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Correio da Manhã

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A MÃE E A MENINA

“A menina estava sentada numa cadeira ao lado do caixão. O dia nascia da noite. Vegetal, uma planta nova a rebentar a terra. O dia nascia da noite”
31 de Janeiro de 2003 às 20:28
A mãe estava sentada numa cadeira da sala. As cortinas embaciavam a claridade que entrava pela janela. Era de manhã. Havia o calor morno de torradas e de chá de camomila. A menina entrou na sala e correu para a mãe. Não corras. Tem calma. A mãe sorria. Ergueu a sua mão do colo e pousou-a muito devagar no rosto da menina, na pele do rosto da menina, nos seus cabelos. Os olhos da mãe eram grandes e castanhos. A menina sabia que tudo o que alguma vez pudesse precisar estava ali naquelas mãos e naqueles olhos. A menina sorria. A mãe. Havia uma alegria iluminada pela claridade que as cortinas da sala embaciavam.

A mãe estava sentada na primeira fila da igreja. A voz do padre atravessava o ar até aos cantos mais frescos, até às sombras. A menina estava sentada junto das outras meninas. O vestido branco desenhava as formas de um corpo sem formas: o peito de criança, os braços finos, a barriga, as pernas finas. Os sapatos brancos. As meias brancas com folhos no tornozelo. As meninas, com uma vela entre as duas mãos, fizeram uma fila diante do altar. A menina, entre as outras, olhava para a mãe. Com um movimento muito brando da cabeça e do olhar, a mãe aprovou cada movimento e cada acção. E tudo o que a menina queria era essa aprovação a mostrar-lhe que tudo estava bem, esse movimento muito brando da cabeça e do olhar. E seguiu na fila, com os sapatos novos e brancos sobre o mármore, com as mãos juntas a segurar a vela diante do vestido e fechou os olhos devagar, a pele serena do rosto, quando o padre lhe estendeu a hóstia da primeira comunhão e disse corpo de Cristo.

A mãe estava sentada numa cadeira do quarto. Os seus dedos eram rápidos e, ao mesmo tempo, elegantes. Os seus lábios eram tranquilos enquanto se moviam. A menina estava sentada na cama. Os lençóis estavam dobrados sobre a cintura, as almofadas estavam amontoadas sob as costas. A menina estava doente e a mãe contava-lhe histórias do tamanho da tarde. Depois, depois, depois. A palavra «depois» fazia as histórias evoluirem e separava os episódios que as constituíam. Às vezes, a mãe parava as palavras da história e fixava a atenção na renda, na linha branca, nas agulhas, nos dedos. A menina perguntava: e depois? A mãe respondia: depois... No momento em que dizia «depois», pensava no que iria dizer a seguir, e a história continuava. A menina estava doente, a temperatura no termómetro que a mãe lhe punha debaixo do braço indicava que estava doente, mas o seu sorriso era grande. A mãe fazia renda e contava histórias. A tarde pousava devagar sobre o tapete do quarto, sobre a colcha da cama, sobre a cómoda, porque também a tarde queria estar com a mãe e com a menina a ouvir aquelas histórias grandes e bonitas.

A mãe estava sentada na primeira fila da igreja. O pai trazia a menina pelo braço. A menina era já uma mulher. O seu olhar, no entanto, era ainda o mesmo, o embaraço dos seus gestos era ainda o mesmo. O vestido de noiva brilhava. Avançava lentamente. As pessoas viravam os corpos nos bancos para olharem para trás e verem a noiva. Os homens tinham fatos e gravatas. As mulheres tinham vestidos novos. A menina era já uma mulher, e avançava devagar pela igreja, quase suspensa, avançava devagar pela igreja. As flores que segurava na mão eram um jardim e um rio. A mãe olhava-a e conhecia tudo, sabia que a menina estava nervosa, sabia que a menina tinha medo. A mãe conhecia tudo, porque sabia sentir exactamente aquilo que a menina sentia. A menina olhou para a mãe e soube do seu olhar que a mãe conhecia exactamente o que estava dentro dela. A menina era já uma mulher, e avançava devagar pela igreja.

A mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama da maternidade. A mala estava pousada sobre o colo. As mãos estavam pousadas sobre a mala. A menina estava sentada na cama. Os lençóis estavam dobrados sobre a cintura, as almofadas estavam amontoadas sob as costas. A menina tinha tentado pentear-se para a hora da visita, mas estava despenteada. A enfermeira entrou com a criança no colo. A menina recebeu-a nos braços e quis mostrá-la à mãe. A mãe inclinou-se para vê-la. Os seus olhos foram, ao mesmo tempo, muito novos e muito velhos, quando contiveram as lágrimas. A luz entrava pelas janelas brancas da maternidade. A menina pousou a criança nos braços da mãe. A mãe olhou-lhe o rosto, os olhos, os pequenos lábios. A mãe disse palavras inventadas que se dizem às crianças. A sua voz podia ter tremido. Os seus gestos podiam não ter sido firmes. As lágrimas podiam ter-lhe descido pelo rosto. Mas a mãe apenas sorriu e olhou para a criança pequena, apenas falou com ela, apenas a sentiu nos seus braços. Mas a menina soube que, dentro da mãe, era de novo o tempo inicial da felicidade, porque a menina era já uma mulher e, também ela, conhecia tudo, porque sabia sentir exactamente aquilo que a mãe sentia.

A menina estava sentada numa cadeira ao lado do caixão. O dia nascia da noite. Vegetal, uma planta nova a rebentar a terra. O dia nascia da noite. A luz misturava-se lentamente com a escuridão. A menina estava quase sozinha, sentada ao lado do caixão. A mãe estava deitada. As pálpebras pousadas sobre os olhos. Os lábios fechados. As mãos depois da velhice, depois da idade. A mãe era agora uma menina. Tinha o vestido que a filha lhe tinha oferecido para alguma ocasião em que precisasse de uma roupa bonita e nova. Tinha o vestido que a filha tinha ido buscar ao armário quando o senhor da agência funerária perguntou: o que é que visto à senhora? A menina era agora mãe, porque dobrou o vestido e guardou-o num saco, com a roupa interior e os sapatos, porque se debruçou sobre o pescoço morto da mãe e fechou o fio de ouro que ela mais gostava e, com os dedos, ajeitou-lho sobre o peito tão frio. A menina tinha agora de ser muito forte. Estava quase sozinha, sentada ao lado do caixão. A menina sabia agora que o segredo das mães é nunca deixarem de ser meninas. Sabia que o mundo era demasiado grande e que num dos lugares do mundo estava ela, quase sozinha, sentada ao lado do caixão, a velar a menina que tinha sido, a tornar-se na mãe ainda menina que a partir daquele dia seria para sempre.
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