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A mudança: Queda do Governo influencia media

A derrota de Sócrates libertou o País de um governo que existia através da tentativa de controlo da Comunicação Social. A nova ordem vai agora encetar o processo de privatização de um canal da falida e cara RTP. Este foi um ano em que os canais de televisão generalistas desinvestiram na produção. A crise está aí e obrigará a estratégias em todos os meios de comunicação social.
18 de Dezembro de 2011 às 00:00
A  TDT  substitui sinal analógico em Janeiro
A TDT substitui sinal analógico em Janeiro FOTO: Sara Matos, Jornal Negócios

Sendo ainda Portugal um país estatizado e governamentalizado, as grandes mudanças nos negócios dependem amiúde de decisões na área política. Aconteceu em 2011: as maiores mudanças resultaram da derrota eleitoral de Sócrates. O País libertou-se de um Governo que existia através do máximo controlo da informação por uma central de propaganda, que abarcava o controlo da agenda política e o silenciamento da oposição e dos independentes.

Para ficar mais um dia que fosse no poder, Sócrates tudo fazia para lançar uma permanente cortina de fumo. Tentou obrigar a PT a comprar a Media Capital, dona da TVI, para que o seu Governo pudesse sanear pessoas e calar independentes, o que conseguiu sem chegar a comprar o grupo. Tentou fazer o mesmo com outros grupos de media: mudar a propriedade e controlá-los através da banca.

Assim, coube ao povo português proporcionar a maior mudança na área dos media, ao libertar-se de Sócrates. O actual Governo, embora vise manter o ascendente nos media do Estado (TV, rádio e agência), não tem, felizmente, a mesma vocação e cultura de Sócrates.

O Governo PSD-CDS apresenta-se com um programa que prevê a privatização de um canal da RTP. Herdando uma RTP falida, mal gerida e cara, o Governo recebeu da troika a incumbência de a emagrecer e incluir no Orçamento de Estado, proporcionando transparência político-financeira. Além disso, o Governo inclui milhões da dívida da RTP no ano de 2012, o que implica um custo da empresa superior a 600 milhões de euros no próximo ano. O Governo também mandou a administração fazer o que ela não tinha feito, por estar com Sócrates: gerir a empresa com racionalidade económica. A RTP terá de prescindir de cerca 300 funcionários até 2013.

Este processo permitirá ter uma RTP com uma situação financeira e indicadores melhores quando se privatizar um canal. Entretanto, para manter o controlo político da empresa, o Governo mantém o presidente da RTP, que se predispôs a ser o homem de serviço, e propõe-se nomear Luís Marinho, director de informação com governos do PSD e especialmente com o de Sócrates, como director-geral dos conteúdos, o que promete uma RTP com conteúdos piores.

A crise e a troika permitiram algumas destas mudanças, que nenhum Governo fez para manter a empresa bem-disposta ao seu serviço, mas a crise não justifica por si um dos factos assinaláveis de 2011: a perda de influência sócio-cultural dos canais generalistas.

Avançou a mudança do painel que mede as audiências, incluindo agora em proporção justa os lares com acesso a canais pagos, depois de vencida a resistência dos operadores generalistas a esta necessidade imperiosa de transparência. Daí resultou uma medição real das audiências: os generalistas mantém o poder de atracção, mas o tempo dedicado a ver TV aumentou com a subida substancial dos canais alternativos e o vídeo, que em conjunto já são o segundo ‘canal’ mais visto (24,5%), próximo da TVI (25,6%).

A mistura explosiva de perda de atracção de públicos dinâmicos e de publicidade deveria fazer os canais generalistas atentarem ao modelo de programação que apresentam, mas tal não sucedeu em 2011, antes aumentou o receio de investir e arriscar, diminuíram os valores de produção e afunilou-se mais a programação para os portugueses com menor dinamismo cultural e social (os mais velhos, de menos posses e de menos instrução). Única excepção: as telenovelas melhoram, o que o segundo Emmy consecutivo para Portugal assinalou.

Outra mudança importante foi o início do desligamento dos emissores analógicos. O processo da TDT é um dos maiores flops da história das comunicações. A TDT permitiria mais canais de TV e de rádio, mas o Governo anterior negociou uma solução que só serve a PT. Os únicos canais a transmitir serão os quatro do costume. Os mais pobres terão de investir num descodificador para ver o mesmo. Cerca de 80% dos lares ‘desligados’ optaram por assinar pacotes de cabo e os generalistas, que se julgavam beneficiados, passarão a ter menos audiência com o aumento dos assinantes do Meo, Zon, etc. Só os telespectadores não beneficiaram, até agora, com a TDT.

