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Correio da Manhã

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A mulher que gritou no 5 de Outubro

Luísa Trindade nasceu há 57 anos em Campo Maior. Veio há 30 para Lisboa, com marido e filhos, em busca de vida melhor
14 de Outubro de 2012 às 15:01
Luísa Avelina Trindade fotografada terça-feira no miradouro de Santa Catarina
Luísa Avelina Trindade fotografada terça-feira no miradouro de Santa Catarina FOTO: Tiago Sousa Dias

A mulher que abre a porta de casa tem uns chinelos do Benfica, clube do coração, calçados. Custa a crer que seja a mesma que ainda há poucos dias, nas comemorações do 5 de Outubro, interrompeu o discurso de Cavaco Silva e gritou alto e bom som as dificuldades por que tem passado, anunciando ao País os 227,42 euros com que tem de viver. Mas é a mesma, confirma-se, no bilhete de identidade e num olhar misto de falta de fé e garra. Tinha feito uma sopa alentejana minutos antes e pede desculpa pela desarrumação da cozinha. A casa é miúda mas tem cor nas almofadas e colchas que ajudam a compor um cenário também lotado de fotografias da família a preto e branco nas paredes. Ao fundo, há um pátio à espera de obras, encostado à casa de banho, também lado a lado com a cozinha.

Quando sai à rua, e perante os flashes que fazem parar quem passa, Luísa já não é simplesmente Luísa. "Olhem, aquela não é a senhora do 5 de Outubro?" – perguntam-nos sem que ela esteja a ouvir. "Realmente estava a reconhecê-la de algum lado", diz quem pára à espera de ver uma estrela da TV e descobre antes aquela que acabou por ser a estrela das últimas comemorações do feriado da Implantação da República. Luísa Avelina Trindade, 57 anos, natural de Campo Maior, ainda não deu autógrafos mas tornou-se – ao dar voz ao desalento de tantos portugueses – a substituta natural do busto da República, símbolo quase perdido noutro tempo.

Chegou a Lisboa há 30 anos, mais coisa menos coisa. "Vim como a maioria das mulheres da minha terra veio, com o marido e os filhos, em busca de uma outra vida. Uma pessoa com 23 anos faz tudo, agarra-se à vida com outra alma." Luísa foi uma entre cinco irmãos. "Comecei a trabalhar aos 14 anos para ajudar a família. Os meus pais não tinham dinheiro para me pôr a estudar e fiz só a sexta classe. Nessa altura, comecei por trabalhar em lojas, nem era assim muito sacrificada, porque trabalhar ao balcão não exigia esforço físico."

A morte do pai, que trabalhava numa fábrica de café, deixou a família mais pequena e pobre quando Luísa tinha 16 anos. "Aí tive de dar mesmo no duro, também numa fábrica de café, era o que mais havia lá na terra", recorda. O 25 de Abril, tinha 19 anos, apanhou-a em pleno trabalho numa sapataria da terra, por onde também amealhou "salários pequenos mas que davam uma ajuda". "Desde que o País está como está que cada vez mais lembro as palavras do dono da sapataria quando se soube da revolução: ‘Cantem agora mas isto não vai ser como vocês pensam’". O coração pende-lhe mais para a esquerda. "Sempre votei, desde os 18 anos, nunca falhei. Nunca votei Cavaco Silva e sempre votei à esquerda, embora não tenha partido. Até porque acho que não é preciso ter posição política definida para achar que todas as pessoas devem ter as mesmas oportunidades e direitos."

CASAMENTO DUROU 30 ANOS

O casamento foi feito por ali, no Alentejo, aos 20 anos, com um rapaz da terra, e os dois filhos (um rapaz hoje com 30, a rapariga com 32) por lá nasceram. "Quando vim para Lisboa, ainda fiz uns trabalhitos, mas ao fim de um ano eu e o meu marido conseguimos arrendar uma casa de electrodomésticos, por lá ficámos mais de vinte anos. Vendíamos pequenos e grandes electrodomésticos, tínhamos um pouco de tudo. Começámos devagarinho e durante muitos anos correu bem, com boas vendas."


