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A pensar em todos, humanos e outros animais

Pessoas comuns. Tratadores do Jardim Zoológico de Varsóvia. Respeitadores da santidade da vida. Salvaram centenas de judeus. Era preciso contar a história de Jan e Antonina.
17 de Agosto de 2008 às 00:00
A pensar em todos, humanos e outros animais
A pensar em todos, humanos e outros animais FOTO: D.R.

Adolfo, o Raptor, não é Adolfo Hitler mas um macaco-rhesus que roubara a cria a uma fêmea mais velha para dá-la à sua protegida. Rosa é a girafa. Maria a cadela de caça africana. Sahib o potro mais querido. Tuzinka a cria de elefante que Antonina ajudou a trazer ao Mundo. Antonina e Jan Zabinski são tratadores do Jardim Zoológico de Varsóvia. Antonina cuida dos animais difíceis, sossega as crias de hiena e acompanha os órfãos. Quando, em Setembro de 1939, a Luftwaffe bombardeia a capital polaca, Antonina sabe que, na casa dos grandes felinos, as mães 'desnorteadas de medo estariam a agarrar os filhos pelo cachaço e a andar de trás para a frente nas jaulas, à procura de um abrigo seguro para as suas crias'. Empatia é a palavra certa. Antonina é capaz de identificar-se com o ‘eu’ do ‘outro’ – seja este humano ou outro animal.

O Jardim Zoológico de Varsóvia é ‘O Jardim da Esperança’, título do livro com cerca de 300 páginas ao longo do qual a escritora norte-americana Diane Ackerman conta a vida de Jan e Antonina Zabinski. Segundo afirma a autora à Domingo, 'Antonina considerava os animais que levava para casa [a moradia dentro do Zoo] outro tipo de pessoas, hóspedes com ‘h’ pequeno'. Os hóspedes com ‘H’ grande haviam de ser judeus polacos e polacos não judeus perseguidos pelos nazis.

Antonina é uma mulher alegre que gosta de vestidos às bolinhas e uma zoóloga sensitiva, capaz de observar o Mundo na perspectiva dos animais. Tem um qualquer sentido a mais que lhe permite comunicar com eles e transmitir-lhes segurança em momentos de aflição. Um jornalista que, antes da Guerra, entrevistou Jan conta ter sido surpreendido por 'dois gatos a entrar na sala de jantar, o primeiro com uma ligadura na pata, o segundo com uma na cauda, seguidos por um papagaio com um cone de metal em volta do pescoço e, finalmente, um corvo manco com uma asa partida'.

Depois das bombas alemães, vieram os soldados polacos que mataram a tiro os ursos, leões, tigres e outros animais considerados um perigo para as populações caso ficassem à solta. Mais tarde, de uniforme nazi, chegou odirector do Jardim Zoológico de Berlim, Lutz Heck. Missão: roubar os animais valiosos, entre os quais a jovem elefante Tuzinka, a 12.ª da sua espécie a nascer em cativeiro, e encaminhá-los para parques zoológicos alemães.

Tal como pretendiam refazer a Humanidade com base em conceitos de pureza ariana, os nazis esforçaram-se por recriar a Natureza, destruindo espécies e recriando outras. Osonho eugénico de Heck era obter um auroque, espécie de bovino lendário, outrora o maior animal terrestre da Europa, para que os alemães pudessem caçá-lo após a guerra. Mas o que Heck fez efectivamente foi organizar uma ‘caçada’ de Ano Novo, 1940, no Jardim Zoológico de Varsóvia, durante a qual os oficiais da Gestapo alvejaram animais 'confinados atrás de vedações ou grades', conta Diane Ackerman.

'Quantos seres humanos estarão condenados a morrer assim nos meses vindouros?', perguntava-se a mulher do tratador do Zoo enquanto as espingardas estralejavam lá fora. Querendo proteger o filho, Rys, outra palavra para ‘lince’, Antonina levou-o para o quarto e leu--lhe passagens de ‘Robinson Crusoe’. 'Sou tal e qual a nossa leoa, cheia de medo, sempre a mudar a minha cria de um canto da jaula para o outro.'

Um casal de falcões e uma águia fugiram quando a gaiola, atingida pelas balas, se abriu. Ficaram a revolutear sobre o jardim zoológico, o único ninho que conheciam, até aterrarem no alpendre da casa, onde Antonina costumava alimentá-los. 'Não foi preciso muito tempo para que também eles se tornassem mais um troféu da partida de caça de Ano Novo dos oficiais da Gestapo.'

Primeiro os judeus de Varsóvia foram proibidos de frequentar restaurantes, parques, casas de banho públicas e até mesmo de sentar-se nos bancos da rua. Marcados com uma estrela de David azul numa braçadeira branca. Impedidos de viajar nos transportes públicos. Obrigados aqueles cujos nomes próprios soavam a arianismo a mudá--los para Israel ou Sara. A 12 de Outubro de 1940 ordenaram-lhes que abandonassem as casas e concentraram-nos num bairro 'convenientemente localizado entre a principal estação dos caminhos-de-ferro, o Jardim Saxon,eoterminalferroviáriode Gdansk'. Quatrocentos mil seres humanos foram distribuídos por 27 mil apartamentos. Quinze pessoas ocupavam duas divisões e meia.

