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A nova vida dos estreantes

Ingresso no Parlamento significa mudança para os deputados eleitos pela primeira vez. Quem vem de longe preocupa-se em arranjar casa na capital e escolher a escola dos filhos. Alguns hábitos antigos ficam para trás. E dão lugar a outros.
25 de Outubro de 2009 às 00:00
A nova vida dos estreantes
A nova vida dos estreantes

Durante 61 anos foi sempre em Coimbra que viu o dia a amanhecer. As ruas que o levam da Ladeira do Seminário, bem no centro da cidade, à Clínica de Santa Filomena, junto às águas serenas do Mondego, já conheciam de cor os seus passos. Não fosse o bichinho da política seria aquele o caminho que João Serpa Oliva continuaria a trilhar todos os dias. Mas quis a vontade popular desviá-lo da rota habitual, e logo para longe.

"Agora vou passar a ir para Lisboa na segunda à noite e a regressar na sexta ao final da manhã, pois ainda conto ter tempo para continuar a seguir alguns dos meus pacientes." Não será o único neste vai-vém semanal e a despedir-se da rotina profissional. Com o retomar dos trabalhos parlamentares, já nesta semana, muitos outros ‘deputados-caloiros’ começam a adaptar-se à nova vida, que agora passa a ser repartida entre a capital e a terra que os elegeu.

Mas enquanto os trabalhos na Assembleia da República não arrancam a sério e ainda não se discute os problemas do País, os deputados que se estreiam em Lisboa aproveitam para ultimar a mudança. Fazer malas, empacotar livros e dossiês, procurar casa para arrendar, de preferência nas proximidades do Parlamento, e uma escola para os filhos são algumas das prioridades do momento. E para os que não tiveram de deixar os cargos que exerciam no momento da candidatura é também a altura de acertar contas com a entidade patronal.

Foi o caso do bloquista Pedro Filipe Soares, 30 anos, programador informático numa empresa da área das telecomunicações em Aveiro. Pressentindo a eleição, que quatro anos antes tinha escapado ao BE por 180 votos, este responsável por uma equipa de mediação de dados avisou a empresa e o seu processo de substituição começou logo em Maio, ainda antes de saber que seria o escolhido para encabeçar a lista do Bloco de Esquerda pelo distrito. "A lei permite que não percamos os nossos postos de trabalho. Foi um processo calmo e tranquilo e não houve qualquer problema." E existe mesmo o compromisso de que "posso voltar após terminar o mandato".

Aos 25 anos, a social-democrata Francisca Almeida é uma das deputadas mais jovens do hemiciclo. A dar os primeiros passos na advocacia, num escritório no Porto, esta vimaranense garante não ver o cargo para o qual foi eleita pelo círculo de Braga como "uma profissão ou uma carreira", e por isso é que optou por fazer um acordo de colaboração com o escritório, no qual integra o departamento de Direito Público. "A única coisa que me prende a Lisboa neste momento é o cargo de deputada."

Tal como Serpa Oliva, eleito pelo CDS, que sempre disse que "gostava de Lisboa para visitar mas não para viver". Agora, além de trocar a cidade onde sempre viveu, muda de profissão. Ou quase, pois ainda vai "ver as incompatibilidades inerentes ao cargo de deputado". Aos 61 anos, este conimbricense, que já foi chefe do serviço de ortopedia dos Hospitais da Universidade de Coimbra e é um dos sócios da Clínica Santa Filomena, onde exerce, garante que, apesar de a "prioridade ser a AR", o apelo da bata continua a ser forte, pois "não se abandona uma vida profissional de 35 anos de um momento para o outro".

ARRENDAR PRÓXIMO DA AR

Se tivesse a oportunidade de transferir o quarto da sua casa na Madeira para Lisboa era o que faria Vânia Jesus. Aos 30 anos, é a segunda vez que a deputada do PSD vem morar para Lisboa. A primeira foi quando esteve na capital para tirar a licenciatura no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Na impossibilidade de o desejo se concretizar, Vânia procura "um espaço com luminosidade e cor onde também possa dar o meu toque pessoal". Tarefa que não tem sido fácil, pois continua sem casa na capital. "Aproveitei já para fazer algumas visitas a T0, T1 e estúdios, mas até ao momento entendo que os preços referenciados não foram os mais atractivos. Já estive à procura em São Bento, Lapa, Praça das Flores, Estrela, Rato, Saldanha, e as rendas apresentadas foram entre os 600 e os 900 euros." Valores demasiado elevados para a deputada: não pretende despender mais de 500 ou 600 euros.

