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À procura de justiça para Luís

Tinha 17 anos quando morreu em Macau, em 2007. A segunda autópsia abre hipótese de homicídio.
6 de Junho de 2010 às 00:00
Há 15 anos, a família emigrou para Macau. Há três, o sonho virou pesadelo
Há 15 anos, a família emigrou para Macau. Há três, o sonho virou pesadelo FOTO: João Cortesão

O Oriente deixou de ser o sítio onde o Sol sempre nasce para se tornar, para os pais de Luís Amorim, o sítio onde lhes roubaram o coração – onde o Sol se pôs irremediavelmente na madrugada de 30 de Setembro de 2007, quando o filho apareceu sem vida sob a ponte Nobre de Carvalho, em Macau. O Oriente deixou de ser casa, sonho, oportunidade, família e virou tragédia, dor, buraco, silêncio. "E injustiça, principalmente injustiça".

Três anos são minutos para quem tem tamanha dor. Para quem se queixa de não ter sido ouvido, para quem sofre numa luta sem respostas. A dor da morte de Luís, na altura com 17 anos, não é filha única no rosário de mágoas da família portuguesa: "toda a actuação das autoridades de Macau foi de gangsters, uma teia montada para não se saber a verdade", acusa a mãe, Maria José Azevedo, hoje uma sombra daquilo que era antes da tragédia.

Os resultados da segunda autópsia, realizada em Portugal e conhecidos na semana que passou – "conseguida depois de muita luta e insistência" – são hoje um sinal de esperança para quem há tanto espera "para poder dar paz à memória de Luís". E para ficar também em paz. Contrariamente ao que ficou escrito na primeira autópsia, feita em Macau – que apontou o suicídio como a causa da morte – o Instituto Nacional de Medicina Legal concluiu que o jovem poderá ter sido assassinado, como os pais sempre acreditaram, a julgar pelas lesões analisadas pela equipa de especialistas após a exumação do corpo no cemitério de Mafamude, Vila Nova de Gaia.

NAQUELA MANHÃ

Eram 07h00 em Macau quando o telefone tocou na casa dos Azevedo Amorim, numa manhã que prometia ser igual a tantas outras de fim-de-semana. Seria a manhã que lhes mudaria a vida mas, naquele momento, quando lhe pediram que se dirigisse à polícia, Maria José ainda estava longe de adivinhar a tragédia que a esperava. "Quando cheguei à polícia, o agente perguntou-me: ‘o seu filho era feliz? Olhe que ele suicidou-se, atirou-se da ponte’. Foi assim que me deram a notícia". O marido estava no Japão em trabalho quando caiu o coração desta mãe. "O pai só conseguiu vir no outro dia à noite. Foi três vezes à morgue mexer no filho para ver os ferimentos e disse-me nas três: ‘o nosso filho foi assassinado’. Os dois sozinhos em Macau vivemos momentos de silêncio e ostracismo indescritíveis".

O anterior director do jornal ‘Hoje Macau’, que na altura encetou uma investigação por conta própria sobre o caso aponta o dedo às autoridades: "Atenção que quem disse à mãe que o filho se tinha suicidado foi gente da PSP, sem terem visto o corpo ‘in loco’, sem conhecerem o resultado da autópsia nem terem examinado quaisquer vestígios: até porque a maioria tinha sido lavada", revela João Varela. As câmaras de vigilância que estariam no trajecto do jovem, desde a saída do bar onde estava com amigos, não captaram qualquer imagem.

"Custa-me pôr em causa os órgãos judiciários de Macau, porque sou um operador do Direito local, mas tenho de reconhecer que as investigações foram muito deficientes, que partiram do pressuposto do suicídio que foi transmitido à mãe pela polícia. Durante uns meses dei o benefício da dúvida mas percebi que foram cometidos erros complexos, erros atrás de erros – chegámos a sugerir a reinquirição das testemunhas, que no primeiro interrogatório foram induzidas pelo mesmo pressuposto", acusa o advogado dos pais em Macau, Pedro Redinha, há 33 anos na vida forense. Amigos e professores tiveram reacção semelhante à dos pais.

"Quando me ligaram a dizer que o Luís se tinha suicidado eu disse: ‘não pode ser, é impossível’. Era um miúdo com projectos, com sonhos. Não tinha nenhum problema em casa nem na escola. É a mesma coisa que me dizerem que o Sol nasce à meia-noite", clama o professor de informática da Escola Portuguesa de Macau. Pedro Lobo recorda o aluno "trabalhador, educado, amigo. Brilhante nas Ciências e na Matemática. Infelizmente, tinha o handicap de ser português: daí a postura da polícia ter sido de despachar".

