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Correio da Manhã

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A pobreza não é uma condição natural dos seres humanos, é uma imposição artificial

Quando o seu nome foi anunciado como vencedor do último Nobel da Paz, a Academia sueca recebeu uma crítica a que não estava acostumada. Como poderia ter demorado tanto tempo a reconhecer o mérito da pessoa que, provavelmente, mais fez para acabar com a pobreza no Mundo?
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
Quando a sociedade virou as costas aos pobres, Muhammad Yunus ofereceu-lhes créditos bancários, micro-créditos. Quando o modelo económico os marginalizou, o presidente do Banco Grameen, no Bangladesh, ensinou-lhes um caminho diferente. E quando a pobreza se alojou na paisagem, este homem afável e de gargalhada fácil propôs-se demonstrar que a sua erradicação é possível. Com o seu Banco dos Pobres realizou o impossível, que é hoje imitado em todo o Mundo, financiando os sonhos de milhões de pessoas sem posses.
Aos 66 anos, este doutorado em Economia, assegura que prefere passar o tempo livre a trabalhar. Com uma fé inabalável na solidariedade, Yunus só tem um sonho: “Que as gerações futuras vejam a pobreza num museu”, diz o Nobel da Paz, cuja vida rodeada de miséria não abalou a confiança nas possibilidades da condição humana. A partir da cidade de Dahka, Muhammad Yunus gere um império de solidariedade que abarca a agricultura, a manufactura ou as finanças. Porque ele, acima de tudo, é um banqueiro. Provavelmente o único que você convidaria para comer em sua casa.
- Um Mundo sem um único pobre. Parece utopia, tal como um Mundo sem crime, maus tratos ou acidentes de viação...
- Todos os seres humanos têm a capacidade de cuidar de si próprios. A razão pela qual são pobres e se mantêm pobres não está nos indivíduos, mas sim no sistema. Se o corrigirmos e cada um receber a devida oportunidade, não há razão para haver pobres. Para mim, a pobreza é como uma prisão para onde empurrámos uma parte da sociedade. Se suprimirmos as barreiras que mantêm essas pessoas presas e as deixarmos demonstrar a sua capacidade, elas mesmas serão capazes de seguir em frente. A pobreza não é uma condição natural dos seres humanos, é uma imposição artificial.
- Não parece que mudar o sistema de que fala seja uma das prioridades dos políticos.
- Concordo completamente. Há quem diga: bom, não podemos fazer nada para acabar com a pobreza. Na realidade, o que se passa é que não querem. Os países ricos, beneficiários deste sistema, são quem o dirige. Por isso, é preciso continuar a explicar que não queremos tirar-lhes nada para dar aos pobres. É possível continuar a ter tudo o que desejamos, dentro de um sistema que beneficie todos.
- Há quem defenda que o fim da pobreza é inviável por falta de recursos. O planeta estaria preparado para uma classe média global em que todos pudessem comprar um automóvel?
- 94% dos recursos mundiais destinam-se a 6% da população. Isso não é justo. É necessário moderar a quantidade de recursos utilizada pela fatia da população que está no topo. Suponhamos que Bill Gates decidia comprar todos os recursos disponíveis no Mundo porque tem dinheiro para o fazer. Não me parece que lhe dissessem: “Força, vai em frente”. Só quando tomamos a decisão de partilhar os recursos de que dispomos é que começaremos a pensar em alternativas para o fazermos. Por agora, gastamo-los incorrectamente. Temos aldeias com 5000 famílias em que nenhuma tem um automóvel e famílias que dispõem de cinco viaturas. Estamos perante uma economia global desenhada para os tais 6% da população. Os restantes 94% não existem.
- Acha que algum líder político, em Espanha ou qualquer outro país ocidental, perde uma noite de sono a pensar na fome de um camponês do Bangladesh?
