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A máquina de fazer moedas

A Casa da Moeda é uma autêntica fábrica de dinheiro. Em 2009 produziu 2 milhões de moedas. Agora só resta imaginar o som
13 de Junho de 2010 às 00:00
O som das moedas a cair é ensurdecedor. Aqui são 550 por minuto. E 550 euros
O som das moedas a cair é ensurdecedor. Aqui são 550 por minuto. E 550 euros FOTO: Pedro Catarino

As moedas de 20 cêntimos que trazemos no bolso são da Hyundai – é marca de automóveis mas é também um dos fornecedores de ouro nórdico da Casa da Moeda portuguesa para cunhagem dos 10, 20 e 50 cêntimos. E são ainda esculturas de Vítor Santos que recebeu em 1998, "pouquíssimo" – segundo o próprio – para as criar: 3100 contos, o que equivalia a dizer, à data, 53 ordenados mínimos nacionais (hoje seriam 25 mil euros). Ocupando um quarteirão em Lisboa, a Casa da Moeda é uma das mais importantes obras do modernismo arquitectónico português. Além do edifício da administração, que data dos anos 30, este complexo encerra um corpo de oficinas onde se produzem as moedas de euro.

OFÍCIO DE UMA VIDA

António Nunes, 50 anos, chegou aqui aos 16. Lembra-se que uma vez vestiu calções e foi repreendido. A partir daí, entrou na linha. "Recordo-me também que quando entrei, porque o meu pai era motorista da administração, fiz os testes psicotécnicos para saber onde é que melhor eu me adaptaria. E o resultado foi gravura numismática. Tive depois que estudar, essencialmente desenho, na Escola António Arroio" – recorda ele, hoje já chefe de secção. "Ainda sou do tempo do centavo de alumínio. Eu gostava mais do escudo. Era o escudo. O euro é de toda a gente, o escudo era só nosso, deste cantinho".

É com António que tudo começa na produção da moeda. Mas para se chegar ao euro é preciso passar pelo escultor Vítor Santos, 64 anos. "Inspirei-me nos símbolos de autenticação reais de D. Afonso Henriques. Pensei: ‘se eu remeter a moeda para o primeiro rei é uma escolha acertada’. E para que não houvesse um corte com o escudo, achei que podia desmontar esse símbolo – os castelos e os escudetes – e pô-lo em diálogo com as estrelas da UE – que era obrigatório colocá-las". Foi com esta ideia que venceu o concurso proposto a vários escultores que habitualmente colaboravam com a Casa da Moeda noutros projectos.

O EURO DE GESSO

O resultado do trabalho artístico é uma placa de gesso em forma de moeda com 25 centímetros de diâmetro. Essa é a escultura. Já nas oficinas chefiadas por António Nunes é feito o negativo do gesso, ou seja, é vazado um líquido sobre a sua superfície que, quando solidificado, após 24 a 48 horas, dá origem a uma placa de dimensões idênticas mas onde os relevos do gesso aparecem agora em baixo relevo. São estas moedas de resina que se colocam no pantógrafo. Esta máquina vai copiar a gravura num bloco de aço, que será a matriz da moeda. A partir desta peça serão fabricados, primeiro, punções e, depois, cunhos que darão origem à face portuguesa do euro. A matriz da face comum a todos os países chega da Alemanha, Espanha, França, Itália e Áustria.

Na secção da Gravura Numismática há uma parte que faz lembrar as antigas salas de aulas de trabalhos oficinais na escola preparatória. Bancadas que são blocos rígidos de madeira e com muitos utensílios de trabalho minucioso espalhados. O cheiro é emanado por toda aquela madeira e pelo álcool usado para limpar as peças. "O que me dá mais gozo é apurar, retocar o mais possível e o que a nossa paciência permite, as matrizes", conta António Nunes.

SEGURANÇA MÁXIMA

Para se entrar na zona de produção passa-se por um enorme corredor com cofres. Lá são depositados todos os objectos dos trabalhadores. A partir daqui, qualquer moeda que entre no bolso, já não retorna. Há um segurança numa cabina com vidro escurecido – impossível de deixar ver o seu rosto – que autoriza o acesso àquela área restrita através de uns cartões magnéticos que serão introduzidos numas portas que abrem, dando acesso a uma cabina de espera, antes de se entrar na oficina onde se produz a moeda de euro. Há segurança máxima.

Para lá das portas encontra-se uma área onde estão armazenadas dezenas de caixotes de madeira com discos de vários materiais já com a forma da moeda de euro. Por exemplo, os discos para produzir moedas de 10, 20 e 50 cêntimos são de ouro nórdico e, lê-se nas caixas, os fornecedores são a empresa sul-coreana Hyundai e a marca italiana Verres. As moedas de 1 e 2 euros têm uma coroa e um núcleo de materiais diferentes.

Todos estes metais são validados antes pelo controlo de qualidade feito no laboratório da Casa da Moeda. Aliás, a qualidade é certificada em várias fases do processo de fabrico.

Entre 1999 e 2002, na fase de lançamento do euro, trabalhavam 100 funcionários na produção da moeda. Completavam dois turnos das oito da manhã à meia-noite. Hoje são 47, à volta dos 40 anos de média de idades. Muitos dos outros reformaram-se ou foram transferidos de serviço. Agora, só fazem um turno das 08h00 às 16h30, com pausa de meia hora para almoço.

