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Correio da Manhã

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A onda surfista em Portugal

O País é pequeno mas tem uma costa enorme. não admira que o negócio, as escolas e os praticantes tenham vindo a aumentar nos últimos anos.
16 de Agosto de 2009 às 00:00
Tiago Pires, a sensação portuguesa nas ondas
Tiago Pires, a sensação portuguesa nas ondas

Omar de Carcavelos parece desafiar o calor de tão calmo que chega à areia, quase indiferente aos surfistas que resolveram fazer-se à praia, mas Tiago tem no olhar a seriedade exigida para fazer frente às maiores ondas, caso resolvam vir, uma lucidez fortuita que o mar ajuda a revelar mas é por demais inesperada para os 12 anos que mostra no bilhete de identidade. Em cima da prancha, o corpo magro ganha dimensão de adulto quando se agiganta em cima da onda e o medo lhe morre nos pés, sem tempo de fazer tremer os movimentos.

Os exercícios na areia, preparação imprescindível antes de enfrentar a água, são preliminares custosos para quem já só sonha com a onda, por muito que por agora ela não corresponda, por defeito, ao melhor dos sonhos. Mas ao mar muito se perdoa – principalmente o feitio. 'Até porque os surfistas são como uma família, respeitam-se e respeitam o mar, embora haja alguns arrogantes dentro de água, que disputam as ondas com os colegas'. Quanto aos ‘posers’, não são de todo a onda dele e do amigo Vasco, também tão compenetrado a falar de surf e a fazê-lo como a assumir que se interessa 'por muitas conversas dos adultos, como astronomia, arquitectura e geologia'.

‘Posers’ 'são aqueles que fazem surf só para andar com a prancha debaixo do braço e impressionar as miúdas'. Tiago Oliveira e Vasco Narciso, de 12 e 13 anos, também carregam a prancha mas preferem a leveza das ondas ao peso do material na areia. E, embora afastem de si a motivação dos tais que aparecem na gíria surfista, os dois pré-adolescentes assumem em conjunto que 'isto do surf até dá jeito com as raparigas, principalmente por causa da cor morena todo o ano'. Mas a liberdade é a palavra de proa no vocabulário de Tiago e Vasco, usada tão depressa para justificar a corrida diária à praia em tempo de férias e, aos fins-de-semana, em época de aulas, como para explicar a sensação da onda. 'É muito difícil descrever o que se sente', assumem os 13 anos de Vasco, depois de uns segundos a pensar o que dizer. Porque, na prática, a 'liberdade é gigante, a de fazer o drop (descer a onda), as curvas e as manobras', como diz Tiago, mas a teoria tem dificuldade em perceber a ‘magia’ do vento no corpo e o equilíbrio que os mais experientes conseguem por cima da onda. Os dois moram em Oeiras e é na Carcavelos Surf School, na praia com o mesmo nome, que afincadamente treinam para chegar à ‘crista’.

'Vim aos seis anos. O meu pai fez-me uma surpresa e inscreveu-me na escola para eu aprender, que era uma coisa que eu já queria há muito tempo. A minha família reconhece-me pelo meu desportivismo e pela minha vontade de ganhar, por isso sempre me apoiaram'. E embora os membros da claque reajam de formas diferentes ao à-vontade que revela em cima da prancha – 'a minha mãe, quando me vê entrar no mar, fica com dores de barriga, porque é muito medrosa' – todos desempenham um papel essencial. Embora em campo sem ondas Tiago também se safe sem afundar.

'Jogo futebol, nos infantis B do Tires, sou defesa central, e ter de conciliar os dois não me deu ainda oportunidade de participar num campeonato.' Mas há uma certeza que não custa a desvendar nas palavras do aluno de 5 a todas as disciplinas na sala de aulas: 'O futebol não dá tanto gozo como o surf, que é muito mais difícil de praticar.' Vasco conhece a mesma sensação, ele que largou o hóquei em patins para se dedicar ao radical desporto, que até o pai já começa a perceber.

'Começa a saber algumas coisas que eu lhe explico, porque estes conceitos nem são portugueses e a maioria das pessoas não sabe o que significam, é bom ter quem também perceba.' A maioria foi-lhe transmitida pelos responsáveis pela escola onde começou a surfar, aos dez anos, Pedro Soares, que já conquistou alguns títulos nacionais e um europeu, e Pedro Elias, que se iniciou no bodyboard e recentemente se virou para o surf. 'Uma percentagem considerável de alunos que começam não ficam durante muito tempo, tudo depende dos objectivos. Uns querem ter uma experiência e vêm pelo estilo que acham que dá, outros querem mesmo ser bons e evoluir no desporto, que são os que ficam', conta Elias.