- Claro que não. Não lhes importa. Pensam: “O desemprego aumentou meio ponto e todos me perguntam o que ando a fazer para o solucionar”. Preocupa-lhes a falta de emprego e a poluição na sua cidade, caso contrário os cidadãos que lhes deram o seu voto aborrecem-se. Prometem que o desemprego baixará, que a cidade se manterá limpa... e continuam com a sua vida.
- No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel garantiu que os atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos e a guerra no Iraque puseram um travão no combate à pobreza. O que sucedeu?
- Os países de todo o Mundo reuniram-se na viragem do milénio, em 2000, e tinham decidido reduzir a pobreza. Que maravilha! Nunca na História se vira algo semelhante, todos juntos pelo mesmo objectivo. Teria sido uma forma fantástica de começar o milénio. Mas com o 11 de Setembro, todos se esqueceram desse objectivo. Os EUA mudaram a sua política. Era necessário mobilizar o mundo para apanhar os terroristas. A luta contra a pobreza passou a ser a luta contra o terrorismo. A discussão entre os países passou a centrar-se no número de soldados enviados para esse fim, de bombas lançadas, de mortos, nos países que apoiam a guerra no Iraque... Houve uma desorientação global. Hoje, quando o mundo pede a George W. Bush que retire as suas tropas, ele envia mais efectivos.
- Que responsabilidade tem o presidente norte-americano na situação actual do Mundo?
- Bush provocou um dano tremendo. Tremendo! A Guerra Fria tinha terminado e, com ela, toda essa energia mal empregue e a desconfiança de tantos anos. Falou-se dos dividendos da paz: finalmente não teríamos que gastar tanto em armas e exércitos. Mas com a chegada da guerra contra o terrorismo, com o desejo de vingança, o dinheiro volta outra vez a ser investido em tecnologia de guerra. O que parecia o começo de um milénio de paz, desvaneceu-se. Bush revelou-se um líder terrível, não apenas para os Estados Unidos, mas para todo o Mundo. Conduziu o planeta na direcção errada e levará muito tempo a pô-lo de novo nos eixos.
- A principal responsabilidade da situação actual não é dos terroristas que atacaram os Estados Unidos a 11 de Setembro?
- Não digo que [os terroristas] sejam santos. São más pessoas. O que digo é que a resposta militar não é a solução para o terrorismo.
- Os EUA teriam direito a responder de alguma forma ao ataque sofrido?
- Porquê o Iraque? Por que não a Arábia Saudita. Bin Laden é saudita. Por que não o Paquistão? Tudo isto não tem lógica. Querem uma guerra contra o terrorismo e dedicam-se a matar iraquianos? Qual é a lógica? O Iraque não estava no cenário. Diz-se que tinha armas de destruição maciça mas não encontraram nada. A guerra no Iraque é uma forma de manter o sistema [que prolonga a pobreza].
- Garante que com o dinheiro usado nas guerras dos últimos anos, incluindo o Iraque, já se teria acabado com a pobreza no Mundo.
- Sim, há muito, muito tempo. Imagine o dinheiro e o esforço que temos empregue a desenvolver ogivas nucleares. Temos 15 000 ogivas nucleares activas (14 000 na Rússia e nos EUA e 1000 no resto do Mundo). Está a ser usado mais dinheiro para modernizá-las e substituí-las. Porquê? Quantas armas nucleares são necessárias para acabar com o Mundo? Basta um punhado, mas armazenamos 15 000, prontas a serem usadas. É impossível encontrar uma explicação para a necessidade de manter este arsenal.
- A sua revolução na luta contra a pobreza começou há 30 anos, ao oferecer um crédito de 27 dólares a 42 mulheres de uma aldeia do Bangladesh. Alguma vez pensou que o iria reaver?
- Não fazia a mínima ideia (risos). A minha intenção era livrá-las dos prestamistas. Disse a cada uma: “Toma este dinheiro e devolve-o, para poderes continuar com o que estavas a fazer. Quando puderes, logo mo devolves.”
- Três décadas depois, 99% dos pobres que receberam créditos do Banco Grameen devolveram o dinheiro. A morosidade ficou muito abaixo dos níveis dos países ricos.
