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Correio da Manhã

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A PRAIA DOS TREMOÇOS

Na Praia da Marinha, a mais bela do país, havia quem salgasse tremoços nas suas águas límpidas e quentes. O turismo acabou com a tradição. Hoje, só resta António Lourenço, um algarvio de 68 anos para contar a história.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
As pegadas de António deixam marcas irregulares na areia. Qualquer um perderia uns minutos a contemplar a praia deserta de água azul esmeralda e areal branco, entre grutas gigantes. Mas o algarvio tinha uma missão a cumprir: salgar os tremoços que havia cozido há poucas horas em casa. Ele carrega-os às costas dentro de duas enormes sacas de batata.
O Sol está a pique e alguns pingos de suor escorrem-lhe pela testa, mas não há tempo a perder porque a maré está a vazar. Esta é a altura ideal para deixá-las na areia molhada, presas a uma rocha, para as águas não as levarem quando a maré encher. Embora a praia esteja deserta, António olha em todas as direcções, desconfiado. Já não era a primeira vez que lhe roubavam os tremoços, que tinham de ficar de molho durante a noite.
“Isto foi há 50 anos quando não havia turistas na Praia da Marinha, mas não faltava malandragem, como hoje”, recorda António Lourenço, um homem franzino de pele enrugada pelo Sol e pelos 68 anos de vida. “Quando alguém levava uma das minhas sacas ficava danado. E tentava saber quem é que tinha sido o ladrão.”
No seu tempo, praia não era sinónimo de lazer e muito menos de turismo de massas. Representava apenas o final dos extensos campos de trigo e de milho, onde ele e dezenas de rapazes trabalhavam de sol a sol a soldo da proprietária das terras, a dona Maria do Carmo. “Ganhava menos de 20 escudos por dia”, assegura. “Ou então pagavam-me com figos. Por cada sete que apanhava, davam-me um. Era uma vida difícil”, queixa-se com uma ponta de amargura na voz.
Ao fim de um dia cansativo de jorna nenhum dos camponeses pensava, no entanto, em dar um mergulho nas águas refrescantes do Atlântico. “Não havia vagar para essas modernices. Além disso, eu não sei nadar”, confessa. “Só muito raramente é que ia pescar safio.”
Em vez de aventuras radicais, António preferia ocupar os tempos livres a petiscar uma dose de tremoços que salgava com os amigos, o Marcelino ou o Águas. “Não havia dinheiro para a cerveja, por isso acompanhávamo-los com vinho de Lagoa, produzido na adega cooperativa da Caramujeira.” Hoje suspira por esses fins de tarde de amena cavaqueira, quando nem sabia o sinónimo da palavra solidão. “Já não tenho amigos: uns morreram, outros desapareceram ou mudaram de residência.”
Com eles, perdeu-se também a tradição de ir à praia salgar tremoços – que serviam na sua maioria para alimentar a criação de porcos. “Contam-se muitas histórias desses tempos e a maioria nem é verdadeiras.” Há poucos anos, corria o boato de que uma criança se teria afogado na Praia da Marinha por causa das sacas na água. “Não passam de lendas que as pessoas gostam de contar para impressionar os mais novos”, justifica António que hoje tem como única companhia a sua mulher Isabel, com quem vive numa pequena vivenda à beira da estrada, a caminho da referida praia.
Os dois idosos, que só saem da residência ao volante do seu ‘papa-reformas’ – o microcarro de cor azul que não precisa de carta de condução – pertencem à geração que nasceu num Algarve rural e desprezado pelo Terreiro do Paço e envelheceu numa das mais apetecíveis zonas turísticas da Europa. “Não foi fácil adaptarmo-nos à nova realidade.”
PRAIA DOURADA
Embora torçam o nariz à ‘invasão’ de turistas, o casal de sexagenários ficou radiante quando soube pela televisão que a ‘sua’ Praia da Marinha foi eleita por especialistas internacionais em roteiros turísticos como uma das cem mais bonitas do mundo e a mais limpa de Portugal. “Sempre foi um paraíso. A vista da falésia é sempre um regalo à vista e as águas são quentinhas”, referem com conhecimento de causa. Depois dos seus dois filhos nascerem, a família Lourenço ia banhar-se aos fins-de-semana com mais frequência. “Era sempre uma festa para os miúdos”, recordam. “Tínhamos a areia quase por nossa conta.”
