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A maratona de Cavaco

A Domingo seguiu Cavaco Silva no primeiro dia da sua volta pelo País. Do beijo ardente à mulher, Maria, na sua casa em Lisboa, até aos banhos de multidão, que levaram o candidato a Pombal onde discursou perante 4200 apoiantes.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
A maratona de Cavaco
A maratona de Cavaco FOTO: Marta Vitorino
Cavaco desce do palco, após um discurso em que, perante o líder do PSD, exigiu colaboração à oposição para salvar o País. Pela enésima vez no dia, ouvem-se os primeiros acordes do hino da campanha. A voz de Kátia Guerreiro funciona como ordem para avançarem pela sala dezenas de homens e mulheres fardados a rigor – impecáveis num sóbrio preto e branco – levando a ansiada sopa até 4200 apoiantes que enchem o recinto em Pombal. Para trás ficara o simbólico abraço a Marques Mendes e uma lenta caminhada até ao palco por entre um mar de bandeiras e uma parede de som onde só ecoa “Cavaco, Cavaco, Cavaco”. Dois ecrãs gigantes ampliam para quem está longe a imagem do candidato. Sorriso solto e um gesto repetido por entre multidões: os braços enérgicos erguidos agitam-se com as mãos fechadas em polegares para cima. “Força” é a palavra mais repetida por Cavaco Silva quando caminha por entre a multidão ajudado pelos seguranças da PSP.
É segunda-feira, dia 9. O primeiro dia da maratona que o Professor vai cumprir pelo País começa na sua casa de sempre, em Lisboa, à Estrela. Passam trinta minutos das nove da manhã. A reportagem da Domingo entra com Fernando Lima, assessor e amigo de Cavaco, na casa do candidato. Maria Cavaco Silva dá os últimos retoques na roupa do marido. Um gesto acerta a gravata vermelha, as mãos confirmam as abas do casaco azul escuro. E foi numa sala típica da casa portuguesa de classe média-alta – uma floresta de fotos da família desponta de um comprido móvel baixo –, que a professora se queixa, desafiada pela pergunta: então o que sente ao ver o seu marido partir para esta maratona? “Ele já partiu há tanto tempo...” diz, “não sinto que seja o início da maratona.” Maria vai ficar por Lisboa. Tem os seus alunos de Literatura Portuguesa a quem não pode faltar. “Só quero que tudo corra bem”, atira a olhar para o marido que alinha papéis com ar ausente, “e estou a falar principalmente do cuidado que é preciso ter nas nossas estradas...” Depois a mensagem política, “desejo também que ele continue delicado, a passar a sua mensagem política como sempre fez.”
O beijo à porta marca o reencontro para “até já”, em Leiria. Maria chegará, pelas 13h25, ainda a tempo do almoço, com as malas que acompanharão o candidato nesta volta a Portugal que durará dez dias. À porta de Cavaco estão três carros. O BMW 525 (diesel) que transporta o candidato. Um Lancia Kappa (que já conheceu melhores dias) onde se deslocam os dois agentes da PSP especialistas em segurança pessoal e respectivo motorista. E uma Renault Space para Fernando Lima e outros membros da candidatura. A comitiva põe-se em marcha. O carro de Cavaco é o do meio. Pelo trânsito de Lisboa, anda-se o mais rápido possível. Destino: TSF. Já passa das dez quando entra no estúdio. Durante a conversa lembra as suas “310 reuniões com Soares” e garante que, com ele na Presidência não haverá fugas de informação sobre as conversas mantidas em reuniões com o primeiro-ministro. O recado está dado.
Passam 21 minutos das onze, o staff agita-se. Fernando Lima faz um telefonema. Sai da sala onde ouviu a entrevista e num sinal discreto avisa a entrevistadora de que o tempo urge. Sete minutos depois Cavaco sai do estúdio. “Moscavide é mesmo aqui ao lado, não é?”, diz para Lima como que pondo um travão na pressa em recuperar o atraso.