MÃE E FILHO

Na praia da Cabana do Pescador, na Costa de Caparica, a semana também começou quente. O mar vai e vem, em pequenas ondas, ideal para o pequeno grupo de aprendizes do surf que chegam de prancha na mão e fato de borracha.

Afonso Castelo Branco tem oito anos e cerca de metro e meio de altura. A prancha que carrega é quase o dobro do tamanho dele. Mas não se intimida. 'É fixe' fazer surf, assegura-nos Afonso, que já sonha ser um campeão das ondas. Ao lado a mãe, Alexandra, que, ao contrário do que poderia pensar-se, não fica na praia a ver o filho. Veste igualmente fato de borracha e carrega a prancha debaixo do braço. Foi quando o filho quis desistir do surf que decidiu juntar-se à tribo. 'Há dois meses que venho aqui. O meu filho já surfa há mais de um ano. Agora vimos os dois, normalmente aos fins-de-semana.' A opção pelo surf surgiu depois de, na internet, ter tropeçado no site da escola. Pareceu-lhe interessante e deu ao filho a escolher: 'Aulas a cavalo ou surf.'

Filipe Vítor, 34, e Filipa Almeida, 31, não compartilham só o gosto pelo mar. São namorados e decidiram aproveitar o final do dia para aprender a dominar as ondas, ele no bodyboard, ela no surf. 'Isto é o ideal não só para relaxar ao fim do dia mas também para perder peso!', argumenta Filipe. 'Além do mais, não gostamos de ginásios, preferimos o ar livre. E assim estamos juntos', completa Filipa.

João Dias, 32, é o professor de serviço. Começou a praticar surf no início da década de 90. Na altura não havia escolas, por isso 'tive de aprender com os amigos'. Desses tempos relembra que 'havia muito menos informação, mas havia mais pica. Não há o espírito de quando era miúdo'.

Foi de há sete anos para cá que explodiu o número de escolas de surf, nota João. 'Houve um boom enorme quando, nos ‘Morangos com Açúcar’, as personagens começaram a praticar surf. São modas.' É esta moda, que pelos vistos veio para ficar, que permite ao ex-professor de Educação Física viver hoje apenas do que ganha enquanto monitor. Há quatro anos e meio decidiu formar uma escola com um amigo, a 7ª Essência. 'Foi uma aposta, e foi o melhor que fiz. O mercado está bom, há muita gente a praticar. Dá para viver bem.' Opinião partilhada por Elias, da Surf School de Carcavelos, que assume que o negócio é lucrativo e para ficar.

'O surf é um estilo de vida diferente, somos descontraídos a dar os treinos, estamos a curtir e a evoluir ao mesmo tempo; e os miúdos sentem isso, além de que os incentivamos a ser responsáveis na escola. E os pais agradecem.' João reforça que Portugal pode ter ainda muito a ganhar com o surf: 'São cada vez mais os estrangeiros que vêm de propósito a Portugal para isto. Como nós vamos fazer a época do snowboard, eles vêm cá fazer a do surf.' Para o dia a seguir já tem a manhã ocupada apenas com um grupo de alemães. 'A meu ver, Portugal é o melhor sítio da Europa para a prática. A água é fria, mas tirando a da costa francesa da Biscaia é a melhor!' Gostos (ou costas) à parte, as escolas de surf têm-se multiplicado em areia nacional, e nem a crise tem afundado o sector. 'As pessoas não querem deixar de fazer mas querem é pagar pouco', diz Manuel Maia, proprietário da escola Surf Aventura, com poiso em Matosinhos e Leça da Palmeira. Talvez porque em tempos difíceis o desporto seja uma forma de aliviar o ‘stress’. Ou de afogar as mágoas.

 ENTREVISTA A TIAGO 'SACA' PIRES, ESTRELA PORTUGUESA DO SURF NO CIRCUITO INTERNACIONAL

'HÁ DEZ ANOS QUE A COMPETITIVIDADE FAZ PARTE DO DIA-A-DIA'

É fácil para um português chegar ao cenário internacional da modalidade?

Não é de todo fácil mas é alcançável. Não somos um país com tradição neste desporto, embora tenhamos uma excelente costa para praticar e evoluir.

Como é a preparação do Tiago em termos físicos, de alimentação, lazer?

Sou muito disciplinado e cumpro com as minhas rotinas. Durante o Verão, por exemplo, na altura em que tudo nos puxa para a diversão, deito-me sempre cedo e treino no ginásio seis dias por semana, de manhã. Tenho uma alimentação bastante rica e aproveito algum do tempo livre para estar com os meus sobrinhos e os meus amigos.

