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A POETIZA DE NOVA IORQUE

Dez anos depois da sua última visita a Portugal, Suzanne Vega é uma pessoa diferente. Tem uma filha, a Ruby, divorciou-se do marido, perdeu o irmão e vive numa Nova Iorque traumatizada pelo 11 de Setembro
12 de Julho de 2002 às 18:27
A POETIZA DE NOVA IORQUE
Magazine Domingo - Aprendeu a tocar guitarra aos 11 anos. As suas inspirações de juventude eram Bob Dylan, Joan Baez e Leonard Cohen. Como descobriu estes artistas?

Suzanne Vega - Não éramos propriamente a família tradicional norte-americana. O meu pai era natural de Porto Rico e defendia a independência do seu país face aos Estados Unidos. Lá em casa, discutíamos política a toda a hora, falávamos sobre a cultura de outros povos e ouvíamos esses artistas e as suas canções de intervenção. As letras de Dylan e Baez impressionavam-me e mexiam comigo. Faziam-me pensar. Quanto ao Cohen, descobri-o sozinha, mais tarde, através de discos de amigas da minha mãe. Houve duas músicas, Suzanne, e Dress Rehearsal Rag, que me inspiraram profundamente. Fui descobrindo artistas que pertenciam ao mundo dos meus pais, e transportei-os para o meu espaço, mesmo sabendo que este tipo de música de cariz mais revolucionário, já não fazia sentido para as pessoas da minha geração, que nos anos setenta preferiam ouvir bandas mais hard rock como os Aerosmith, ou glam rock como David Bowie. Eu preferia a poesia do Bob Dylan.

M.D. - Mas hoje, um dos grupos preferidos são os The Strokes, que têm mais rebeldia rocker do que a poesia dos anos sessenta.

S.V. - Ninguém pode dizer que eles sejam grandes poetas. Mas neste momento sinto-me algo agastada e as canções deles falam-me um pouco desse estado de espírito conturbado. Essencialmente, gosto da energia das músicas dos The Strokes. A sua maneira de estar lembra-me Nova Iorque no início dos anos oitenta, quando iniciei a minha carreira. Oiço o disco deles, Is This It, várias vezes ao dia e cada vez que o faço nasce-me a vontade de compor mais canções.

M.D. - Nesses anos, a Suzanne Vega era a grande promessa dos artistas nova-iorquinos, tal como hoje são os The Strokes. Quais são as memórias desse período?

S.V. - Nessa altura, apenas contava com a minha ambição e talento. Escrevia, inspirava-me e debatia ideias o mais que podia com outros artistas. Saía à noite com bastante frequência e conhecia toda a cena underground. Em 1984, assinei o meu primeiro contrato discográfico. E para minha grande surpresa, o meu primeiro disco, Suzanne Vega, teve grande sucesso. E digo surpresa porque durante vários anos fui rejeitada por editoras e donos de clubes de música. Eu ia acompanhada da minha guitarra acústica, e mandavam-me embora porque achavam-me demasiado tímida e não tinha a pose de estrela de rock.

M.D. - E as suas músicas tornaram-se num êxito planetário.

S.V. - O mais engraçado é que eu já cantava as mesmas canções há anos e ninguém lhes ligava nenhuma. De repente, e sem perceber porquê, falava-se não só das minhas canções, mas também de coisas estranhas como a minha imagem, o que é que eu vestia, se representava o sexo feminino no mundo da pop music, etc. Era bizarro.

M.D. - Não fica aborrecida por ainda hoje lhe fazerem perguntas sobre Luka, a sua canção com mais sucesso?

S.V. - Apesar de de me ter tornado conhecida nos anos 80, não quero dizer que me tivesse transformado numa Belinda Carlisle ou Kylie Minogue. A minha carreira estava mais ligada a uma música que falava de uma questão social, que era o abuso de crianças. Eu tinha um tipo diferente de celebridade. Luka não era apenas mais uma dessas canções de amor e não fico chateada quando me perguntam por esse hit porque a canção significa muito para mim e para muitas outras pessoas.

M.D. - Continua a ser uma pessoa tímida?

S.V. - De certo modo. Hoje é para mim mais fácil subir para cima de um palco. Sou acima de tudo uma artista e pagam-me para cantar. Não posso estar a um canto, envergonhada quando sei que centenas de pessoas pagaram para assisitr a um show meu. Mas não me considero uma pessoa extrovertida. Às vezes sinto-me stressada por ter que ir a uma festa cheia de gente.

M.D. - Em 1990, os DNA fizeram um remix da sua canção, Tom’s Dinner. A música electrónica era então para si uma novidade?

S.V. - Quando essa música apareceu, eu já andava a descobrir as novas tecnologias, como os samplers. Mas estas experiências electrónicas não eram tão arrojadas como essa mistura dos DNA, nem tinham uma vertente tão dançavel. Eram mais do género daquilo que o Peter Gabriel ou Kate Bush andavam a fazer na altura. Mas uma coisa é certa: os DNA tornaram Tom’s Dinner bastante popular.

M.D. - Mas confesse, quando ouviu aquelas batidas sobre a sua voz, não ficou nem um bocadinho chocada?

