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Correio da Manhã

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"A minha companhia sofreu seis baixas"

Perdemos camaradas em combates e também vítimas das minas que se escondiam no caminho. Era o mais difícil na guerra, perder a família.
13 de Abril de 2014 às 15:00
A tocar clarim, que era a minha função, em Sá da Bandeira
A tocar clarim, que era a minha função, em Sá da Bandeira FOTO: D.R.

A minha carreira militar começou a 20 de junho de 1970, data em que assentei praça em Castelo Branco, no Batalhão de Cavalaria 6, tendo efetuado aqui a minha recruta durante dois meses. No final desse tempo fui para a Cavalaria 8, na mesma cidade, onde tirei a especialidade de clarim durante seis meses.

Antes de ser colocado em Santa Margarida, onde estive três meses, ainda passei um mês em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria. Embarquei a 28 de julho de 1971 no paquete ‘Vera Cruz' com destino a Angola, onde cheguei 22 dias depois. Na viagem ainda parámos em São Tomé e Príncipe.

As primeiras baixas a que assisti foi logo durante a viagem. Perdemos dois camaradas que estavam em cima do bordo - caíram ao mar e os corpos foram encontrados mais tarde na costa da Guiné. À chegada, a minha companhia (de Cavalaria 3363) dirigiu-se para o Grafanil, um quartel muito grande cheio de soldados, onde fomos render outros camaradas. À chegada a sensação foi de descoberta, era tudo tão diferente daquilo que conhecíamos. A minha especialidade - era soldado arvorado de clarim - não dava para ir combater , mas cheguei a oferecer-me como voluntário durante sete dias para ir para o mato. Fui sem medos, quis experimentar. Então, fui com o meu capitão.

Felizmente correu tudo bem e voltei são e salvo para junto dos meus camaradas. Nos dois anos que durou a minha guerra a minha companhia sofreu seis baixas: camaradas mortos em combate ou vítimas das minas que rebentavam com as berliets. Não é uma situação fácil de lidar. Um dos meus camaradas que morreu tinha-me emprestado dias antes a boina dele porque a minha estava larga e quando soube da morte dele nem quis acreditar. Ainda por cima, ele ficou com o braço todo esticado e não dava para o enfiar no caixão.

Enchi-me de coragem e fui à enfermaria fazer o que tinha de ser feito: puxar o braço dele com força para baixo. Depois disso, troquei as nossas boinas como a simples homenagem que podia ser feita naquele contexto. A guerra dava-nos uma coragem diferente, a gente não tinha medo de nada. Era preciso fazer, fazia-se. Alguma vez eu cá em Portugal era capaz de vergar o braço de um morto meu conhecido para o enfiar no caixão? Jamais. Há coisas que não se explicam. Éramos uma família autêntica e lidar com a morte daqueles que tínhamos por irmãos não era fácil. Estivemos em Quiage e Serpa Pinto, fazíamos as viagens todas nas berliets.

Eu era responsável pela messe dos oficiais e como tal essa função permitiu-me tantas vezes matar a fome aos camaradas que vinham de combater. Quando chegavam do mato o meu dever era servir-lhes uma refeição, a primeira a sério que tinham depois de operações de vários dias. Era inexplicável o estado em que eles apareciam depois dos combates. Também metia dó as crianças nativas à caça no nosso lixo de restos de comida que deitávamos fora.

RECORDAR A GUERRA

Fazemos todos os anos um almoço para os ex-combatentes da freguesia de Pontével, eu sou o organizador, e este ano não será exceção. No dia 25 de abril lá estaremos todos juntos. É uma forma de resgatar as memórias do passado e lembrar os momentos que passámos na guerra, os bons e os maus. Gostava de um dia voltar a Angola, aquela terra quente que de certa forma acabou por moldar a minha vida e que nunca esquecerei por muitos anos que viva.

HENRIQUE ELEUTÉRIO

Comissão

Angola, 1971-73

Força

Companhia de Cavalaria 3363

Atualidade

Vive no Cartaxo, é casado, tem uma filha e dois netos

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