Por essa altura, Jan, marido de Antonina, tinha convertido o Jardim Zoológico em quinta de criação de porcos para os nazis. Para alimentá-los, aos porcos, era preciso que recolhesse restos de comida por toda a cidade. Também no gueto. Nos baldes, disfarçada, levava ainda a comida que Antonina preparara para os amigos judeus. Jan juntou-se ao Exército Nacional e à ResistênciaPolaca.Nomedecódigo:‘Francis’, como o santo patrono dos animais a que chamamos animais.

Jan escondeu armas no antigo Zoo, a pouca distância de um armazém militar que os alemães haviam construído na ilha dos leões. Em comum com S. Francisco de Assis tinha não só a compaixão pelo que vive, mas também o sangue frio e o carácter temerário e sabia que o que melhor se oculta é o que está à vista de todos. Quando, depois da Guerra, lhe elogiaram a coragem usou pretextos do género:'Não percebo para quê tanto espalhafato. Se virmos uma criatura em perigo, vamos salvá-la, seja ela humana ou animal.' Não disse que os polacos que mexiam um dedo para esconder judeus corriam eles próprios e toda a família risco de vida.

'No decorrer do ano Verão de 1940, um bilhete ou um sussurro era suficiente para avisar os Zabinski da chegada de um ‘Hóspede’ [assim mesmo, com letra maiúscula] enviado pela Resistência', conta Diane. Os que falavam alemão e tinham aparência ariana passavam lá só o tempo necessário para arranjarem documentos falsos e seguirem para uma nova vida. Outros houve que passaram 'anos no Jardim Zoológico, alguns na moradia e por vezes até cinquenta duma só vez nas jaulas'.

Jan e Antonina conheciam bem os animais a que chamamos animais. Tácticas de camuflagem como a dos pinguins – pretos no lombo e alvos no ventre, para que as gaivotas-rapineiras os tomem pela ondulação do oceano e as focas-leopardo por nuvens – não lhes eram estranhas. Ou seja, sabiam que a melhor maneira de camuflar pessoas eram mais pessoas. Daí o convite para que tios, tias, primos, amigos, a mãe de Jan... os visitassem. No meio dos visitantes legítimos estavam os ‘Hóspedes’. Havia sempre gente dentro de casa. Se alguém associado aos alemães se aproximava, Antonina sentava-se ao piano e tocava ‘Vai, vai, vai para Creta’, tema da ópera cómica ‘La Belle Hélène’, de Jacques Offenbach, judeu franco-alemão. Sinal de que os ‘Hóspedes’ deviam esconder-se na Casa dos Faisões.

De quinta de criação de porcos o antigo Zoo passou a horta pública. Jan continuou a frequentar o gueto. Diane conta que o antigo director do Jardim Zoológico de Varsóvia ficou 'ligado ao Departamento de Parques e Jardins, o que lhe concedeu uma nova forma de acesso ao gueto, desta feita para inspeccionar a respectiva flora e fauna'. Não que lá houvesse parques ou jardins, mas Jan aproveitou a oportunidade para visitar os amigos e levar-lhes alimentos. E depois valeu-se de um funcionário nazi, pomposamente chamado director do Gabinete Laboral do Gueto, entusiasmado por insectos, para fazer sair judeus de lá. Destino:o antigo Jardim Zoológico.

DUAS CRIAS DE LINCE E UM BEBÉ

As crias de lince Tofi e Tufa eram as preferidas do casal. Chegaram a casa de Jan e Antonina com três meses, foram alimentadas a biberão até aos seis e só ficaram auto-suficientes ao fim de um ano. Vieram de Bialowieeza, a única floresta primordial que restava em toda a Europa. Antonina criou-os dentro de casa. Quando o filho de Antonina nasceu ela chamou-lhe Rys, palavra polaca para lince. O petiz juntou-se à família como mais uma cria brincalhona. 'Ela considerava os animais como família e tratava-os com respeito, compaixão e uma compreensão quase mística das suas razões e sentimentos', afirma Diane Ackerman.

OBJECTIVO: MUDAR O CURSO DA EVOLUÇÃO

Do lado direito, a figura do auroque, que os nazis pretendiam trazer de novo à vida, ‘limpando’ qualquer vestígio de linhagens provenientes da Ásia ou do Médio Oriente. Segundo afirma à Domingo Diane Ackerman, autora de ‘OJardim da Esperança’, os nazis 'esperavam alterar o ecossistema mundial, pretendiam não só dominar as nações, mas controlar todo o ADNdo planeta através do controlo genético, alterando o sentido da evolução, uma meta que legitimava o genocídio.'

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