S.V. - Fez-me rir. Achei a versão muito engraçada. Eles não mudaram a canção, nem as linhas melódicas, ou sequer a minha voz. A minha editora já não achou tanta piada e até pensou em processar os rapazes. Mas era óbvio, para quem ouvisse a canção, que eles não eram de maneira nenhuma pessoas com dinheiro. Porquê processá-los? Eles não tinham nada! O sucesso de Luka deu--me grande confiança para lidar com aquela nova experiência, apesar de alguns fãs meus terem ficado algo chocados.

M.D. - Actualmente, Nova Iorque continua a ser uma cidade inspiradora?

S.V. - Sim, mas de uma maneira diferente. Hoje sou mãe de uma menina chamada Ruby e não quero ser um desses pais ausentes. Já não vou a todas as festas, nem fumo ou bebo demais. Mas Nova Iorque continua a ser uma terra cheia de encanto, embora os atentados terroristas de 11 de Setembro tenham ensombrado a big apple. Toda a gente conhece alguém que morreu nas torres gémeas. Uma parte de mim tenta negar o que aconteceu. Mas é impossível. Basta abrir a janela ou ir à baixa, que se assiste àquele cenário estranho. Há demasiada tensão no ar. Todos os dias se fala na iminência de novos atentados. Mas tenho de reconhecer que há outros sítios no mundo bem piores.

M.D. - Os valores dos anos sessenta, como paz e amor, ainda fazem sentido?

S.V. - É uma pergunta difícil. Sempre fui contra a guerra. Mas hoje as coisas apresentam-se muito complexas. Por exemplo, os atentados criminosos a 11 de setembro quase mataram o meu irmão. Ele trabalhava no World Trade Center e só não estava lá nesse dia porque se encontrava com a saúde fragilizada (ele morreu há dois meses). Não vamos reagir só porque defendemos a paz? A guerra pode não ser a solução mas não podemos ficar de braços cruzados. Não sei. Sinto-me dividida.

M.D. - Está ligada a grandes causas como a Amnistia Internacional, a defesa dos direitos das crianças. O que tem feito ultimamente neste campo?

S.V. - Actualmente também trabalho com outra instituição de caridade em Nova Iorque chamada Windows of Hope (Janelas de Esperança). Desde o 11 de Setembro que tenho tentado angariar fundos para ajudar as vítimas dos atentados.

M.D. - Quase um ano depois da catástrofe, quais foram as grandes mudanças nos Estados Unidos?

S.V. - Muitas. Antes de mais, a América sente-se menos segura do que antes dos atentados. Nota-se um reforço da segurança para onde quer que se viaje, seja no interior do país ou nos aeroportos. De um dia para o outro, qualquer objecto aparentemente inofensivo transformou-se numa possível arma terrorista. Os cidadãos norte-americanos estão preocupados em tentar perceber as causas dos ataques terroristas. Questionam-se o que está mal na nossa sociedade e qual o papel que os EUA têm no mundo. Há sem dúvida, uma maior introspecção do que antes. Se houve algo de positivo com o 11 de Setembro, é que agora todos queremos saber um pouco mais sobre outras culturas e países.

M.D. - Até a esse dia fatídico, os americanos em geral, não seriam pessoas demasiado egoístas?

S.V. - Talvez. Muitos apenas pensavam em dinheiro, só se interessavam em fazer compras. O 11 de Setembro mudou muitas das prioridades dessas pessoas.

M.D. - Concorda com as políticas de George W. Bush em reforçar a segurança interna a todo o custo com o pretexto do país não sofrer mais atentados?

S.V. - Eu votei em Al Gore. Mas se Bush é agora tão popular, muito se deve ao facto de existir um sentimento especial de união entre os americanos. Temos estado a seguir com muita atenção o que ele tem feito em prol do país e mesmo que não concorde com todas as suas medidas não posso deixar de me sentir tentada em apoia-lo neste momento tão difícil.

M.D. - Para uma artista tão interventiva como Suzanne Vega, é fácil enviar uma mensagem de esperança ao seu povo?

S.V. - Mais ou menos. Gostava de pensar que isso fosse verdade. A minha resposta foi a de reunir canções de diferentes artistas, numa colectânea intitulada Vigil. O projecto é muito independente e todo o dinheiro arrecadado reverte a favor da instituição de caridade Windows of Hope. Esta tem sido a maneira de gastar as minhas energias.

M.D. - É religiosa?

S.V. - Não era religiosa até atingir os 16 anos, quando me tornei budista. Embora acredite na religião confesso que não sou muito praticante.

M.D. - No último disco, Songs In Red and Grey, nota-se um tom mais intimista do que nos anteriores. Há dor, perda e alguma raiva no ar.

S.V. - Nalgumas canções expus um pouco da minha vida pessoal. Quando escrevi as músicas, tinha passado por um processo de divórcio [o seu ex-marido é o produtor Mitchell Froom]. Estava zangada. Mas tentei ser justa e ao escrever as canções não embarquei naquela lógica de eu ser a boazinha e ele o mau da fita.

M.D. - Qual o significado do título do disco, Songs in Red and Gray?

S.V. - A paixão associada ao vermelho (Red) opõem-se diametralmente ao intelecto que está mais relacionado com o cinzento (Gray). Há diferenças entre ser-se novo e rebelde e mais velho e maduro.

M.D. - Conhece algo sobre a música portuguesa?

S.V. - Não sobre a música pop, mas tenho informações sobre fado e Amália Rodrigues. Pouco mais.
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