Os idosos abrem o álbum de fotografias a preto-e-branco, onde estão espalhadas as memórias da família. Entre casamentos e baptizados, saltam à vista as fotos tiradas no areal branco da Praia da Marinha. “Os nossos filhos tinham um grande grupo de amigos que passavam a vida a brincar na praia. Mas também gostavam de ir a Benagil e Albandeira, duas das praias mais próximas.”
Nessa altura não havia escadas de acesso ao mar mas apenas um caminho de terra batida, que se fazia com algum custo. Também não existia nenhum bar de madeira a vender hambúrgeres com queijo e colas frescas. E muito menos um parque de estacionamento. “Houve tanta coisa que mudou”, suspiram. “E nem sempre foi no melhor sentido.”
Com os primeiros turistas estrangeiros que apareceram no fim da década de 60, vieram as surpresas. António nem queria acreditar quando via aquelas ‘camones’ muito altas, de pele branca como a cal e sotaque esquisito a tirar o fato de banho mal pisavam a areia. “Elas gostavam muito de se descascar. Faziam-no com a maior das naturalidades”, refere com um sorriso matreiro a fugir-lhe dos lábios. De vez em quando, ele e os amigos combinavam uma excursão até à orla marítima para ver o espectáculo inusitado de ‘striptease’. “Ficávamos de olhos arregalados”, confessa António em voz mais baixa para a mulher não o ouvir. “Hoje, elas preferem tirar a roupa noutras praias mais recatadas, para os lados de Ferragudo.”
Luísa finge que não ouve os piropos do marido e recorda também que muitos desses alemães e ingleses que descobriram a Praia da Marinha enriqueceram à custa daquelas terras quase virgens. “Havia pessoas que compravam um pedaço de terreno por cem contos e vendiam-no pelo dobro do preço. Depois, compravam apartamentos em Portimão com o lucro do negócio.”
Um desses estrangeiros endinheirados chegou a causar problemas com a população e a polícia local. “Como tinha a casa mesmo ao lado da praia, decidiu sem consultar ninguém, montar uma cerca a impedir o acesso à água. Queria a praia só para ele.” Os locais não gostaram do gesto arrogante do proprietário e durante a noite mandaram a sebe abaixo. Nos dias seguintes, o duelo surdo continuou e só a intervenção da Guarda Fiscal terminou com o braço-de-ferro. “Com o 25 de Abril, o fazendeiro foi-se embora e a praia passou a ser de todos.”
Foi também com a revolução que o número de veraneantes multiplicou – apesar da praia se situar numa zona relativamente afastada dos maiores centros turísticos, como Vila Real de Santo António, Albufeira ou Portimão. “Quem a descobre já não quer outra coisa”, garante António.
Apesar do entusiasmo, o sexagenário, que mora a menos de um quilómetro da praia, desistiu definitivamente de ir até à costa. “É cá uma confusão de pessoas! Além disso, o que é que vou lá fazer? Estou velho e sem paciência. Agora os outros que se divirtam.”
ALGARVE PROTEGIDO
A Praia da Marinha, no concelho de Lagoa, ganhou o galardão de ‘Praia Dourada’, atribuído pelo Ministério do Ambiente há quatro anos. Recentemente entrou no Top 100 das praias mais belas do globo. Para além da falésia imponente e das caprichosas formações rochosas, o segredo do seu sucesso deve-se muito à água límpida. Em seu redor, não há hotéis ou indústrias nas proximidades. Os únicos aldeamentos junto ao mar não fazem descargas de esgotos que possam sujar as águas.
Uma fonte da Câmara Municipal de Lagoa garante que durante vários anos estas casas de luxo pertenceram ao empresário Jorge de Brito. “Mas ele vendeu-as há cerca de 7 anos.” Hoje, as sociedades de Al Marinha e Al Bandeira, criadas pelo ex-presidente do Benfica estão na posse de um grupo de homens de negócios. “Mas continua a ser uma zona bastante protegida”, assegura a mesma fonte.
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