderam a voar de forma diferente, a rapar o solo ou a altitudes superiores a 2000 metros, tornando os mísseis ineficazes. Até ao fim da guerra, em Janeiro de 1974, apenas mais um avião foi abatido pelos ‘Strela’, um Fiat G 91, em Janeiro, pilotado pelo tenente Gil, em Copá, junto à fronteira com a Guiné-Conacri.

Prevalece na sociedade portuguesa e até a entre alguma historiografia recente, a tese, a ideia de que a guerra na Guiné estava militarmente perdida face ao evoluir da situação e superior poder do armamento dos guerrilheiros do PAIGC. Esta tese não corresponde ao que aconteceu no terreno nos anos de 1973/ /1974. É verdade que o aquartelamento de Guileje, no sul, foi abandonado pelo major Coutinho e Lima e os seus homens em Maio de 1973, mas na altura em toda a Guiné existiam 225 destacamentos e aquartelamentos portugueses. Mais nenhum foi abandonado.

GUERRILHEIROS

Numa guerra de guerrilha, como a da Guiné, é fundamental controlar as populações. Ora os guerrilheiros controlavam apenas um terço do território, abrigados em pequenas aldeias escondidas sob as florestas e tinham consigo cerca de 50 mil habitantes. Todos os centros urbanos, vilas e principais aldeias da Guiné tinham aquartelamentos ou destacamentos portugueses e aí habitavam cerca de 500 mil habitantes. Na fase final da guerra, a Força Aérea voou como nunca e os Fiats passaram a bombardear com bombas de 750 libras, mais potente e precisas.

A Marinha continuou a dar apoio fundamental, com as LDG (lanchas de desembarque grandes), LDM (médias), os navios-patrulhas e os batelões de transporte, por tudo quanto era mar e rios da Guiné. O Exército continuou a defender os seus aquartelamentos, a realizar operações – sobretudo com tropa especial – em toda a Guiné. Os guerrilheiros seriam cerca de cinco mil homens, parte deles instalados em quartéis no Senegal e Guiné-Conacri. As tropas portuguesas eram constituídas por 40 000 homens, 11 000 dos quais eram militares africanos.

A solução da guerra era política e não militar. Foi o que aconteceu após o 25 de Abril, embora a descolonização na Guiné, como nos outros território, se tenha saldado por muitas mais mortes e sacrifícios, como por exemplo o fuzilamento de centenas e centenas de militares africanos que haviam combatido ao lado dos portugueses. Em 1973/74, em Cufar, estive por diversas vezes debaixo de fogo, quase sempre sem consequências. Em Cufar, porque tínhamos uma grande pista de aviação, assisti e ajudei em muitas evacuações de militares portugueses feridos em combate na região do Cantanhez. A guerra marca-nos para sempre.

"UM DURO QUE IA A TODA A PARTE"

António Spínola cumprimenta os régulos locais, em Teixeira Pinto (1973). Graça de Abreu está de costas no meio da população, leva a mão à cabeça. Foi um entre muitos encontros entre estes dois homens. Recorda o alferes: "Ele andava de helicóptero por toda a Guiné. Era um homem corajoso e competente. Um homem da cavalaria que cortava a direito. Um duro que ia a toda a parte e que, por isso, se metia em situações complicadas".

PERFIL

Nome: António Graça Abreu

Comissão: Guiné (1972/74)

Força: 35ª Companhia de Comandos

Actualidade: Aos 63 anos é casado e pai de quatro filhos

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