O SONHO DO ORIENTE

O casal chegou a Macau através de um convite profissional dirigido a José Amorim, engenheiro de profissão. "OLuisinho devia ter uns cinco anos. Para mim ir para o Oriente era um sonho, levar os meus filhos e criá-los lá. Foi a minha casa durante muitos anos mas hoje representa a maior tragédia da minha vida, o dia em que o relógio parou". Maria José era professora de Filosofia mas desde então não consegue dar aulas. "Olho para a cara dos alunos e vejo em todos o meu filho. É-me insuportável. Perdi também a memória a curto prazo e a capacidade de concentração".

Dezassete dias depois da morte de Luís, as autoridades libertaram o corpo – foi então que o trouxeram para Portugal, para Gaia, onde nasceu. "Nesse dia viemos os três juntos no avião: eu e o meu marido nos nossos lugares e o corpo do meu filho no porão". A custo, muito a custo, regressaram ao Oriente para a continuação do pesadelo. "Esperámos pelo fim do ano lectivo para a Mariana [filha mais nova, hoje com 16 anos] acabar as aulas e virámos as costas a Macau. Deixou de ser a minha casa". José Amorim partilha com a esposa o adeus definitivo. "Só voltarei se for necessário para o processo, para fazer justiça. Para mim é um território de faz-de-conta: onde superficialmente tudo funciona mas é tudo ilusão, é assustador".

Voltaram sozinhos para a casa que os quatro tinham escolhido anos antes – "O Luís tinha o quarto todo montado, mas hoje a casa é grande demais para nós, falta a voz dele". Antes da tragédia o casal ponderava voltar para o país de origem quando o filho ingressasse na faculdade, no ano seguinte. "Ainda estávamos indecisos mas a nossa ideia era vir pelo menos durante o primeiro ano do curso – para ele se ambientar a Portugal".

Na noite em que tudo aconteceu, Luís esteve numa festa de finalistas. "Era para angariar dinheiro para a viagem da turma, que deveria ser à Tailândia, destino habitual dos jovens em Macau", recorda o professor Pedro Lobo. Pouco depois da morte terá sido criada uma página na internet de homenagem ao jovem – "onde uma amiga dizia que tinha sido a última pessoa a ver o Luís. No relatório não vem nada sobre isso", explica o advogado da família, anunciando: "tenho o requerimento para reabrir o processo preparado. Vai implicar a reinquirição das testemunhas, incluindo essa jovem, para perceber os factos. Sentimentalmente, quero acreditar que ainda é possível apurar suspeitas, encontrar novas linhas – mas os primeiros 15 dias da investigação são cruciais. Três anos depois é mais difícil".

No relatório da primeira investigação, escrito em chinês, "há duas versões diferentes. Numa dizem que foi a polícia que encontrou o Luís e que chamaram um colega dele para o identificar. Noutra, que foram dois chineses do Casino que o viram", aponta a mãe. Num trabalho de Luís Amorim, para o jornal da escola anos antes, lemos:‘quantas vezes o homem não superou a negatividade humana?’. Muitas, responderão aqueles que ainda acreditam.

O QUE SUSTENTA A HIPÓTESE DE HOMICÍDIO

O relatório da primeira autópsia, realizada em Macau, defendia que o jovem tinha caído da ponte Nobre de Carvalho, sustentando o suicídio. A equipa do Instituto Nacional de Medicina Legal concluiu que as lesões cranianas causadoras da morte e a fractura do fémur direito ‘denotam haver sido produzidas por instrumentos de natureza contundente ou perfuro-contundente’, o que aponta para a possibilidade de homicídio e não de suicídio. Até porque, segundo o relatório, ‘uma queda vertical de uma altura entre 12 a 16 metros provocaria muitos mais danos do que os verificados’ – ‘o padrão de fracturas é mais consistente com múltiplos traumatismos directos repetidos ao nível crânio-facial mas também na coxa direita’.

O advogado dos pais de Luís confirma que requereram três vezes a realização desta segunda autópsia. "Há muitas incoerências no relatório de Macau", confirma Duarte Nuno Vieira, presidente do INML.

GOSTOS

Luís fez parte do Clube de Jornalismo, na Escola Portuguesa, e do Clube de Bicicletas mas sonhava ser médico ou engenheiro. 

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