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A interpretação dos sonhos por D. Lynch

Dominam as formas e as emoções plásticas. É impossível resumir a intriga do filme.
Joana Amaral Dias 24 de Janeiro de 2010 às 00:00
A interpretação dos sonhos por D. Lynch
A interpretação dos sonhos por D. Lynch

Ao Bom da Fita arrancou a viagem ao cinema da década zero com ‘Memento’. Hoje, continua com ‘Mulholland Drive’ (2001), o filme de ritmo líquido onde Lynch retomou as suas obsessões e o jogo caleidoscópico entre as velhas amigas realidade e ficção.

Esta longa-metragem é como um sonho, diz-se. E é. O espectador entra nesse universo onírico e, ao fim de algum tempo, sente-o como seu. Como interpretar um filme é (quase) irresistível, considerando a necessidade de dar sentido à vida, cada um aventa possibilidades. Por isso, não se sai saciado como nos filmes que dão a chave para o enigma, nem frustrado como nos que escondem a fechadura. O espectador, ao tentar desvendar o mistério (se é que existe), acaba por descobrir muitas coisas sobre si próprio.

Tal como em Hitchcock, dominam as formas e as emoções plásticas. É impossível resumir a intriga de ‘Mulholland Drive’. Como os poemas, são imagens intraduzíveis. Como a música, é indizível. Enfim. Uma recém chegada a Hollywood envolve-se com uma estrela que ficou amnésica. O enredo tem saltos e elipses e, no final, pula-se para uma realidade alternativa onde se fica sem saber se, realmente, era de duas personagens distintas que se tratava.

Em ‘Mulholland Drive’ confronta-se o sonho de Hollywood com o seu pesadelo: fama e fracasso. Sobretudo, entrelaçam-se dois fascínios: o artifício do cinema e o mistério da vida real. As identidades das personagens baralham-se e fragmentam-se, tal como sucede em todos os actores, que apagam a sua própria identidade para se transformarem na fantasia do outro. E tal como acontece a quem vai ao cinema e experimenta uma vida e uma pele alheia e é, por algumas horas, numa realidade virtual, um ladrão de identidade.

Esta é uma possível interpretação deste filme. E a sua, qual é? Se for nenhuma, melhor. Lynchismo é: não interprete, recoste-se e usufrua. Do cinema e, já agora, da vida.

FICHA

Título: ‘Mulholland Drive’

Realizador: David Lynch

Intérpretes: Naomi Watts, Laura Harring, Ann Miller e Dan Hedaya

Em DVD

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