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Correio da Manhã

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A mais gira

Conheceu-o só nessa tarde por intermédio de amigos da universidade, com quem acabaram numa festa, e agora ali estão os dois a respirar o ar puro do jardim, longe do ambiente de fumo lá de dentro.
27 de Outubro de 2013 às 15:00
Tiago Rebelo, Breves Histórias, crónica
Tiago Rebelo, Breves Histórias, crónica FOTO: João Cortesão

Ele passa o braço pelos ombros dela e declara com um sorriso astuto: gosto de estar aqui contigo, debaixo das estrelas. Ela ri-se pela forma como ele diz aquilo. Compreende que está a ser deliciosamente impostor, que a elogia com ligeireza só para a divertir. Mas, por outro lado, dá-lhe sinais de que aprecia realmente a sua companhia. Sente-se a rapariga de beleza banal com o rapaz que qualquer uma desejaria conquistar, o que é estranho e, ao mesmo tempo, muito agradável. De qualquer modo, não se acha à altura dele, não acredita que goste de si realmente e opta por não o levar a sério, precavendo-se de uma desilusão.

Conversam o resto da noite, ela a pensar que ele só quer divertir-se um pouco, ele a pensar que ela é encantadora, porque, na verdade, é mais bonita do que imagina e, na sua timidez, é insegura e tem tendência para se desvalorizar. Já ele, extrovertido e determinado, não tem essas preocupações. Ela deixa-se ir, envolvendo-se mais do que pretendia, sem conseguir moderar o entusiasmo, contrariando as campainhas de alarme que vão soando no seu cérebro cauteloso.

De manhã, acorda com a impressão de que foi tudo um sonho e a noite passada não aconteceu. Contudo, ele surpreende-a com uma mensagem no telemóvel.

A tarde escoa-se imperceptivelmente enquanto passeiam pela cidade, tomando um café na esplanada, percorrendo a tranquilidade de um jardim, correndo às gargalhadas para fugirem de uma chuva miudinha, abrigando-se debaixo das arcadas de um edifício antigo.

Ele beija-a num impulso, ela pensa mais uma vez que está a viver um sonho. Do interior de uma discoteca ali ao lado, onde se vendem velhos discos de vinil, escuta-se uma música suave que fica no ouvido. É Touch Me, dos The Doors. A chuva pára. Porque é que uma pessoa como tu haveria de gostar de alguém como eu?, pergunta ela, quase como se reflectisse em voz alta, levando-o a olhá-la de frente, surpreendido. Porque és a mais gira e a mais divertida de todas, responde-lhe. Sou? És. Não sabia, pensa, perplexa, mas não diz. Sorri-lhe só, dá-lhe o braço e vai caminhando com ele num silêncio cúmplice.

Tiago Rebelo Breves Histórias crónica
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