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A mão que embala a arma

Quando os namoros não são aceites, o aviso – cuidado com o pai dela – ainda faz sentido.
8 de Maio de 2011 às 00:00
O smart de Diana continua estacionado à porta do prédio onde se deu o crime
O smart de Diana continua estacionado à porta do prédio onde se deu o crime FOTO: Bruno Colaço

André e Cátia comemoravam quatro meses de namoro. No arrebatamento da adolescente paixão, o jovem de 19 anos rumou de Lisboa a Valeiro das Hortas, Vila Nova de Poiares, para surpreender a namorada, de 17 anos. Mas a casa dela, o pai chegou mais cedo e acabou com o namoro a nu, no quarto, a tiros de caçadeira. Ela fugiu pela janela, ele conheceu a força dos disparos das balas, embora sem gravidade.

Em Almada, a médica Diana Santos não teve tanta sorte. Baleada três vezes pelo pai que também não concordava com o namoro, ficou tetraplégica. Actos de loucura de pais que tentaram pôr termo às vidas que geraram e que os especialistas consideram fruto "da mentalidade sexista do macho latino e do clima de instabilidade social".

CONFRONTO DE GERAÇÕES

São "sinais dos tempos", na opinião do criminalista Francisco Moita Flores, pese o facto deste novo tempo já ter quase quarenta anos de inscrição na história. "A emergência das mulheres na vida activa, com a autodeterminação da sua vida sexual e bem longe do traço romântico tutelado pelas famílias, confrontou, e confronta, muitos pais com novas realidades que escapam à idealização cristã do sexo-casamento. É uma ruptura tão brusca que gera raivas e cóleras que se abatem sobre as filhas quando, julgo eu, são uma rebelião contra um mundo que ainda não percebem ou já não conseguem perceber", acrescenta.

Os ideais cristãos, porém, moravam longe do prédio em Almada onde António Marques, ex-fuzileiro de 60 anos, era conhecido pelos vizinhos por ofender e humilhar a filha de 26 anos, médica no Hospital de Évora. As brigas tinham subido de tom desde que Diana começara a namorar com um empregado de uma empresa de automóveis, contra a vontade de um pai que sonhava levá-la ao altar para os braços de outro médico.

Depois da separação da mãe de Diana, António já tinha tido outras duas mulheres, que abandonaram o lar devido à violência doméstica. Noutro sábado à tarde deste Abril aziago, mal a jovem médica entrou em casa, depois da viagem de Évora até Almada para passar o fim-de-semana, estalou discussão. Nem teve tempo de desfazer a mala. Caiu por terra, deixando automaticamente de sentir qualquer dor ou estímulo no corpo. Depois dos três tiros fatais que desferiu na filha, António pousou a arma no hall e saiu. Ao cruzar-se com um vizinho, antes de ser detido, disse: "Já me chateei outra vez com ela".

Em Valeiro de Hortas, André Loureiro foi conduzido ao hospital, com ferimentos nas pernas e nas costas. José Correia, o seu agressor, aguarda julgamento em liberdade.

VIDA NUM INFERNO

"São muitos os pais que transformam a vida das filhas num inferno por causa dos namoros. Por vezes, há uma grande dificuldade na desvinculação que remete para os complexos de Édipo e Electra mal resolvidos. Houve qualquer coisa que bloqueou a separação, o que leva os pais a percepcionarem os filhos como sendo propriedade deles", afirma a sexóloga Vânia Beliz.

Os países mediterrânicos são particularmente associados a esta mentalidade protectora por parte do pai ou do irmão mais velho, e frequentemente caricaturados no grande ecrã pela ficção anglo-saxónica. E também é verdade que é neles que ocorrem mais crimes em família, pois, segundo o sociólogo Luís Reto, "é onde os afectos são mais intensos e, logo, as reacções mais extremas".

FACTORES EXTERNOS

"O sentimento protector de um pai relativamente a uma filha é algo desejável, mas nestes foi claramente excessivo e associado a uma violência brutal, provavelmente causada por factores externos. O crime explosivo encontra-se frequentemente ligado a frustrações que se vão acumulando e que levam a uma libertação de raiva quando o ofensor se vê confrontado com mais uma frustração, neste caso o fracasso em ‘proteger’ a filha do namorado", alerta a psicóloga forense Francisca Rebocho.

A mesma opinião partilha o psicoterapeuta José Carlos Garrucho. "Vivem-se momentos de grande instabilidade e perturbação económica e social. Muitas pessoas estão no seu limiar de capacidade de adaptação à frustração e um acontecimento destes pode ser a gota que faz transbordar o copo. Estes homens podem ter tido um surto psicótico, em que, por momentos, se desorganizaram completamente e deixaram de ter consciência de si próprios, embora isso não tenha nada a ver com inimputabilidade".

Mas não é apenas nos factores externos que o problema finca raízes. "Quando os seres humanos namoram, não acasalam simplesmente, casam também expectativas e valores familiares e simbólicos. Por outro lado, a visão dos homens sobre as filhas continua a ser sexista: elas não deviam ter o direito de escolher, eles – os pais – é que o deviam fazer, pois assim escolheriam o melhor para as filhas".

E depois do drama, não vem a bonança para as famílias cuja honra foi lavada com sangue. "As vítimas poderão ter ou não capacidade de perdoar e aceitar. Já o agressor terá de lidar com a culpa e com o facto de ter feito tudo ao contrário do que lhe era exigido: o dever de proteger e amar. O processo pode nunca ter resolução definitiva, pois recuperar e refazer as relações familiares é doloroso e, sobretudo, nem sempre é possível", afirma José Carlos Garrucho.

O PODER DE QUEM TEM A ARMA

"Situações destas são a extensão do princípio do patriarcado, em que pai determina o destino das filhas e reage de forma violentíssima se estas recusam circular dentro dos limites da sua coutada", afirma Maria José Magalhães, psicóloga e presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). Tratando-se de uma "grave violação dos direitos humanos", o acto assenta noutro factor de desigualdade: "O horrível poder de ter uma arma na mão e poder tirar uma vida ou comprometê-la seriamente. Não se entende como é que alguém que ama, que tem o dever de proteger, pega numa arma".

NOTAS

FUTURO

Diana Santos continua internada no Hospital Garcia de Orta sem perspectivas de recuperação.

VALORES

"Os valores ligados à sexualidade e estatuto social mudaram tremendamente", diz Luís Reto.

NAMORO

Antes de ser transportada para o hospital, Diana disse aos vizinhos que só queria ter o namorado a seu lado. 

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