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Correio da Manhã

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A história não tem compaixão

“O velho Doutor Homem, meu pai, sabia que não se podia governar um país como o dr. Salazar pretendia governar a sua casa”
António Sousa Homem 24 de Junho de 2012 às 15:00
O Alto Minho em fotografias antigas
O Alto Minho em fotografias antigas

Quando a minha sobrinha Maria Luísa me pergunta se eu acho justas "as medidas de austeridade", começo por lembrar que, tirando os tempos em que os optimistas ou os esbanjadores (a classificação diverge pouco) estiveram no governo, houve sempre "medidas de austeridade". O velho Doutor Homem, meu pai, sabia que não se podia governar um país como o dr. Salazar pretendia governar a sua casa, mas acreditava que, como especialista em direito bancário, existiam fundamentalmente duas operações contabilísticas que o pudor me manda escrever em minúsculas: o "deve" e o "haver".

Este princípio, tão conservador como qualquer outro facto irremediável, transitava de governo para governo e de regime para regime independentemente da vontade do governo e dos regimes. Durante séculos a nossa Fazenda tratou de pagar os luxos de outrora, tanto a embaixada do rei D. Manuel I ao Papa como os sinos de Mafra encomendados por um capricho de D. João VI. No tempo dos impérios, o ouro e os impostos permitiam o desvario.

Isabelle, a namorada holandesa do meu sobrinho Pedro (ela, vinda da Frísia natal, inaugurou a temporada balnear de Moledo no domingo passado), acha isto uma condenação; lembro-lhe o caso holandês, quando a Companhia mandou que Maurício de Nassau regressasse a Haia porque os negócios do Pernambuco, no século XVII, estavam a dar prejuízo. "Isso são os holandeses", murmurou Maria Luísa, que mantém uma desconfiança perpétua acerca do capitalismo e das intenções dos calvinistas. Tem alguma razão. Os holandeses conheciam a condenação das duas operações contabilísticas básicas, o "deve" e o "haver". Portugal não a entendeu com toda a gravidade e ao longo da história não só gastou mais do que podia como, além disso, esbanjou a glória de o ter feito.

A memória é curta e alguns anos de optimismo político fizeram--nos esquecer que havia contas a pagar. Portugueses de antanho interrogavam-se sobre tamanha fortuna gasta tão rapidamente e sobre quem iria pagar a factura de tão boas estradas a atravessar a Serra de Arga. Europeus de antigamente, obrigados a contar as moedas durante o período do pós-guerra, foram substituídos por europeus que nasceram com férias pagas e confiança absoluta no futuro.

Há, claro, uma sensação de injustiça a pairar na atmosfera. Os humildes pagarão sempre a factura que os poderosos deixaram para a posteridade. Portugal viveu nesse regime durante mais de seiscentos anos (o leitor que imagine as excepções), entre austeridade e esbanjamento. O resultado é este, e não nos honra.

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