- Quando se dá uma oportunidade a uma pessoa, ela quer aproveitá-la. Não as pressionamos a devolverem o dinheiro. Pagam por uma questão de sobrevivência, porque, se não o fizerem, a porta fecha-se e então ficam sem nada. Às vezes não paga em um ou dois anos. Mas um dia precisa de dinheiro para outra coisa e lá vem devolver o crédito e pedir outro. Aceitamo-la sempre, porque o que se passou com essa pessoa é uma lição para as restantes.
- Fala no feminino porque os créditos são concedidos quase exclusivamente a mulheres. São melhores administradoras?
- As mulheres sabem lidar melhor com o dinheiro. Gastam-no com os filhos, usam-no para dar um passo em frente. Os homens querem desfrutá-lo no momento. Por isso gastam-no em jogo, prostituição, bebida... As mulheres investem o dinheiro na educação dos filhos.
- Gostava de fazer de mendigos homens de negócios. Mas talvez não haja um homem de negócios em todos os mendigos.
- Qualquer pessoa pode ser um simples homem de negócios, não digo de grande sucesso. Os seres humanos têm a capacidade de prosperar, de resolver problemas e fazer coisas por si mesmos. O instinto está lá. Uns descobrem-no e têm êxito. Outros nunca chegam a abrir a porta.
- Para chegar aos escritórios do Grameen tive que cruzar a cidade (Dhaka) de automóvel e em cada semáforo vi mendigos a pedir. Três décadas depois da sua implantação, os microcréditos não resolveram a pobreza no Bangladesh.
- Sim, o Bangladesh é pobre e Dhaka está cheia de mendigos. Mas eu só analiso as pessoas que vieram ter ao Banco Grameen. 58% dos que cá estão saíram da pobreza, e cada dia mais e mais gente está a sair da pobreza. As crianças vão à escola e os jovens estão a formar-se nas universidades, tornando-se médicos ou engenheiros. Rompemos o ciclo da pobreza. Se é possível fazer isto por umas famílias, também deverá ser possível fazer o mesmo com aquelas que ainda não estão no Banco Grameen.
- Um pobre camponês do Bangladesh pode ver o mundo de abundância do Ocidente através da televisão por satélite. De que forma estas imagens alteram a percepção das suas necessidades ou a sua capacidade para atingir a felicidade?
- Os seus desejos mudaram. E isso é bom: agora quer fazer mais porque quer ter todas essas coisas. Mas também é mau, porque lhes fazem crer que têm necessidades que são desnecessárias. Agora quer champô, mesmo que não precise. A sua filha também quer e, se não tem, não se sente bonita. A pouco e pouco, a televisão faz com que este camponês deixe de estar isolado, liga-o ao Mundo. Passa-se o mesmo com a internet. Se pudéssemos levá-la às aldeias, algo que ainda não conseguimos, essa pessoa poderia entreter-se quando anoitece na sua aldeia. Diria: “Posso fazer isto, não sou um simples camponês estúpido, posso aprender.”
- Se o problema da pobreza é o sistema capitalista actual, como explicar, por exemplo, que nos anos 60 Singapura e o Quénia tinham o mesmo PIB e hoje o Quénia continua mergulhado na pobreza, enquanto a primeira se tornou um dos países mais ricos do Mundo?
- É como se uma família tivesse duas filhas. Uma vai estudar para Harvard e a outra para uma escola local. O resultado é completamente diferente. Qual foi a liderança em ambos os países? Quais foram as políticas de Singapura e Quénia? Também a Coreia do Sul e o Bangladesh estavam taco a taco nos anos 50. Hoje a Coreia do Sul é a décima economia do Mundo e doadora do Bangladesh. Porquê? Até dentro do mesmo sistema, as diferentes formas de liderança, políticas e outros factores marcam a diferença. Mas, se mudarmos o sistema, o impacto desses factores diminui.
