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A IGREJA PRECISA DE UMA REVOLUÇÃO

Frei Bento Domingues, de 68 anos, frade há 49 e padre há 41, diz que o Catolicismo tem de mudar toda a sua estrutura para inverter o desaparecimento das vocações. E acusa João Paulo II de desligar a Instituição do mundo que a rodeia
8 de Novembro de 2002 às 20:43
Está confiante de que haverá sempre um número de vocações suficiente para manter o fulgor do catolicismo?

Os seminários estão a esvaziar-se e o clero está a diminuir para metade – ou ainda para muito menos, dentro de pouco tempo, mas a verdade é que não vejo isso como uma tragédia. Porque o que está em causa é o modelo do padre diocesano, é o problema dos serviços da comunidade cristã. Na linguagem do Novo Testamento, o sacerdote é Jesus Cristo e todo o conjunto de fiéis – o resto são serviços a que uma vez se chamaram bispos, presbíteros, padres… O problema foi que, a partir do século XII, foi imposto um modelo de padre separado da comunidade, à imagem das religiões pagãs, assimilando também a ideia do celibato. Quando oiço dizer que em África e na América Latina há muitas vocações, tenho muitas dúvidas. Dada a situação social nessas regiões, quais serão as verdadeiras razões? Será que eles entendem mesmo a realidade? E estão lá por quanto tempo?

Porque diz que este modelo já não funciona?

A família já não tem o ambiente rural onde, antes, era recrutada a maioria do clero. Esse mundo, tal como o conhecemos, desapareceu. Quase todos vivem no litoral, as mulheres trabalham, a relação com as crianças é quase nula, os avós não estão em casa e, portanto, a transmissão da fé é muito difícil. Mais: há muito poucos filhos. Filhos esses cujo mundo é a televisão e, para mais, são erotizados extremamente cedo. O que acontece é que o modelo citadino não está nada em consonância com o modelo tradicional. Sim, Deus pode chamar pessoas neste contexto, mas não esqueçamos que Ele não tem o costume de fazer coisas sozinho. As pessoas não estão para aí viradas, não criam o ambiente onde possam florescer vocações. Pelo contrário, educam as crianças já como consumistas. E as vocações não se produzem em laboratórios.

Que mudanças sugere no sistema?

Primeiro, deveriam ser as próprias pessoas das comunidades cristãs a responsabilizarem-se pelo culto, pela evangelização. Pessoas escolhidas para alimentar a fé, fossem homens ou mulheres, casados ou solteiros. Há quem alegue que, na última ceia, só estavam homens. Ora, esse é um argumento horroroso! No Novo Testamento, vemos o papel extraordinário das mulheres: elas é que evangelizaram os homens no momento da paixão de Jesus. Segundo: as dioceses… Lisboa dava para seis ou sete – é impossível de gerir! Antes de pensar nas vocações para padre, pensemos o modelo católico tradicional. Esse mundo acabou e, agora, é necessário reinventar um cristianismo citadino. Isso não é contra a fé. Mas todo o mundo mudou, económica e socialmente, pelo que não se pode querer resolver a questão do clero isoladamente. Há ali um prédio e, portanto, deveria ter um nicho qualquer onde as pessoas se pudessem reunir e ajudar-se a fortalecer a fé. O mesmo deveria acontecer à escala de um bairro. Os modelos de paróquia e diocese estão completamente errados e ultrapassados. Há toda uma reforma de mentalidades a fazer, e só o vejo com um concílio da Igreja Católica Apostólica Romana muito preparado nas comunidades, porque este modelo é assistir à sua própria morte. A solução está numa revolução. O mundo de há 40 anos já não existe, e, só quando se encontrar uma solução, se perceberá isso. Este Papa é rápido, mas não se deixa afectar pelo mundo. Aquilo que a maioria hoje acha ainda demasiado ousado, a mim parece-me já não ser sequer suficiente: as soluções actuais são aspirinas. Não vão à fonte. A Igreja não pode ter medo de ser revolucionária.

