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A MORTE LENTA DAS FRAGATAS

Na margem Sul do Tejo, os dois últimos estaleiros de recuperação de barcos tradicionais estão parados. Esta é a história dos homens que o progresso quer ‘engolir’, apagando todo um passado à beira-rio.
4 de Janeiro de 2004 às 15:16
Jaime Costa traz a tristeza estampada no rosto, figurino que tenta disfarçar com um sorriso forçado de cada vez que lhe falam sobre o futuro. Só assim vai reunindo forças para todas as manhãs saltar da cama e dirigir-se para o estaleiro fundado há meio século pelo pai, do qual herdou, além do nome, a paixão pela arte de reconstruir embarcações tradicionais.
Filho de um dos mestres navais mais conhecidos da margem Sul do Tejo, começou aos 11 anos no ofício, embora desde os seis dormisse nos barcos do bisavô. Ganhava 25 tostões por dia, levava pontapés dos mais velhos, porque “isto antigamente era mais duro do que é agora”, e carregava pesos superiores ao próprio corpo. Hoje, encara o passado como uma parte decisiva na construção da sua personalidade. “Penso que é necessário sofrermos em pequenos para chegar a dada altura e termos consciência do que custa o trabalho, o ocupar determinada posição. Por isso, os 39 anos que levo desta exigente actividade têm sido marcados por uma entrega de luta, de alma e coração, a estas embarcações”.
Mas nem tudo vai bem. Apesar das palavras, das horas e dias perdidos por gosto e devoção a tão nobre causa, Jaime anda tenso, nervoso, sem saber como será o dia de amanhã. A conjuntura não é para menos. O pai, profissional de eleição, pensa vender o estaleiro, no qual detém ainda 70 por cento das quotas. A acontecer, será o fim da actividade que durante décadas deu outra graça ao rio. “De há três anos para cá, não sei o que se passa na cabeça dele. Chegou a dizer que íamos dividir os bens, que eu ficava com isto e agora afirma estar prestes a ver-se livre de tudo, a abandonar este local onde fez carreira e no qual me ensinou a trabalhar.”
De há quatro meses para cá, ele e dois primos deslocam-se diariamente para aquele cantinho de Sarilhos Pequenos onde repousam ainda uma série de barcos à espera que alguém lhes deite a mão e restabeleça o orgulho perdido. “Estamos entregues à vontade do meu pai, há espera que as pessoas acordem e vejam que isto não pode ser. Eu não aguento mais, isto é um massacre psíquico que nós três temos sofrido”, desabafa com a voz embargada enquanto olha para o caudal que banha, tranquilo, a areia.
Mesmo vivendo um cenário pouco favorável, Jaime Costa e os dois primos não abandonam o local, nem que seja pelo apoio que têm sentido por parte das autarquias locais, numa ligação de carinho motivada pelo facto de muita gente ter noção do amor com que sempre trataram os barcos. Jaime enaltece tal reconhecimento, fala com desenvoltura do trabalho cultural das câmaras municipais da Moita e do Seixal e sublinha preferir quebrar que torcer. “Somos teimosos por natureza e lutamos contra tudo e contra todos para que o estaleiro não feche. Mas acho que temos a sentença lida. É pena que a família não se entenda.”
O FIM DA CANOA MAIS LINDA
A situação torna--se mais confrangedora pelo facto de, contrariando a ideia de que a recuperação de barcos tradicionais está condenada à morte certa, Jaime Costa adianta existir trabalho para todos. “O estaleiro funciona há 50 anos e há aqui matéria para outros tantos, basta que a família resolva a situação, pois somos, talvez, os únicos no país em que 95 por cento do trabalho consiste na recuperação de embarcações tradicionais. Amamos esta actividade, fazemos de tudo um pouco, desde a calafetagem à carpintaria e à pintura”.
A raiva, que lhe atravessa a alma ao proferir tais palavras, sente-se à distância, motivada por uma série de factores, entre os quais ter sido obrigado a vender dois botes que lhe pertenciam desde há muito, o mesmo acontecendo à “canoa mais linda do Tejo”, que seguiu idêntico destino devido à falta de dinheiro e à necessidade de pagar os salários. Jaime chegou a não pregar olho dias a fio devido ao negócio que levou a sua jóia da coroa, embora se sinta orgulhoso por nada dever a ninguém. Enquanto não sopram ventos favoráveis, vai fazendo contas ao que poderá fazer no estaleiro num futuro próximo. Entre as muitas ideias, gostava de criar ali um gabinete técnico, assim como uma escola de formação para novos carpinteiros navais, rapazes que perpetuassem a profissão e o gosto pelos barcos antigos. Além do mais, as instalações têm potencial cultural, podem funcionar enquanto ponto de encontro entre o passado e o presente, pois “todas as pessoas do sector têm entre 60 e 80 anos, estão a envelhecer e já não podem fazer determinado tipo de trabalhos”. Para que tudo não passe do papel, Jaime Costa só pede saúde, rezando para não se ir psicologicamente abaixo com o momento que atravessa.