As zonas que a deputada madeirense tem passado a pente fino são as mais centrais da cidade e as que lhe asseguram uma maior mobilidade em termos de transportes públicos. Esta razão é, aliás, levantada por todos os deputados, que preferem viver numa zona próxima da AR de forma a perderem o menor tempo possível nas deslocações. Por outro lado, são também as zonas mais caras. Por isso, é com a mesma determinação que a faz estar na política que Vânia não desiste nas primeiras vezes: "Continuarei a ver outros apartamentos e caso não encontre procurarei, obviamente, mais na periferia, porque aí as rendas apresentam, com certeza, preços mais baixos."

Os adversários de bancada de Vânia partilham o mesmo drama: ainda não têm casa. José Rui Cruz e Acácio Pinto são socialistas, foram eleitos pela primeira vez pelo círculo de Viseu e, além de conterrâneos, são amigos. Em cima da mesa está a possibilidade de partilharem um apartamento entre os dois ou com mais um deputado. "Ainda não tenho nada acertado nem tenho qualquer preferência concreta. A casa só tem de ter condições de habitabilidade, estar, de preferência, mobilada e ser perto da Assembleia", conta Acácio Pinto, que por ter sido governador civil de Viseu está habituado às contingências do cargo: "Já fazia muitas viagens e reuniões, que me obrigavam a passar muitas noites fora de casa." De parte não está ainda a compra de um pacote de noites num hotel – possibilidade que Vânia Jesus também coloca –, opção que tomou quando, em 2000, foi chefe de gabinete do secretário de Estado da Administração Marítima e Portuária, Jorge Junqueiro.

Quem não tem grandes motivos para preocupações é Michael Seufert, 26 anos, eleito nas listas do CDS. Um amigo do partido disponibilizou-lhe uma casa na Lapa, para onde vai morar sozinho e pela qual não vai ter de pagar renda. "Vou ser dono-de-casa pela primeira vez!", diz, entusiasmado.

Mas para trás não fica apenas a casa da mãe, onde vivia com o irmão mais novo, e a namorada, também do Porto. Fica também a vida de estudante universitário e o part-time como guia turístico nas caves do Vinho do Porto, para onde onde foi trabalhar aos 16 anos "para ter algum dinheiro para as minhas despesas pessoais". No pico do Verão podia tirar "500 euros por mês, a recibos verdes", valor que mais do que quadruplica tendo em conta o salário a que um deputado tem direito: 4185 euros (3815 de salário-base e 370 euros de despesas de representação). "Para alguém da minha idade é um valor que está acima do que esperava receber num primeiro emprego, é verdade. Mas como carreira não sei dizer. Apenas sei que este cargo é de uma enorme responsabilidade."

ESCOLA PARA OS FILHOS

Foi a vontade de que a sua família não fosse "apenas de fim-de-semana" que levou Catarina Martins, de 36 anos, eleita pelo Bloco de Esquerda no distrito do Porto, a transferir as duas filhas, de sete e três anos, para uma escola próxima da Assembleia da República, em São Bento: "Mesmo sabendo que a probabilidade de ser eleita era grande, só depois de 27 de Setembro é que tratei de tudo. E tive de decidir rapidamente."

A casa já mobilada, na Estrela, foi escolhida pelo marido, que também a acompanha na vinda para Lisboa. Em Gaia, na sua residência actual, a vida só voltará aos fins-de-semana e às segundas – o dia reservado pela lei para o contacto dos deputados com os eleitores.

No Porto, Catarina Martins deixa uma paixão antiga: o teatro, pelo qual se apaixonou quando ainda era estudante em Coimbra e decidiu juntar-se ao Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC). "Com a eleição, tive de deixar de ser actriz em espectáculos novos. Continuarei apenas nos que já estrearam e que vão a palco à sexta e ao sábado, até ao final do ano".

Neste ano, dos 23o deputados da Assembleia da República, 105 não exerciam funções na legislatura anterior e 183 foram eleitos fora do círculo de Lisboa. Para estes, o vaivém semanal, de carro, comboio ou avião, vai agora começar, para acabar em 2013, ano em que se realizam novas legislativas. Isto se o Governo minoritário do Partido Socialista aguentar firme até lá. 