OS JOVENS JÁ ESTÃO FORA

Tem esperança de que essa revolução suceda de facto?

Tenho. Repito que Deus não faz nada sozinho, mas também não deixa as pessoas sozinhas. Acredito profundamente que haverá soluções – dolorosas, como é óbvio. O problema do futuro parte daquele que é, hoje, o maior grupo religioso: os católicos não praticantes. Essa é a geração que hoje existe. A próxima já não o será, porque estes pais já não mandam as suas crianças à missa, à catequese: o que virá é um mundo fora da Igreja. É como no final do século XIX, em que se dizia que a Igreja tinha perdido a classe operária. Agora também se diz que vai perder os jovens… Não, não vai perder nada…

Nunca os teve…

Nunca os teve! Eles já nasceram fora dela, estão numa onda completamente diferente. Contudo, a busca continua. Segundo Bray, um grande mediólogo, a secularização não fez sociedades agnósticas, fez sociedades supersticiosas: o culto da personalidade na Rússia, os ‘tarots’ ocidentais… A dimensão de que algo para lá da nossa efemeridade, isso existirá sempre: é esse lugar que tem de ser evangelizado. Cada um tem, cada vez mais, as suas próprias referências religiosas. É um retorno a dez séculos antes de Cristo – um Deus à la carte.

A Bíblia continuará a desempenhar uma função importante?

A Bíblia é a literatura de um povo em que tudo se pôs na boca de Deus, mas em que há coisas sensacionais. Será sempre o Livro dos livros e, portanto, necessário. Os protestantes lêem-na de um modo, os Judeus de outra, segundo o Talmud, os cristãos lêem mais os livros proféticos… Mas continua a haver nela uma sedução, pela sua pureza imensa... São livros que não podem ser substituídos. No entanto, o Catolicismo deveria estar mais atento aos seus outros recursos: os rosários, as procissões, a tradição popular, a própria ciência, a pintura, a música, a poesia, a filosofia… Todo o mundo do jogo simbólico necessita de ser reactivado, não só o da palavra. O Catolicismo também é criação cultural.

Nesse progresso, a Igreja deveria, também, rever a sua posição em relação ao aborto?

Não, de forma nenhuma. Uma coisa é a contracepção, outra é ir contra o ser humano, um evidente ser humano. O aborto é um homicídio. Mas, sob o ponto de vista ético, não vou dizer que alguém que aborte está em pecado, porque a maioria desses actos são dramas loucos na vida das pessoas, elas chegam já irracionais a essa situação. Não vou culpabilizá-las. O ideal é criar as condições para que as pessoas tenham o número de filhos que querem ter e para poder cuidar deles. O problema também está, por exemplo, em alguns ministros, ditos muito católicos, pertencentes às Comissões de Justiça e Paz da Igreja, que depois fazem uma política que torna impossível aos pobres ter filhos.

O que diria a um jovem para o convencer a seguir o caminho religioso?

Dir-lhe-ia: só se ganha a vida perdendo-a por causa da alegria dos outros. Mostrava-lhe como muitas pessoas compreenderam que gastar a vida só vale a pena se for por uma grande causa.

E o Diabo? Também não costuma fazer nada sozinho?

Também não. Assistimos hoje, através dos meios de comunicação social, a uma glorificação do que há de pior, de mau, de degradante. A solicitação para se perder o rumo tem inúmeros instrumentos, que podemos designar de “diabólicos” (com aspas!, porque eu nunca encontrei o diabo de facto). Mas repare: não há problema nenhum, por exemplo, no jogo: é a dimensão lúdica da vida. O problema está em como se joga, em como esse jogo está pervertido. Nesse sentido, o diabo está à solta pelo mundo. De resto, o mal e o bem nunca estiveram apartados.
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