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A NOVA VIDA DE ANDREIA

Andreia perdeu o pai e a mãe em 2002, num acidente que comoveu Portugal. Dois anos depois é uma miúda feliz, indiferente ao processo que ainda corre em tribunal.
4 de Julho de 2004 às 00:00
“À menina e ao borracho põe-lhe, sempre, Deus a mão por baixo", foram estas as palavras de João Fernando, comandante dos Bombeiros Voluntários de Amarante, para tentar encontrar explicação para o facto de Andreia, uma bebé de quatro meses, ter escapado à morte num brutal acidente ocorrido no Itinerário Principal 4 (IP4), que provocou a morte dos pais da menina e em que a viatura ficou literalmente desfeita.
Aos olhos de Portugal, a imagem marcante que ficou do acidente, mostra o comandante dos bombeiros, aflito, com uma bebé ao colo embrulhada em lençóis – a mesma imagem, de resto, que serve de suporte a um anúncio televisivo em que se pede prudência a quem viaja no IP4.
Sempre que passa na televisão, o anúncio ainda provoca dor aos familiares da menina, como nos diz Alda Cruz, tia, madrinha e tutora da pequena Andreia: “Passou pouco tempo desde a tragédia, e a família ainda não a conseguiu ultrapassar. Pelo menos fica-nos a satisfação de saber que o anúncio é por uma boa causa”.
Mais de dois anos depois, a Domingo Magazine foi encontrar toda a família (incluindo a agora traquinas Andreia que, pela tenra idade, procura todos os momentos livres para brincar) numa primeira fase do julgamento do processo civil que visa valores indemnizatórios. Esta primeira fase foi marcada pela tentativa de uma seguradora envolvida no processo em chegar a acordo com as famílias, no sentido de um acordo para que o processo não chegasse à barra do tribunal. As famílias não chegaram porém a acordo e o tribunal marcou então uma primeira sessão do processo para 8 de Outubro, no Tribunal de Amarante.
Alda Cruz, irmã da falecida mãe de Andreia, defende que a família não está preparada “para negociar as mortes dos entes-queridos que morreram”. E adianta: “Os tribunais e os juízes existem para fazer justiça, é essa a nossa intenção, que sejam eles a decretar os valores da indemnização. Seria muito penoso para nós ficar com o peso na consciência de ter negociado o valor de duas vidas e de uma outra que agora está a começar a viver – e ficou órfã de pai e mãe em resultado desse mesmo acidente”.
PISO MOLHADO
O acidente ocorreu há quase dois anos, a 22 de Julho de 2002, na localidade de Sanche, concelho de Amarante. Embora não chovesse na altura, o piso do IP4 apresentava-se molhado e escorregadio. Os pais de Andreia, Eulália e José Armando, seguiam a caminho de Vila Nova de Gaia, vindos de Carrazeda de Ansiães (terra natal dos dois) onde tinham estado a preparar o baptizado da filha, que se deveria realizar no mês de Agosto. Sofreram então um choque frontal com outra viatura, de uma tal violência que ambos os veículos foram transformados numa amálgama de ferros torcidos.
José Armando, 31 anos, militar da GNR em Canidelo, Gaia, ainda foi transportado de helicóptero para o Hospital de S. João, no Porto, onde viria a morrer. A esposa, Eulália, 26 anos, sucumbiu primeiro do que o marido, no Hospital de Amarante.
A pequena Andreia, na altura com quatro meses, por sorte viajava no banco de trás, numa cadeirinha; não se livrou porém de graves escoriações, e esteve quinze dias internada no hospital. “Durante muitos dias esteve apática e incomunicável. Rejeitava todo o tipo de leites que lhe eram dados (mesmo o caseiro, que a minha irmã tinha congelado para uma emergência). A pouco e pouco foi reagindo e hoje podemos dizer com alegria que a Andreia é uma criança feliz”, disse Alda Cruz.
NOVA FAMÍLIA
O baptizado realizou-se, como era desejo dos pais, na data marcada, com a presença de todas as pessoas que tinham sido convidadas, contando ainda com a presença de João Fernando, comandante dos Bombeiros de Amarante, acompanhado da esposa.
