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A meio-caminho da vida real

"Se soubesse o que sei hoje, não tinha entrado. Isto é um apoio fundamental mas é para quem não tem família”. Três meses depois de ter saído da casa do projecto Oportunidades, o Paulo não faz cedências: “Tenho tido muita calma”, declara. E tem.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
Afinal, aos nove anos de cadeia soma nove meses no apartamento onde, com outros ex-reclusos, viveu um período de transição destinado a preparar a sua adaptação à vida cá fora. Foi ali que o visitámos há quatro meses e, já então, Paulo mostrava-se amargo: “Liberdade? Nem pensar nisso. Esse sentimento não tenho”.
Mesmo fora da prisão, com emprego e projectos de vida, sentia-se nele o desalento. A desilusão. Não seria feliz, nem livre, enquanto não voltasse para a sua ilha Terceira, onde o esperava, pensava ele, a concretização do seu sonho: montar o seu próprio salão de cabeleireiro.
O ofício, aprendido na cadeia, foi o que escolheu e adora. Enquanto esteve na casa, não descansou. Tinha um espaço à espera nos Açores. Quem lho ia passar só aguardava a sua chegada para se reformar. Um conhecido suficientemente amigo para confiar no rapaz que um dia se afastou do caminho certo.
Mas não tão amigo como isso. Afinal, foi “outro rapaz” que ‘agarrou’ a oportunidade. Ainda tentou arrendar-lhe o salão, mas nada feito.
Depois, abriu “um espaço para cortar cabelos”. Mas o local era mau, a clientela escassa e Paulo teve de desistir. Por mais que adore a profissão precisa de “algum bem-estar e dinheiro para pagar a alimentação e os transportes”. Vai começar a trabalhar na construção civil.
Decepcionado com as instituições de reinserção social que o “enganaram”, persuadindo-o de que o acesso ao microcrédito só era possível no continente, e com a maioria dos familiares e ‘amigos’ dos Açores que, à distância, lhe prometeram apoio mas o deixaram pendurado, Paulo conta com a apoio da sua “querida irmã Ana”.
E promete “dar que falar” com a sua arte, as esculturas em madeira que são o seu escape desde que estava no apartamento do Oportunidades. Já se sente livre, o Paulo. Mas, no regresso, o lar já não é um doce lar... tê-lo-á sido alguma vez?
RICARDO
Ao segundo dia de ali estar, o Ricardo queria ir-se embora. Voltar para o Linhó. Não sabia andar na rua, não sabia o que queria nem se lhe agradava aquilo.
Talvez fosse melhor lá no xadrez. Oito anos é muito tempo, sobretudo quando se tem 28. Quase uma vida. A vida de adulto inteirinha atrás das grades, ao ponto de não se saber o que fazer com a liberdade tantas vezes sonhada e agora alcançada, mesmo que com o colado epíteto de condicional. Ao ponto de não conseguir dizer grande coisa, embora aceitando falar.
Monossílabos. Acenos de cabeça. Felizmente, Lino Nascimento, o educador social, pode servir de porta-voz. Foi ele que acompanhou o rapaz em todos os seus passos no regresso à realidade.
Não é fácil sair da prisão. Desengane-se quem possa pensar o contrário. Lá dentro há regras, paredes e horários. Mas também cama, mesa e roupa lavada, por assim dizer.
Cá fora, é preciso resolver essas questões. E há quem não tenha apoios. Porque a família não existe, ou porque já não quer saber deles. Apesar do relativo isolamento a que foi votado durante os anos de xelindró, foi num dos primeiros dias, às voltas com Lino, que Ricardo encontrou um tio.
É o que se chama estar no lugar certo à hora certa: de um dia para o outro, as perspectivas alteraram-se. Os jantares em família tornaram-se regulares. Claro, voltar para a cadeia não lhe voltou a passar pela cabeça.