APROVEITAR A OFERTA CULTURAL E OS DIAS DE SOL

Em Lisboa, Pedro Filipe Soares quer aproveitar a grande oferta cultural, "muito superior à do resto do País. Quero aproveitar para conhecer a Casa Fernando Pessoa. E já tenho marcado na agenda o concerto de Jorge Drexler, um cantor sul-americano que vai actuar no cinema S. Jorge no dia 28 de Outubro", revela o bloquista. A viver em união de facto desde 2000, Pedro Soares vai passar a ver a companheira apenas aos fins-de-semana. "Ela esteve a ajudar-me, foi muito cúmplice durante todo o processo", explica.

Já o que mais atrai Catarina Martins na capital é o facto de "não haver tantos dias de chuva como no Porto. Podemos aproveitar mais tempo os espaços ao ar livre com as crianças, apesar de não saber se terei muito tempo livre para tirar partido disso".

PERFIS

CATARINA MARTINS tem 36 anos e foi eleita pelo Bloco de Esquerda, círculo eleitoral do Porto. Vai morar para a zona da Estrela.

PEDRO FILIPE SOARES tem 30 anos e foi eleito pelo Bloco de Esquerda por Aveiro. Arrendou casa no bairro de Campo de Ourique.

"FAREI POR ASSISTIR AO SPORTING"

José Rui Cruz era o subdirector da região centro do Instituto Português da Juventude antes de ter decidido candidatar-se. Por ter feito a tropa em Santarém, chegou a conhecer bem Lisboa. Na capital, "farei por assistir às estreias de teatro e de cinema e ir sempre aos jogos do Sporting, principalmente os jogos durante a semana, para as competições europeias". Natural de S. Joaninho, Santa Comba Dão, o deputado pondera dividir um apartamento com Acácio Pinto.

PERFIS

ACÁCIO PINTO tem 50 anos e foi eleito pelo PS. Vem de Sátão (Viseu) para Lisboa e, por enquanto, ficará a viver num hotel.

JOSÉ RUI CRUZ tem 42 anos e é de Santa Comba Dão. Por enquanto vai ficar num dos hotéis que têm protocolo com o Parlamento, até encontrar casa.

"VOU SENTIR FALTA DA QUALIDADE DE VIDA DA MADEIRA"

Francisca Almeida conta que já arrendou casa em Lisboa, juntamente com uma amiga. "É junto ao Príncipe Real, porque é perto da AR. O preço é atractivo para um T2." Da cidade apenas conhece "os sítios mais emblemáticos, como o Museu dos Coches, o CCB e o Mosteiro dos Jerónimos".

Já a sua colega de bancada Vânia Jesus afirma que vai sentir falta da "qualidade de vida da Madeira, traduzida no facto de poder chegar rapidamente do mar à serra e de uma localidade a outra". Fixar-se permanentemente em Lisboa é hipótese que não contempla: "Estarei na capital para cumprir as funções que esta nova missão impõe."

PERFIS

VÂNIA JESUS tem 30 anos e foi eleita pelo PSD-Madeira. Vai ficar num hotel até encontrar casa.

FRANCISCA ALMEIDA tem 25 anos e foi eleita pelo PSD nas listas de Braga. Já arrendou um T2 com uma amiga, junto ao Príncipe Real.

ENTUSIASTAS DE ÓPERA, FADOS E TOURADAS

Agora que está em Lisboa, o Campo Pequeno ganhará mais um aficionado: o portuense Michael Seufert, que fará por não perder nenhum espectáculo da temporada. Já João Serpa Oliva garante que enquanto estiver na capital será "um espectador assíduo da ópera no Teatro Nacional de S. Carlos e dos espectáculos da fadista Mariza".

PERFIS

MICHAEL SEUFERT tem 26 anos e foi eleito pelo CDS-PP do Porto. Vai viver sozinho na Lapa.

SERPA OLIVA tem 61 anos e foi eleito pelo CDS de Coimbra. Já arrendou um T1 na Lapa, para viver com a mulher.

NOTAS

DIREITO

Em 230 deputados há 46 advogados. É a profissão dominante. O PS é o partido com mais juristas.

RITA RATO

Rita Rato, de 26 anos, é um dos deputados estreantes pelo PCP. Foi entrevistada na edição anterior da Domingo.

PCP

Convidámos Paula Santos a participar neste trabalho. Recusou por "já ter dado muitas entrevistas".

50 ANOS

A média etária no Parlamento situa-se nos 50 anos. A classe menos representada é dos 70 aos 80.

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