Sobre a hipótese de continuar o seu ofício noutro local, este homem de 50 anos dispara: “É um bocado difícil pensar em ir para outro lado. Gostava de morrer aqui, a trabalhar, até porque continuo a alimentar o sonho de construir uma fragata para a Câmara de Lisboa que, a par de Almada e do Montijo, ainda não tem uma embarcação tradicional a navegar no Tejo”.
NINGUÉM SUCEDE AO MESTRE
Mestre José Lopes não tem projectos dessa natureza. Aos 82 anos, o seu trabalho no estaleiro do Gaio Rosário, situado a poucos quilómetros do de Jaime, está perto do fim. Quando fechar as portas, enterra-se ali parte da história de um passado marcado pela beleza cromática de um Tejo repleto de cores, aquelas que saíram da fabulosa paleta com que o mestre pintava as mais diversas embarcações, desde os varinos às fragatas, passando pelas canoas, catraios, faluas, galeões do sal e botes.
Hoje, restam-lhe as memórias do passado, assim como uma grande mágoa pela arte ter-se perdido sem ter havido ajudas de ninguém. “Podem agradecer-me a recuperação de alguns barcos que ainda aí andam”, afirma desconsolado enquanto revela uma profunda tristeza por ter trabalhado num local com 40 operários e, actualmente, olhar para aquela área e ver que está quase fantasma. As pessoas ligadas ao sector desistiram ou foram contratadas por grandes empresas, como a Lisnave, e o mestre não vê qualquer interesse por parte dos sucessivos Governos em reabilitar o património ribeirinho.
Mas o progresso também é, segundo José Lopes, culpado. Por um lado, não existem aprendizes e, por outro, há uma rendição a matérias menos dispendiosas, como as fibras. “Eu dou-lhe um exemplo. Dantes ainda apareciam por aqui uns rapazitos que gostavam de estar a ver o trabalho, a ouvir histórias, mas hoje já não aparecem. Preferem ir jogar à bola e, pelo caminho, perdeu-se esta profissão”.
No estaleiro do Gaio Rosário não existe qualquer efectivo. Quando o mestre Lopes – como é carinhosamente conhecido na região – tem contratos, lá arranja um ou outro carpinteiro para fazer o trabalho. Mas são cada vez menos os nomes por quem chamar nessas alturas. Prova disso, actualmente não existe ali qualquer barco para restauro e, por receio, o próprio octogenário já não se disponibiliza por tomar o trabalho em suas mãos. A saúde e a idade avançada não perdoam, embora só em meados de 2003 tenha deixado definitivamente a carpintaria. “É uma vida muito dura, hoje está tudo aleijado da coluna”.
DE CAIXEIRINHO A PINTOR
Uma das ideias que podem dar nova vida ao estaleiro é a sua recuperação para a vertente museológica, algo que a que a Câmara Municipal da Moita está atenta (ver caixa). Seria a melhor forma de José Lopes sentir que o estaleiro fundado pelo pai não morrerá consigo, ficando ali preservadas as histórias de uma vida de intensa ligação ao rio.
Uma das mais curiosas será descobrir que o menino que se tornou mestre nunca teve intenção de fazer vida de carpinteiro naval. A sua ideia era imigrar ou estabelecer-se como comerciante, projectos que nunca se tornaram realidade.
Quando acabou a quarta classe, José foi para ali trabalhar, tinha dez ou 11 anos. Era um serviçal do estaleiro, andava atrelado ao pai e vendia material para quem aparecesse e quisesse fazer reparação dos barcos. Mas, à medida que foi crescendo, o ‘caixeirinho’ tomou o gosto pela construção. Aos 14, queria ter algum dinheiro para os seus gastos e começou a construir pequenas embarcações. Entusiasmou-se e nunca mais parou, até porque o acumular de experiência tornou-o num mestre, com dotes para a pintura, uma arte ainda mais rara do que a própria construção. Esse jeito veio também do pai, que conseguiu ultrapassar em talento. As pinturas serviam, aliás, de chamariz para o estaleiro. “Os ‘barcos de água acima’ traziam carregamentos de cortiça, de madeira, de fruta, viam os desta zona pintados e procuravam quem fazia aquilo. Tive muito trabalho nessa altura, fazia-o em série e quase de Sol a Sol. Ainda era muito jovem”.
Depois veio a II Guerra Mundial e uma ida forçada para Cabo Verde. José Lopes regressou “fartinho daquilo”, até porque tinha perdido três anos de trabalho no estaleiro. Foram, de resto, os únicos em que se ausentou da sua ‘segunda casa’.
A devoção à arte de reconstruir embarcações tradicionais foi-lhe reconhecida. Em Setembro último, chegou a devida homenagem por parte da Câmara Municipal da Moita, um acto que não esperava, até porque “apesar de ser muito estimado por toda a gente” continua a considerar-se uma pessoa simples e séria. O seu orgulho está nisso. A tristeza, essa, está na visão que tem do rio. “O Tejo não ficou feio, ficou triste. Quando vejo algumas filmagens das fragatas com as velas desfraldadas sinto-me angustiado. Era uma maravilha vê-lo recheado daquelas cores. E perdeu-se tudo”.
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