Nos primeiros dias, foi acompanhado de perto pelo Lino. O educador correu com ele repartições, centros de saúde, arquivo de identificação a tratar de toda a papelada necessária para reiniciar vida nova. E descobriu uma conta bancária no seu nome ainda com algum dinheiro. Era suposto ter gasto a pequena soma com moderação. Mas Lino não conseguiu evitar o entusiasmo do jovem.
Foi num instante enquanto os euros se transformaram em calças, camisolas e ténis novos. Da roupa nova à vida nova foi um passo. Ricardo mal teve tempo para aquecer o lugar e já voou em direcção à Madeira. Ali está, segundo Lino, “a trabalhar num centro hípico”. Livre que nem um passarinho.
JOÃO
João foi dos primeiros hóspedes da casa. Entrou pouco depois da inauguração, em meados de 2006. A vida trocou-lhe de tal forma as voltas que agradece o ter estado ali tal como as outras bênçãos que o afastaram das drogas, já lá vão vários anos.
Quatro de comunidade terapêutica e dois de cadeia, por uma “coisa antiga”. Foi para o Estabelecimento Prisional de Lisboa. Contra todas as expectativas não recaiu por isso. Antes, pelo contrário, ganhou “mais força ainda”. E não tem sido fácil, a vida de João, mesmo depois de conquistar a condicional.
Só passados meses, quase um ano, conseguiu um emprego, a distribuir material para as escolas. Antes, foi voluntário na Santa Casa, a trabalhar com idosos. “Foi uma coisa que descobri em mim”. Já tinha feito teatro de rua, “quando era jovem”.
Aos 35 anos, pensa voltar a estudar, e anda a tratar da Certificação de Competências. Não teve pressa de sair da casa, onde esteve mais tempo que qualquer um dos outros . Sente que “se calhar foi melhor assim - para voltar à realidade”. Lembra a passagem pela comunidade terapêutica onde largou as drogas “a frio” e experimentou uma vida diferente.
Uma mudança radical, para quem estava acostumado aos guetos. A metamorfose foi tal que o João se sente quase a viver uma nova encarnação. E está feliz. Uma mulher entrou na sua vida e quando estiver preparado irá viver com ela.
Um dia de cada vez. Assim é a vida no apartamento onde ex-reclusos preparam a sua reentrada “na vida real”.
Assim era há quatro meses. Hoje, os habitantes da casa são outros. Bem ou mal, Paulo, Ricardo e João estão de regresso à ‘vida real’. Apesar das desilusões, Paulo não renunciou aos seus sonhos.
Ricardo está bem, a acreditar no educador social. O João, de regresso ao Norte “também está orientado”, refere Lino. Nem um nem outro mantiveram o contacto com a casa. Um dia destes darão notícias. Ou talvez não.
O PROJECTO
A casa de transição do projecto Oportunidades foi inaugurada em Junho de 2006. Tem capacidade para 5 ex-reclusos que ali reaprendem as regras da convivência social.
O apartamento resulta do trabalho conjunto da Misericórdia de Lisboa, da Comunidade Terapêutica Vale de Acór, da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais e da Direcção-Geral da Reinserção Social.
Para entrar na casa, é preciso preencher vários requisitos que vão da abstinência de drogas ao comprometimento com as regras estipuladas. O educador social acompanha os residentes durante o dia e dois monitores à noite, alternadamente.
(RE)APRENDER A VIVER
O papel de Lino é ajudar os recém-chegados à casa a adaptarem-se à sua nova vida: saber procurar emprego. Saber conviver com os outros hóspedes.
Aprender a cozinhar, já que as tarefas são partilhadas segundo um esquema semanal afixado à entrada do apartamento: há que limpar, aspirar, cuidar das roupas, dos espaços comuns. Respeitar os horários.
Todos podem sair, mesmo à noite – afinal de contas, “eles já não estão presos!” –, mas é proibido levar bebidas alcoólicas para dentro de casa, consumir drogas, mesmo fora, incomodar os outros residentes com barulho ou com visitas imprevistas. No limite, quase tudo pode ser permitido, desde que previamente combinado e negociado.
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