Moscavide, um terreno hostil dominado pelo PS. Mas quando, pelas 11h35, Cavaco sai do carro, é envolvido por uma onda de apoiantes. Bem mais de duas centenas de bandeirinhas começam o trajecto pela rua principal da terra. Duas gaitas-de-foles e um tambor dão um toque celta à cabeça do cortejo. Nos passeios, uma maioria de meros mirones, indiferentes, ou mesmo opositores. “Não têm dinheiro para pagar o almoço e andam para aí armados em totós”, atira um velhote de boina surrada. Outro, igualmente velho, aparentemente pobre, sai do conforto do passeio para retorquir que “isto nem com um Salazar lá vai”, o primeiro só responde com uma careta e parte por uma transversal com uma energia inusitada. Numa janela de persiana oblíqua resguarda-se aquela velha toda de negro. Tem as mãos postas como se rezasse. Cavaco nunca perde o sentido das janelas – a caça aos votos tem vários níveis – ali acerta em cheio: olha a senhora e faz-lhe o “v” com os dedos. Ela leva as mãos postas ao peito e emociona-se. É neste momento que uma motorizada cacareja décibeis e cheiro a combustível, acelera e trava perigosamente, na cauda das gentes. São principalmente idosos quem ali vai, sem passo para acompanhar a mosh em torno do candidato.
De capacete integral na cabeça, sacola à tiracolo e olhar frio, o homem não pára de acelerar e travar. Afasta gente para o passeio e impede o engrossar da hoste. Um casal com bandeirinhas dirige-se-lhe “é melhor o senhor apanhar aquela rua e depois vira à esquerda e vai ter lá acima...” O homem da motorizada com matrícula de Vila Franca de Xira olhou o repórter por momentos como se dissesse “não perceberam nada”... Claro que o motorizado não virou para lado algum. Levou a sua missão até ao fim. Cumprida com brio militante.
Cavaco despede-se. Próxima paragem. Leiria. Almoço com jovens apoiantes. Duzentas gargantas querem que Cavaco salte antes do discurso “e salta Cavaco, salta Cavaco, olé, olé!” O candidato mantem a compostura. Fora do restaurante, a multidão vai-se adensando. Um velho cego exibe lotarias enquanto fala com uns e outros assoando-se muito. Uma tuna académica aquece o ambiente. O cego tosse a gripe e uma senhora trava o carrinho de bebé exactamente antes daquilo que julga ser o local da queda da saraivada de micróbios expelidos. Depois pega na criança ao colo. De repente as pessoas juntam-se mais. O cego fica sozinho. Vira-se perigosamente para um perigoso declive no passeio. Estava o repórter decidido a deixar a pose de anjo para evitar o acidente quando da agitação se elevam gritos de “Cavaco, Cavaco.” A bengala vira-se, tacteia para onde vem o som. Passou o perigo para o cego, começou mais um banho de multidão. Desta vez a multidão é compacta, entusiástica, crescente. Logo que a segurança o resgata aos braços das gentes, refaz--se o cortejo. Destino Marinha Grande. À frente, o Toyota Avensis garante o caminho, segue-se o BMW do candidato, depois o Lancia da segurança, o Renault Space de Fernando Lima, e um Passat fecha a comitiva.
Nas viagens, Lima contacta com o centro de operações instalado em Lisboa. Daí lhe vem a informação sobre as declarações feitas pelos outros candidatos e o tratamento noticioso da campanha. Os dados relevantes são comunicados a Cavaco Silva. Próxima paragem. Visita ao Centro de Formação Profissional em Cristalaria. As explicações do costume e o tradicional sopro no vidro. Nova viagem. Pombal. Hotel Pombalense, um três estrelas, onde o candidato repousa hora e meia, antes de um novo mergulho na multidão.
CAVACO A CAMINHO DE BELÉM
CAVACO HUMANO
Cavaco Silva está mais solto. Deixou a pose de primeiro-ministro e ganhou volume humano. A conversa que manteve com a Domingo decorreu entre Marinha Grande e Pombal. Aqui, numa fila de trânsito, Cavaco apercebe-se que um grupo de adolescentes está a olhar curioso para o seu potente carro mas sem o ver. Bateu com força no vidro e sorriu com gosto quando o carro partiu com os miúdos a apontarem “olha o Cavaco!”.
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