Como encara a competitividade nos circuitos?

Como faz parte do meu dia-a-dia desde os últimos dez anos, já estou habituado a viver situações de ‘stress’ e nervosismo. Acho que os atletas que competem a um nível alto já nem reparam.

Há dificuldade em conseguir patrocínios?

Para um português que consiga chegar ao World Tour, não acho que haja. Somos um país virado para os desportos de água, e o surf é um desporto com uma imagem muito forte e em plena evolução.

Lembra-se do primeiro patrocínio?

Foi de uma loja de surf em Lisboa, pagavam-me as inscrições nos campeonatos nacionais, assim como algumas deslocações. Creio que tinha 13 anos.

RELATO DE UMA QUEDA ANUNCIADA

Não estava grande swell (ondulação) naquele spot (local habitual de surf) mas posso jurar a pés juntos que durante os segundos (dois?) em que sobrevivi de pé na prancha me senti a resistir em alto mar. Na areia, a coisa parece fácil. Isso e a convicção de uma genética abençoada para a dita prática (baixa estatura e peso) – que, segundo me tinham explicado, facilitaria a estreia no surf – deram-me alento para acreditar. Mas serviu de pouco. Vamos por passos. O primeiro é o mais fácil e ajuda a fazer sentir (por pouco tempo) que não foi em vão: erguer os braços, como se fizesse uma flexão. A partir daí tudo se complica. Porque isto de ter de subir o pé esquerdo para a prancha ao mesmo tempo que começar a levantar o corpo para tentar ficar na vertical é equilibrismo à altura de um qualquer número circence. Todo o mar se agita, a sensação de queda é iminente, e, ao ver a areia tão perto, a solução é saltar fora a tempo de (engolindo litros de água) não bater com a cabeça na areia. Para isso, antes no mar, que ninguém vê.

TURISMO CRESCENTE

Pedro Madeira e Mariana Remelgado são os proprietários do Aljezur Surf Camp, um projecto que alia o turismo à prática de surf. Teve início em 2006 mas só em Junho de 2009 abriu o Aljezur Villas Hostel, a possibilidade de albergar todos aqueles que quisessem contar com estadia ao mesmo tempo que ter aulas da modalidade. 'Em Julho e Agosto é turismo massivo: há muitas famílias, muitos espanhóis, muita gente do Porto e Lisboa. Entre Setembro e Dezembro procuram-nos muitos australianos, franceses e gente que já tem outro conhecimento de outra técnica de surf, que vem em grupos.' A Organização Mundial de Turismo aponta a popularidade crescente do surf no Mundo e calcula cinco milhões de surfistas, a maioria nos EUA, Austrália e Europa.

"UM CLIENTE SONHA COM A SUA PRANCHA ATÉ ELA ESTAR PRONTA"

Hélio tem 37 anos e é um dos ‘shapers’ (fabricantes de pranchas) mais conhecidos em Portugal. O facto de encarar a profissão "como uma arte" tem ajudado a granjear para a sua marca fãs um pouco por todo o País. Francisco Mendes, Afonso Vilela, Isaac Alfaiate e Pedro Adão e Silva são alguns dos clientes deste ‘shaper’, que faz "seis a oito pranchas por semana" na sua fábrica em Sines. Hélio cultiva a exigência como trunfo fundamental que não esconde na manga. "Um cliente sonha com a prancha até ela estar feita, por isso nada pode falhar", revela o ‘shaper’, que construiu a primeira prancha em 1993 para o irmão utilizar nas ondas, embora ele também surfasse. Todas as pranchas que saem da sua marca são feitas por medida, "porque depende da pessoa que a vai utilizar, das características, do grau em que se encontra na prática do surf".

"NÃO É SÓ A ONDA, O SURF É FEITO DE ESPERAS"

"O mar é o destino indicado para a fuga." Palavras – entendidas – de Adão e Silva, professor universitário, comentador político e surfista de há longa data, quando não havia escolas de surf em Portugal. "Ia para a praia com os meus amigos e começámos a fazer bodyboard antes de seguirmos para o surf." Levantavam--se quando caíam. E de novo. E de novo. Foi assim que aprenderam a deslizar nas ondas – "um prazer físico incomparável" que não esgota o prazer da fuga. "Tudo é importante: sair de casa, vestir o fato, entrar no mar, ficar à espera..." Adão e Silva sabe que o surf "é feito de esperas". Tal como a vida.

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