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Correio da Manhã

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A MAGISTRADA QUE ESCREVE HISTÓRIAS DE AMOR

A mulher que arquivou o processo judicial contra o ex-embaixador Jorge Ritto, nos anos 80, acaba de publicar o seu primeiro romance, com o sugestivo título ‘O Privado Não Se Reparte’. A autora garante que não é ‘literatura light’ e que até critica alguns comportamentos da sociedade portuguesa. Quanto ao processo da Casa Pia, não quer dizer nem
mais uma palavra.
7 de Fevereiro de 2003 às 18:27
Foi a partida dos filhos mais velhos para o estrangeiro que lançou Maria do Carmo Peralta, magistrada do Minis-tério Público, no mundo da escrita. “Acabei por ter mais tempo livre. Fiquei em casa com a minha filha mais nova e passei a escrever assiduamente”, conta.

Às livrarias, entretanto, acaba de chegar o primeiro resultado dessa dedicação: o romance “O Privado Não se Reparte”, com a chancela da Gradiva. “Também já tenho um livro de contos pronto. Mas ainda não sei quando é que vai ver a luz do dia”, anuncia a magistrada, que faz questão de se manter afastada da categoria de “escritora light”: “Não tem comparação possível”...

Só após alguma hesitação, Maria do Carmo Peralta aceitou falar ao ‘Domingo Magazine’ sobre esta publicação. As regras do jogo foram claras: nada de fotografias ou gravadores em cima da mesa e a conversa devia cingir-se à nova faceta da magistrada, a de escritora; Peralta, por isso, não responderia a quaisquer perguntas relacionadas com o caso do “despacho de arquivamento falsificado” que, no final de Novembro, deu que falar nas páginas do ‘Correio da Manhã’.

Recorde-se que esta representante do Ministério Público foi a responsável, nos anos 80, pelo despacho de arquivamento do processo do alegado caso de pedofilia envolvendo crianças da Casa Pia e o então embaixador Jorge Ritto. Motivo: falta de provas. A história “aqueceu” quando, em Novembro de 2002, a magistrada – que em 1987 desempenhava funções no Tribunal de Cascais – deu uma entrevista ao CM admitindo ter efectuado o despacho do processo, mas apenas depois de ter discutido o assunto com a Procuradoria-Geral da República, à qual confirmou que Jorge Ritto nem chegara a ser ouvido.

Na altura, o nosso jornal consultou o documento e descobriu que nele estava escrito precisamente o contrário. Confrontada novamente, a magistrada falou na possibilidade de o processo ter sido falsificado. Mais tarde, voltaria atrás: “Não fiz a afirmação que o despacho foi falsificado”. E o caso ainda não está encerrado: a Procuradoria-Geral da República decidiu submetê-lo a deliberação do Conselho Superior do Ministério Público e, enquanto a verdade não vier ao de cima, a magistrada assegura que, publicamente, não fala mais sobre o assunto. “Quero pôr um ponto final nessa história”, diz.

TUDO NA GAVETA

A escrita e os livros há muito que a acompanham, mas só há pouco tempo surgiu a disponibilidade para escrever este romance. Hoje, quando olha para o volume, a magistrada ainda sente alguma estranheza. “A primeira vez que o vi, achei-o estranho”, confessa, entre risos. É que até aqui, os manuscritos tinham todos o mesmo destino: a gaveta.
A personagem principal é feminina, chama-se Joana, está divorciada e é mãe de um filho, o Gugas. Eis que o amor lhe bate à porta quando reencontra um colega de universidade, o Miguel, assessor do Ministro da Cultura. Parece “light”. Mas, ao contrário dos tais livros, que fazem questão de mostrar que essas mulheres são todas bem sucedidas, ricas e magras, a magistrada evitou adjectivar esta personagem, que aparenta ter uma vida pública bem sucedida, mas à medida que os relatos da sua vida privada se sucedem descobre-se que nada é o que parece.
A eterna questão entre a “vida cor-de-
-rosa” e a “vida real” é levada ao extremo. Uma dualidade que preocupa a magistrada: “Quando folheamos as revistas sociais, vemos que há lá gente a representar um papel de felicidade, de perfeição. Mas se conhecêssemos a vida privada desses indivíduos, víamos que tudo não passa de uma interpretação”, defende Maria do Carmo Peralta, que quando começou a escrever as primeiras linhas do livro, já estava decidida a abordar o tema da violência doméstica. “Em sociedade, raramente se fala no que é polémico”.

Polémica é também a sua decisão de colocar este problema no seio de uma família com elevados padrões morais, urbana e abastada. Apesar de o patriarca ser um juiz publicamente conceituado, isso não o impede de molestar, física e psicologicamente, a mulher com quem casou.

A homossexualidade, a droga e a sida são outros dos temas que Maria do Carmo Peralta faz questão de abordar no livro. O que lhe levantou algumas dúvidas: “Cheguei a pensar que me tinha debruçado sobre demasiados assuntos”. Mas no final, acabou por admitir que estes problemas são cada vez mais comuns. Ao de leve, fez ainda questão de pincelar a sua obra com alguma crítica social. “Não podia deixar de o fazer”, admite.
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