Segundo o director da Unidade da Moeda, o engenheiro químico de formação Paulo Leitão, de 49 anos, para se trabalhar na Casa da Moeda como operador de máquina basta ter a escolaridade obrigatória. Depois, internamente, é-lhes dada formação. "Por exemplo, só nós formamos em cunhagem porque não é expectável que outras pessoas façam moeda em Portugal". Segundo o director, "o nível de falsificação de moeda é baixo, está longe de ser preocupante".

550 EUROS POR MINUTO

O espaço tem um pé-direito alto e janelas no topo. O chão está a ser mudado aos poucos. Há um cinzeiro enorme, cheio de beatas, junto a uma parede.

Há sete máquinas para cunhagem de moedas. As prensas têm uma força de 100 a 300 toneladas – equivale a mais do que o peso de 100 a 300 automóveis pequenos. A máquina que está a produzir moedas de 1 euro tem uma cadência de 550 por minuto; 550 euros por minuto. A de 2 cêntimos produz 800 moedas por minuto. São 16 euros.

O som das máquinas é implacável. Nem se pode comparar ao barulho das moedas a descerem pela boca das slot-machines.

Esta área é operada por moedeiros. A eles cabe ainda a função de se certificarem que não há problemas de produção que comprometam as moedas.

As máquinas são alimentadas com discos. Cada um é levado até ao centro e colocado dentro de uma argola que controla a sua expansão ao ser-lhe impressa uma batida de, no mínimo, 100 toneladas. Os cunhos, ao entrarem em contacto com o disco – estilo sanduíche – gravam as duas faces da moeda.

"Em 2009 produzimos 200 milhões de moedas. A mais pedida [pelo Banco de Portugal] é a de 1 cêntimo. A menos, a de 2 euros", diz o chefe de Produção da Unidade de Moeda, Paulo Alexandrino.

Na última fase antes do transporte para o Banco de Portugal, feito por uma carrinha blindada própria e escoltada pela polícia – que não é possível fotografar, por razões de segurança –, as moedas são embaladas. O sistema é automático e feito em diversos tapetes-rolantes que vão fazer rolos de moedas e plastificá-los. Cabem num caixote 695 quilos de moedas de 2 cêntimos, são 217 500, ou 4350 euros.

E quanto custa produzir cada moeda de 1 cêntimo, por exemplo? Mais do que o valor facial? Paulo Leitão, director da Unidade da Moeda, escusa-se a responder: "é que, entre outras razões, também há concorrência entre as Casas da Moeda para produzir moedas para países da zona Euro que não têm Casa da Moeda própria". Para o comum dos portugueses a resposta é fácil. Trazer dinheiro no bolso custa caro.

BANCO DE PORTUGAL MANTÉM SIGILO NO FABRICO DAS NOTAS

Pouca gente se apercebe e muita parece nem ligar que no Carregado, concelho de Alenquer, existe um complexo vedado por muros altos com arame farpado onde se fabricam notas. É único no País e pertence ao Banco de Portugal (BdP). Por "razões de segurança" – fundamenta a assessoria de imprensa do BdP– não são permitidas reportagens no interior deste cofre forte altamente protegido pela polícia. "Não é possível fornecer imagens sobre a produção de notas", insiste a mesma fonte.

As imagens cedidas são das fases de escolha e destruição de notas de euro, que é um processo da análise de circulação do dinheiro de papel. "Em 2009 foram processadas nos sistemas de escolha do BdP cerca de 760 milhões de notas, o que corresponde a uma diminuição de cerca de 3% relativamente a 2008. Destes, 447 milhões foram consideradas com qualidade para regressar à circulação, tendo os restantes 313 milhões de notas sido amortizados e destruídos."

Quanto a notas falsas, foram apreendidas 193 de 5 euros; 601 de 10; 3536 de 20; 5526 de 50; 1069 de 100; 305 de 200; e 256 de 500. "Diria que o desenho, elementos de segurança, etc. das notas de euro [e moedas] são pensados para dificultar ao máximo a contrafacção", diz o BdP.

MOEDAS PARA COLECCIONAR

A Casa da Moeda produziu também a moeda de Timor-Leste. Aliás, há diversos concursos internacionais – a que concorre – para emissão de moeda. Outro dos mercados é o de coleccionismo. São também produzidas diversas moedas comemorativas.

O processo de produção deste tipo de moedas é mais refinado do que as de euro de uso corrente. A explicação é simples: as primeiras destinam-se a coleccionadores, as moedas correntes passam de mão em mão.

NOTAS

SEGREDO

Nenhuma Casa da Moeda divulga os custos de produção de cada moeda, conforme confirmámos.

4.400 EUROS

Os desenhos e gesso de uma face de uma moeda comemorativa valem 4400 euros ao escultor Vítor Santos.

DOIS MILHÕES

Em 2009 foram produzidas 2 milhões de moedas. Este ano a encomenda é menor.

LUCRO

As vendas da Casa da Moeda cresceram 21%, atingindo os 84 milhões de euros em 2009.

CARTÕES

Cartões de crédito e o mercado internacional são as novas apostas da Casa da Moeda.

NOVOS BI

A produção de cartões do cidadão e de passaportes foi responsável pelos lucros de 2009.

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