- O certo é que até os países mais ricos têm hoje a sua quota parte de Terceiro Mundo. Nos EUA há 774 000 pessoas sem tecto, segundo as últimas estatísticas. Como acabar com a pobreza nos países subdesenvolvidos se nem os que têm mais meios o conseguiram fazer?
- Acontece que nos EUA a economia é controlada pelos que mais têm, pelo que as classes mais baixas têm dificuldade em chegar ao fim do mês. Hoje em dia os negócios servem para maximizar os benefícios e esquecer tudo o resto. Acho que é um conceito errado. Os seres humanos não são apenas máquinas de fazer dinheiro. Demonstrámos que é possível fazer negócios sociais, que beneficiam toda a sociedade.
- Ofereceu o dinheiro do Nobel a obras de caridade (mais de um milhão de euros). Não tem ambições materiais?
- Tenho as suficientes para levar a vida que levo. As minhas ambições são muito limitadas, não preciso de um iate ou algo do género.
- Recebeu doutoramentos honoris causa de 27 universidades e 15 prémios internacionais, incluindo o Nobel e o Príncipe das Astúrias. Tantas distinções cansam-no?
- Sinto-me muito honrado e feliz porque é um incentivo ao trabalho que faço. Significa que alguém acredita no que digo e nos assuntos para os quais alerto. Nunca trabalhei para o prémio Nobel. O prémio é importante porque graças a ele passei a ser ouvido pelas pessoas que antes não me ouviam.
- E como lida com a celebridade que o Nobel acarreta?
- Penso que traz fama mas também poder, o poder de influenciar as pessoas. Quantos mais prémios recebemos, mais nos escutam. O poder do Nobel é muito superior ao dos outros. De repente, passei a ser ouvido. Podem estar de acordo, ou não, mas escutam. Fico feliz por ter a oportunidade de fazer com que as pessoas ouçam as palavras pobreza e missão na mesma frase. Podemos mandar a pobreza para o museu.
- De onde vem essa confiança cega na condição humana?
- Da minha experiência diária. Vi como uma mendiga consegue mudar a sua vida com pouco dinheiro. Deixou de mendigar depois de levar uma vida inteira a fazê-lo. Tudo o que fizemos por ela foi dar-lhe um crédito de 10 ou 20 dólares e com esse dinheiro seguir em frente. Para mim, esta é uma mudança fantástica na vida de um ser humano. Recebo muitos e-mails de pessoas que me perguntam o que podem fazer. Digo-lhes que têm o Fórum Yunus. Qualquer um pode tomar o meu nome de empréstimo e criar um grupo de cinco pessoas. Por exemplo, temos o Fórum Yunus para os meninos de rua. Damos um espaço na net e num ano nasce um objectivo, como tirar uma criança da rua (em qualquer parte do Mundo). Talvez no final do ano se tenha conseguido isso e se possa continuar o trabalho. Neste caso, fixamo-nos em conseguir tirar duas crianças da rua. Desta forma não temos que esperar que as Nações Unidas ou o nosso Governo tomem decisões. Podemos ajudar uma criança, uma mulher, um mendigo. Podemos fazê-lo. Façamo-lo!
- Há um forte debate sobre a globalização, se ajuda ou prejudica os países do Terceiro Mundo. Em que lado se situa?
- A globalização deveria supor que ambos, ricos e pobres, ganhamos e partilhamos os benefícios, e não tomar tudo o que podemos e deixar as sobras. A camisa que estou a usar foi fabricada no Bangladesh. Os camponeses utilizam o algodão, outros operários dão forma ao produto, outros tingem-no, empilham-no nos contentores, etc. E toda a gente que participou neste processo deve partilhar 4,5 dólares, enquanto a etiqueta da loja de Nova Iorque diz que a peça vale 35 dólares. Se não aceitam as condições, dizem-lhes que vão procurar outro lugar para a fabricar. É isto a globalização: uma auto-estrada de 100 quilómetros tomada pelos grandes e em que os pequenos são expulsos da estrada. Precisamos de uma política de comércio que imponha regras.
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