ANO DE FUSÕES

O futuro dos media está também nas mãos dos telespectadores, ouvintes e leitores. A mudança nos hábitos de consumo apressa revoluções. A maioria dos jornais impressos tende a perder vendas em banca, não recuperando em receitas a passagem para a net. Os media impressos ainda não encontraram aí um modelo rentável, mas refira-se que, ao contrário do CM, vários deles também não souberam encontrar modelos para os conteúdos em papel, permitindo-lhes viver desafogadamente. Com a crise de publicidade, alguns dos media impressos passarão por maiores dificuldades, sem que a banca possa continuar a mantê-los em vida assistida. Haverá fusões?

A implantação da TDT, em 2012, será, como até agora, apenas tecnológica. Na RTP, assistiremos ao emagrecimento financeiro, ao processo de privatização e a mudanças cosméticas para se manter a influência do poder político. Continuará a perda de influência sócio-cultural da TV generalista e o crescimento do cabo, com mais canais e mais audiência.

DESTAQUES 2011

O PLANO PARA SALVAR A RTP

No dia 24 de Outubro, Guilherme Costa e o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, aprovaram o plano de sustentabilidade da RTP, que visa salvar a empresa, com fortes reduções de custos.

JANEIRO

- Júlia Pinheiro regressa à SIC uma década depois de trocar Carnaxide pela RTP e, depois, a TVI. O seu primeiro programa, ‘Querida Júlia’ estreia a 14 de Março.

- A RTP anuncia a abertura de uma academia para a formação de novos profissionais. Mário Augusto é o líder do projecto. Empresa revela ainda que vai lançar a RTP Música, mas o projecto acaba por não se concretizar.

FEVEREIRO

- Mês agitado na TVI. Júlio Magalhães abandona a direcção de informação e José Alberto Carvalho e Judite de Sousa aceitam trocar a RTP pela TVI.

- Miguel Pais do Amaral formaliza o regresso aos media com a compra de 10% da dona da TVI por 35 milhões de euros.

MARÇO

- No dia 22 morre Artur Agostinho. O ‘senhor comunicação’ foi jornalista, escritor, radialista e actor. Foi também publicitário. Repetiram-se as homenagens por todo o País.

- Nuno Santos aceita trocar a direcção de programas da SIC pela direcção de informação da RTP.

ABRIL

- A Assembleia Geral da Impresa fica envolta em polémica, com acusações da Ongoing, que avança para tribunal contra Pinto Balsemão.

- O CM revela que Miguel Pais do Amaral está a negociar a compra dos direitos televisivos do Benfica.

MAIO

- Alenquer é a primeira localidade do País a receber a TDT. Anacom faz balanço positivo.

- Em período pré-eleitoral, Tribunal de Oeiras obriga televisões a fazerem debates entre todos os partidos. No total, teriam de ser feitos 136 debates, mas acabaram por acontecer apenas 18.

- Júlia Pinheiro apresenta a primeira edição de ‘Peso Pesado’, um sucesso de audiências.

JUNHO

- José Fragoso troca a RTP pela TVI, onde assume a coordenação de programas e informação. Hugo Andrade é o novo director de programas da RTP.

- Jaime Antunes compra o jornal ‘i’ ao grupo Lena e Manuel Queiroz, o director, demite-se.

JULHO

- Bernardo Bairrão é convidado para secretário de Estado. Abandona a Media Capital, onde era administrador delegado, mas acaba por ficar fora do Governo.

- Rebenta o escândalo das escutas no Reino Unido, que leva ao encerramento do ‘ News of The World’.

- Fernando Paula Brito assume a direcção de informação da Lusa e António Ribeiro Ferreira é o novo director do ‘i’.

AGOSTO

- CM revela que RTP foi condenada a pagar mais de 500 mil euros a Gabriel Alves por rescisão de contrato.

- O FC Porto entra no mercado televisivo e assume a gestão do Porto Canal. O clube passa a contar com espaços diários de programação.

SETEMBRO

- Nuno Santos apresenta o novo canal de informação da RTP. A partir de dia 19, morre a RTP N e nasce a RTP Informação.

- Carla Chousal, administradora da RTP, apresenta a sua demissão.