A pequena Andreia foi levada ao colo, desde a casa dos avós paternos até à igreja, pelo próprio comandante dos bombeiros – numa prova de reconhecimento da família ao homem que retirou a menina do meio dos ferros retorcidos da viatura. “Foi um momento com uma carga emocional muito grande. Só Deus sabe onde fui buscar forças para superar toda aquela angústia”, explicou João Fernando.
Desde então ele tornou-se uma visita assídua na nova casa da pequena Andreia. “Quando a família dela passa por Amarante, a minha casa é local obrigatório de passagem para eu ver a menina. Muitas vezes desloco-me eu a Trás-os-Montes quando eles vão visitar os avós da menina. Foi uma nova família que eu arranjei. A Andreia tem um lugar especial no meu coração, equiparado aos meus netos. Aquele dia fatídico marcou-me para todo o sempre. Não consigo explicar o que senti quando encontrei aquela criança no meio daquele monte de escombros”, explicou o comandante dos soldados da paz.
Alda Cruz e o marido, Mário Pascoal, não entendem o facto de o Ministério Público ainda não ter accionado o processo-crime contra o condutor do veículo que terá provocado o acidente fatal e deixou uma criança de tenra idade órfã. “Pensamos que se tratou de um duplo homicídio porque as testemunhas do acidente confirmam que o homem se despistou e chocou em contra-mão, alegadamente, em alta velocidade. Se não se sentisse culpado, na altura do choque não teria fugido”.
De referir que o automobilista em causa só se entregou mais tarde à Brigada de Trânsito de Vila Real, assegurando que se ausentou do local com receio de represálias.
DE HERÓI A SUSPEITO DE ROUBO DE JÓIAS
João Fernando, conhecido no País como o herói que salvou a menina do interior das latas do veículo que lhe matou os pais, passados poucos meses foi acusado por um dos bombeiros da sua corporação de ser corresponsável de um roubo de jóias no seguimento de um outro acidente no IP4. Ao ser acusado, o comandante solicitou ao Serviço Nacional de Bombeiros a sua suspensão do quadro dos bombeiros, alegando “pretender que o processo siga os seus trâmites normais, sem que alguém possa dizer que eu utilizo o meu posto de comando para exercer qualquer tipo de coacção sobre as pessoas que iriam ser ouvidas no âmbito do processo”.
PERGUNTAS DIFÍCEIS
A nova família de Andreia, a tia Alda Cruz e o marido Mário Pascoal, a partir de uma determinada idade, teve de enfrentar as perguntas, tão naturais como embaraçosas, da menina, que queria saber dos pais. “Começámos lentamente a explicar-lhe o que aconteceu. Não queríamos que ela viesse a saber por outras pessoas e ficasse traumatizada. Hoje quando lhe perguntam pelo pai e pela mãe ela diz: O Pai Zé e a Mãe Lita, estão no Jesus”. Segundo Alda Cruz, “a menina está a ser criada de acordo com aquilo que os pais tinham definido que queriam para a sua vida.” E acrescenta: “Em memória deles tudo faremos para lhe proporcionar uma vida de felicidade. Hoje podemos dizer com satisfação: A Andreia é uma menina muito feliz".
A CASA “ASSOMBRADA”
Uma vez solucionados os problemas mais urgentes que resultaram do acidente, Alda Cruz teve uma outra e espinhosa tarefa: enfrentar a convivência diária com a casa que pertencia aos falecidos. “A casa que eles ocupavam é mesmo junto à nossa e, hoje, passados dois anos, ainda não tocámos em nada. Encontra-se tudo como no dia em que eles saíram de lá para irem a Carrazeda de Ansiães tratarem do baptizado. Em cada móvel e nos mais pequenos objectos, a marca deles encontra-se presente. É doloroso mexer em qualquer coisa e sentir que eles estão ali presentes”.
Felizmente, e como refere Alda, “a dor profunda foi dando lugar à saudade que é sempre avivada pela presença da Andreia nas nossas vidas”. Para os filhos do casal de tutores, mais velhos do que a menina adoptada, Andreia, é a “mais-que-tudo”: “Ela sente que eles ajudam – e de que maneira –, a que ela seja muito feliz", explicou Alda Cruz.
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