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A minha vida já não se usa (parte II)

“As pessoas olham para mim e perguntam: “junto com a mesma pessoa desde os 18 anos? Mas o que é que tu sabes da vida?””
12 de Setembro de 2010 às 00:00
A minha vida já não se usa (parte II)
A minha vida já não se usa (parte II)

Há coisa de um mês escrevi nestas páginas um texto chamado ‘A minha vida já não se usa', onde assumia a minha condição de improbabilidade estatística: conheci a minha excelentíssima esposa no final da adolescência, casámo-nos assim que conseguimos alguma estabilidade profissional, reproduzimo-nos como manda a Bíblia e hoje em dia continuamos juntos.

Curiosamente, da vintena de crónicas que até hoje assinei nesta revista, foi esse texto meio conservador e démodé aquele que despertou mais reacções nos leitores: recebi uma catrefada de mensagens de solidariedade, empatia e instigação à perseverança na minha caminhada monogâmica (obrigadinho).

Ainda pensei: se calhar este é um daqueles casos em que existe um abismo entre o que é a percepção do estado das relações sentimentais nos dias de hoje (cada vez mais curtas e voláteis) e aquilo que efectivamente acontece na maior parte da sociedade portuguesa, com as pessoas a casarem-se e a permanecerem juntas ao longo da vida. Mas não sei se é isso. Na verdade, acho que é o contrário disso: as reacções ao meu texto nasceram do facto de algumas pessoas com relações estáveis - e, sobretudo, felizes - terem visto verbalizada publicamente uma raridade, como o avistamento de um exemplar que julgavam há muito extinto. E então reagiram, celebraram, perante aquela doce sensação do náufrago que descobre que, afinal, há mais alguém na sua ilha.

Porque, caros leitores, quando olho à minha volta parece-me que é mesmo cada vez mais uma ilha. Estou na idade dos divórcios e não tem passado semana sem histórias de casamentos esfarelados, relações esgarçadas e tristezas existenciais, porque as pessoas separam-se mais vezes mas continuam a sofrer muito. O resultado é que nós, os monogâmicos felizes, parecemos uma minoria acantonada, em permanente autojustificação. As pessoas olham para mim e perguntam: "junto com a mesma pessoa desde os 18 anos? Mas o que é que tu sabes da vida?" E eu não sei cantar hinos à monogamia. Encolho-me, peço desculpa, admito que não sei nada, até porque nem sequer tenho uma ideia firme sobre as razões que levaram a minha relação a ter funcionado até hoje. Quando faço contas à vida, acho que simplesmente tive sorte. E a sorte não se explica. Sobretudo a quem não a tem.

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