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“A maior onda de contestação está para vir”

António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa e ex-deputado do BE
6 de Junho de 2010 às 00:00
“A maior onda de contestação está para vir”
“A maior onda de contestação está para vir” FOTO: Pedro Catarino

- Dada a crise económica e social que o País atravessa, como vê a onda de contestação laboral a que temos vindo a assistir?

- Em minha opinião não existe ainda uma onda de contestação social, assistimos no passado dia 29 de Maio a uma gigantesca manifestação, essencialmente de sindicatos da Função Pública, pois são estes os trabalhadores que mais afectados poderão ser pelas medidas que o Governo está a tomar e por aquelas que pode vir a tomar se der ouvidos aos que de nada abdicam, mas tudo querem tirar aos que vivem do seu trabalho. Em minha opinião a onda de contestação ainda está para vir.

- Qual é o papel dos sindicatos no meio desta crise?

- O papel dos sindicatos deve ser o da negociação e sempre que necessário o da mobilização. Se a postura do Governo continuar a ser a de tirar aos rotos e nus para dar aos bem vestidos homens do fraque, devem os sindicatos preparar mobilizações, contestar nas ruas e, se necessário, caminhar para a greve geral. Mas se o fizerem só ao fim de muitas pequenas greves, podem correr o risco da saturação, cansaço, desmotivação e conformismo, pois as televisões e rádios vão bombardear os trabalhadores com a história do inevitável e do tem de ser.

- Como vê o pacto de regime entre o Governo e os sindicatos?

- Sou um defensor da negociação contra o sindicalismo de pandeireta, mas negociação supõe que existe interlocutor que quer mesmo encontrar um caminho, neste momento o Governo não quer encontrar esse caminho em consenso com os sindicatos, pois à mesa da concertação não apresenta propostas, apresenta factos e medidas consumadas, Por esse motivo, considero que a reacção que a CGTP está a ter a estas decisões (não negociações) do Governo, é a mais adequada. Esclarecer e denunciar é mobilizar para a greve geral e espero que a UGT se junte à contestação. Os comentadores do costume dirão que a greve geral não leva a lado nenhum, então virem-se para o Governo e digam-lhe que retirar as mais fragilizados da sociedade o "almoço com o argumento que só assim lhes podem garantir o jantar", foi algo que o governo de Mário Soares fez na década de 80, o de Cavaco durante os seus dois mandatos (com a fome a assolar Setúbal) e o resultado é o que se vê. Recordo que o total de mediadas anunciadas pelo Governo contra os desempregados (desde o corte do subsidio social de desemprego à redução do valor do subsidio de desemprego) gera segundo contas do Ministério do Trabalho uma poupança de 40 milhões de euros, algo que qualquer aumento de 2 ou 3% no IRC da Banca colmatava, permitindo que vários milhares continuasse a "almoçar".

- É previsível que a taxa de desemprego se mantenha acima dos 10,5% durante todo o ano. No pior dos cenários, caso haja um agravamento do desemprego, o que vai acontecer à Península de Setúbal?

- Em minha opinião a taxa de desemprego vai continuar a aumentar na Península de Setúbal e se as obras publicas previstas vierem a ser totalmente congeladas, podemos mesmo vir a assistir a um novo período de fome declarado.

- Já há quem diga que a Autoeuropa vive agora um tempo de "vacas gordas". E ao nível do emprego? Ainda se mantém a dura batalha de afastar os despedimentos?

- Não é verdade que uma empresa que tem capacidade para produzir 180 mil carros por ano, e que previsivelmente vá produzir 55% deste valor este ano, esteja a viver um tempo de "vacas gordas" - quando muito estará num momento de consultas a nutricionistas. A nível de emprego o mesmo está a aumentar (através da agência de trabalho temporário ‘A-Vision') e fruto do lançamento das novas Sharan e Alhambra. Mas receio bastante que seja "Sol de pouca dura", pois assim que estes carros entrarem na chamada velocidade de cruzeiro, virão substanciais reduções de postos de trabalho. Fruto do acordo ainda em vigor, os trabalhadores efectivos estão protegidos contra despedimentos colectivos até final de Dezembro deste ano, (o que é importante pois neste momento existe na Administração alemã uma enorme expectativa sobre como vai reagir à crise do euro o mercado europeu no próximo semestre). O nosso objectivo como Comissão de Trabalhadores tem de ser o de, no acordo a negociar em breve e que deve entrar em vigor em Outubro próximo, garantir o maior número de postos de trabalho possível dos não efectivos e estender a garantia pelo maior período possível de não haver despedimentos colectivos.

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