- Pais do Amaral confirma que vai lançar um canal de desporto. Concorre aos direitos da Liga dos Campeões, que perdeu para a Sport TV, e da Liga Europa, ainda sem decisão.

OUTUBRO

- A Nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social é eleita.

- Miguel Relvas aprova plano de sustentabilidade da RTP.

- João Cotrim Figueiredo abandona a direcção da TVI, 18 meses após chegar ao cargo.

NOVEMBRO

- Miguel Relvas revela que convidou Guilherme Costa para mais um mandato como presidente da RTP e que este aceitou o desafio. Ministro diz ainda que vai tirar publicidade à RTP.

- Carlos Magno é formalizado como presidente da nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

- Grupo de trabalho que analisou serviço público entrega o relatório.

DEZEMBRO

- Morre José Mensurado, o jornalista que relatou em directo a chegada do homem à Lua.

- André Cerqueira abandona a Plural, produtora da TVI e regressa ao Brasil.

- RTP recebe 180 pedidos de rescisões de contratos.

POSITIVO

JOANA SANTOS

Brilhou com o seu desempenho em ‘Laços de Sangue’. Novela da SIC e da Globo trouxe um Emmy para Portugal, o segundo consecutivo para a ficção nacional.

TERESA GUILHERME

Pode ser odiada ou amada. A verdade é que é difícil ficar indiferente. Voltou à TV para um programa que domina como ninguém.

ANTÓNIO JOSÉ TEIXEIRA

Num ano de franco crescimento dos canais cabo, SIC Notícias manteve a liderança e ganhou mais público.

ROSA MUNIESA

A nova administradora da Media Capital tem apostado na descrição, mas nos primeiros meses de mandato, inaugurou novos estúdios da Plural e roubou a Liga dos Campeões à RTP.

HUGO ANDRADE

Assumiu a direcção de programas da RTP numa fase em que a estação estava em mínimos históricos. Passados alguns meses, conseguiu ultrapassar a SIC e entra em 2012 com boas perspectivas.

NEGATIVO

FRANCISCO PINTO BALSEMÃO

Os resultados do grupo Impresa são preocupantes, com um prejuízo muito elevado. 2012 será um ano decisivo para o futuro da dona da SIC.

NUNO VASCONCELLOS

Parece impossível ao grupo Ongoing ficar afastado da polémica. Seja nas disputas com Balsemão ou porque contrata políticos e antigos espiões, Nuno Vasconcellos acaba por estar sempre debaixo dos holofotes.

EMÍDIO RANGEL

Todos os projectos que tem anunciado acabam por não se concretizar. Começou com o quinto canal e, este ano, seguiu-se com o lançamento de um jornal nacional e de uma rádio.

RITA PEREIRA

Teve uma oportunidade como apresentadora, em ‘Canta Comigo’, mas deixou muito a desejar.

JOÃO DUQUE

Presidiu ao grupo de trabalho que analisou o serviço público de comunicação. Após a entrega do documento, teve declarações infelizes.

2012 EM ANTEVISÃO

TDT

A 12 de Janeiro chega o grande teste da Televisão Digital Terrestre, com o desligar do sinal analógico na faixa litoral do País. A fraca venda de descodificadores faz prever que milhares de famílias fiquem sem TV.

RTP

A decisão política está tomada e no próximo ano será colocado à venda um dos canais generalistas da RTP. À partida alguns grupos nacionais, como a Ongoing e a Cofina, poderão ir a jogo, mas as surpresas podem vir do mundo lusófono, com capital brasileiro e angolano.

BENFICA

Com o aproximar do final do contrato com Joaquim Oliveira, Luís Filipe Vieira quer encontrar um comprador para os jogos do Benfica que se aproxime dos 40 milhões de euros anuais. Pais do Amaral continua a ser a melhor hipótese para os encarnados.

JÚLIO MAGALHÃES

O jornalista está de saída da TVI e vai dedicar-se a uma das suas grandes paixões, o FC Porto. Deve assumir um cargo na SAD e será o responsável pelo Porto Canal, a estação que o clube quer projectar em 2012.

CRISE

Com o actual cenário da economia, no próximo ano, mais projectos jornalísticos, sobretudo na imprensa, deverão fechar. Mas na TV, as coisas não estão mais fáceis. Basta olhar para as contas da Impresa para perceber que 2012 pode ser o ano de tudo ou nada para Francisco Pinto Balsemão.

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