"Oh, aquilo chegou a dar mesmo muito dinheiro, não sei dizer quanto, mas a nível económico vivíamos bem. Férias no Algarve em tempo de praia, jantares fora, sem preocupações, uma casa grande de quatro assoalhadas em Odivelas, onde não faltava nada." O aparecimento das grandes superfícies começou "a complicar um negócio" que foi próspero durante muito tempo. "Aí foi a decadência. A juntar a isso, o meu marido começou a meter-se em coisas que dão aos homens daquela idade, a beber, a ficar alterado. Começámos a ter, eu e o meu filho – que ainda vivia comigo –, uma situação insustentável, o meu marido tratava-me muito mal fisicamente. Sabe o que é ir ao hospital com a cabeça partida e ter de dizer que foi porque se caiu? A violência doméstica é uma humilhação, mas consegui libertar-me do pesadelo." Saiu sem malas da casa onde viveu os anos mais prósperos da sua vida numa altura em que as dívidas já começavam a acumular-se nas contas e os anos felizes eram apenas memória do passado.

"Já tinha quase cinquenta anos mas tive que me ir embora. A sociedade não percebe o que é ser vítima de maus-tratos, mas felizmente sempre tive o apoio dos meus irmãos e sobrinhos."

Foram também os sobrinhos os primeiros a enviar-lhe mensagens de apoio depois de a verem na televisão a gritar a revolta no 5 de Outubro.

"Fiquei mais descansada quando comecei a ler as mensagens no telemóvel, porque depois de aquilo acontecer tive muito medo – não da polícia, não das forças de segurança, que só reagiram porque eu reagi – mas pelos meus filhos, do que iam eles pensar de ver a mãe assim, daquela maneira."

Nem ela imaginou ver-se assim, quando saiu de casa naquela manhã soalheira para dar o passeio costumeiro que começa em Santa Catarina, onde mora, e continua pela Baixa da cidade que a tirou do Alentejo.

"Costumo ir dar uma volta e depois regresso a casa. Mas sabia que as comemorações eram à porta fechada e imaginei que estivesse lá alguma manifestação. Vi tudo tão sereno que, apesar de eles não estarem a deixar entrar ninguém, resolvi espreitar, fui descontraída e ninguém me travou." Lá dentro, "ao vê-los engravatados a rirem uns com os outros, os do PS com os do PSD e do CDS, sentados nos cadeirões, passei-me. Picam as pessoas mas depois entre eles estão ali de panelinha, aos sorrisos."


Foi aí que o "coração saltou para a boca" e falou, qual mola que leva tudo à frente. "Só queria ter tido oportunidade de estar frente a frente com o Cavaco e ter dito: ‘Oh, senhor Presidente, não tem vergonha de estar a dar aqui estas festas e tanta gente a passar mal?!’" Sobre o dia que a pôs nas conversas dos portugueses, recusa os dividendos. "Não fiz isto para andar nas bocas do mundo, não sou aproveitadora. Sou uma mulher igual a tantas outras. Faço o que for preciso."

OS TEMPOS DIFÍCEIS

Tanto que a vida lhe trocou as voltas pouco depois de sair de casa com o filho, e ela mais uma vez respondeu. "O meu marido ficou doente, às portas da morte. Apesar de o ter deixado, eu é que fui tratar dele até ao fim." Nunca se tinham divorciado no papel, e a isso Luísa deve os 227,42 euros que recebe todos os meses. "É a pensão de sobrevivência. Fora isso, não tenho direito a mais nada, porque descobri tarde demais que o meu marido não tinha feito os meus descontos daqueles anos todos em que trabalhámos na casa de electrodomésticos. Estou entalada de todos os lados. A piorar o cenário difícil, a casa de Odivelas onde o casal viveu "teve de ser entregue à Banca para cobrir as dívidas" do marido, "e do mobiliário pouca coisa se conseguiu vender".

CAFÉ ALENTEJANO

Há dois anos, numa nova tentativa de dar a volta à vida, arrendou "um café na Calçada do Combro, atrás do Parque da Emel, onde servia refeições alentejanas. Até os vegetarianos lá iam comer as migas de espargos, já tinha clientes certos".

Um ano depois, "uma tendinite" obrigou-a "a ser operada e deixar de trabalhar. Como era eu que cozinhava, tive de fechar o café. Além disso, a renda também era muito difícil de suportar, eram 1500 euros por ser na zona que era". O negócio fechou. "Depois foi a decadência outra vez. Comecei a fazer umas limpezas e a passar a ferro para os vizinhos, mas também isso dava pouco. Ainda tenho anúncios que espalhei, mas cada vez aparecem menos pessoas." Luísa não se imaginava assim aos 57 anos. "Sinto que a minha vida foi feita ao contrário. Estou fragilizada mas vou-me adaptando à vida. Até porque há quem viva muito pior do que eu. Já o meu filho, que é um escravo do trabalho, sai de casa às 07h30 e entra às 20h00. É vendedor de café e tem de trabalhar muito para conseguir atingir os objectivos. É ele que me ajuda, sustenta a casa – a renda são 300 euros –, e sei que ele ainda não arranjou uma casa só para ele por minha causa, sente a obrigação de estar comigo."

O filho de Luísa será um entre muitos ‘mileuristas’, a filha trabalha num banco. "Tem a vida orientada e levou-me dez dias de férias para o Algarve com ela e com a minha neta de seis anos. Os filhos são a melhor coisa que a gente tem. Só não volto para a minha terra, para Campo Maior, porque é em Lisboa que eles estão." Uma das grandes mágoas de Luísa foi ver o filho "interromper a licenciatura em Engenharia para poder trabalhar" e ajudá-la. Por isso, aos ministros propunha que vivessem o próximo mês com o ordenado mínimo para "verem se conseguiam". Aos deputados, que não passassem mais de quatro anos na cadeira. Para ela, pede apenas um emprego.

"Tento qualquer coisa que me permita sobreviver. Ainda hoje [terça-feira] fui ao Marquês de Pombal a pé, responder a um anúncio para trabalhar numa copa. Quando lá cheguei, estavam lá vinte, todas mais novas. Devem olhar para mim e pensar: ‘Esta ainda vem para aqui queixar-se das costas’". Luísa ri-se, apesar do que diz, "porque os alentejanos têm bom humor". E também são "limpinhos e organizados", para quem quiser saber. Ao almoço e jantar, tem poupado "nas comidas caras" e investido na sopa. "Nisso os alentejanos também são bons. Um bocadinho de pão e tomate e está feito." Depois da conversa, Luísa troca de roupa para as fotografias. "Já não compro nada há dois anos, mas ainda tenho umas coisinhas mais ou menos."


Nas redes sociais, chamam-lhe a ‘Padeira de Aljubarrota’, a Luísa que vai salvar Portugal, a voz de um povo. "Eu, uma mulher tão simples?!... Se Portugal dependesse de mim para a salvação, ia para a bancarrota com os meus 227,42 euros. Isso é o que eles gastam num almoço."

O PROTESTO DE LUÍSA AVELINA DURANTE O DISCURSO DE CAVACO SILVA

Foi uma mulher desesperada a que entrou no Pátio da Galé nas comemorações do 5 de Outubro durante o discurso do Presidente da República. "Não me vão tirar daqui", gritou, enquanto Cavaco discursava. "Ao que o nosso país havia de chegar, digam-me! Sou uma simples cidadã, estes senhores fazem pouco de nós há 30 anos, não tenho trabalho, nem a lavar escadas consigo emprego", continuou, aos berros e visivelmente perturbada.

Luísa tentou chegar perto dos lugares dos convidados da cerimónia, mas foi barrada quando tentou aproximar--se do púlpito. Os seguranças tentaram retirá-la do edifício para onde foi transferida a cerimónia oficial das comemorações da implantação da República, mas Luísa insistia, tentando libertar-se. "Lá convites o c*****! Ninguém me vai tirar daqui", continuou, agitada, quando lhe disseram que a cerimónia era só para alguns.

Acabou por sofrer ferimentos ligeiros no meio da confusão, mas continuava a gritar o desespero e a pensão de sobrevivência. Outra mulher, Ana Maria, cantora lírica, invadiu também o evento e cantou pacificamente o tema ‘Firmeza’, de Fernando Lopes Graça.  

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