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A SENHORA NOTICIA

“O jornalismo é uma missão. Acredito no jornalismo de causas. Piamente.” A afirmação é de Ana Leal, 34 anos de idade, 16 de jornalismo, actualmente Grande Repórter da TVI. Eis a história de uma mulher que ainda quer mudar o mundo
8 de Novembro de 2002 às 18:41
Começou na Antena Um, ao mesmo tempo que entrava para a Faculdade de História, no Porto. O primeiro momento marcante chegou quando, no Verão de 91, ao serviço da Rádio Comercial, meia--Lisboa jornalística já a dava como perdida por bala cega de alguma das falanges em que se fragmentava a Grande Jugoslávia de Tito ( ver caixa ).

Ana Leal faz juz àquilo em que acredita tão “piamente” – ergue a bandeira de uma qualquer causa que descubra, sempre humana, sempre ao lado da vítima, e aí vai ela até às revelações. Mais um soco no estômago do telespectador, mais um naco de realidade revelada em toda a cor. Depois chegam muitas vezes as reacções do sistema. Investigações policiais. Inquéritos. Demissões. E processos onde, porque a Justiça é cega, Ana Leal tem o carimbo de arguida. “Não sei. Já perdi a conta...” Puxa pela memória, perguntada sobre o número de ocasiões em que já rumou à “justiça”. Foca-se na última vez em que tal aconteceu. Desmantelara uma rede de falsificação de passaportes – “consideraram-me cúmplice porque, para confirmar os factos, tive que me fazer passar por mais alguém que precisava de um passaporte”. Ainda não há a figura do jornalista infiltrado, mas tudo irá acabar bem. Como sempre. Com Ana Leal, a reportagem é profunda, muitas vezes chocante, mas segura. “Nunca fui condenada”, remata.

“PARA SEMPRE”

Quem desce às investigações mais pungentes, acaba por deixar parte do coração pelo caminho. São muitos os laços que Ana Leal mantém com pessoas que leva até ao ecrã. Sofre com a mãe de Rui Pedro (a criança que se julga ter sido raptada por pedófilos), mas não perde a esperança. Vai até à Holanda para obter CD onde abrem 60 mil imagens apreendidas pela Polícia à maior rede de pedofilia desmantelada na Europa. Corre-as, uma a uma. Descobre a foto onde aparece alguém que bem pode ser o Rui Pedro. A PJ tem mais uma pista para seguir. Onde está Rui Pedro? Ana Leal acredita que “ainda se pode descobrir”.

E se não fosse jornalista? A resposta é imediata – “estaria numa missão humanitária qualquer, provavelmente em África” . Mas a sua missão é aqui. Quando, ao serviço da RTP, avançou com uma reportagem, “Inocência Perdida”, onde deu luz à crua realidade dos maus tratos infantis em Portugal, Ana Leal encontrou mais dois dados irreversíveis – “a Patrícia e a Letícia passaram a fazer parte da minha vida. Nas férias vou buscá-las a Reguengos e passamos uma temporada com a minha família.” Assim duas crianças, de nove e 12 anos, entregues a uma instituição devido a maus tratos, encontraram uma escora “para toda a vida”. E porque não as adopta? - “Se estivessem para adopção nem hesitava. Assim, não é possível. Mas acompanho todos os passos no crescimento dessas duas miúdas. E elas sabem que será sempre assim.”

AS MEDALHAS DA REPÓRTER

A carreira de Ana Leal já conta com vários prémios de jornalismo, mas o maior orgulho é a causa que ergue, cada vez que denuncia mais um caso de injustiça e dor. Quando a pesada máquina da Justiça é forçada a seguir os seus lestos passos de jornalista.

A descoberta de uma menina saudável entre as crianças entregues aos cuidados de uma instituição vocacionada apenas para casos de sida. A denúncia de um caso de violação, seguida de homicídio, que envolvia altos dirigentes do Estado angolano. Ou a revelação de tratos esclavagistas a que estavam sujeitas pessoas, bem às portas de Lisboa. Medalhas que uma já longa carreira deixou na lapela da repórter. E agora? Ana Leal não fala do futuro, sem antes olhar o presente que a rodeia. “Agora, sinto ainda necessidade de não perder o contacto com o trabalho do dia-a-dia, numa Redacção. Hoje as pessoas sobem demasiado rápido na carreira. Não há o cuidado de ascender etapa a etapa. A responsabilidade deve chegar com a experiência profissional, mas esta regra não é respeitada.” Sim, mas o futuro? “Irei até onde os meus sonhos alcançarem”.

Desaparecida na guerra

Redacção da Rádio Comercial, Junho de 1991. Tinha apenas 22 anos e levava “a roupa que tinha vestida e um gravador”. Uma viagem de C130, que deveria ser de ida e volta entre Lisboa e Zagreb, tornou-se para Ana Leal no seu baptismo de fogo na grande reportagem. “O director lançou-me o desafio de ficar por lá e tentar chegar a Sarajevo.” Aceitou. Durante três semanas, ninguém em Portugal soube dela. O que se passou ao longo desse tempo, só agora verbaliza, ainda com poucas palavras – “fiquei a conhecer muito de mim. Lutei pela sobrevivência. Eu, que sempre tive horror a sangue, descobri que nas situações limite sou muito mais forte do que julgava”.

Testemunhou a batalha de Mostar. Comeu o pão que sérvios, bósnios e croatas amassavam na zona e, três eternas semanas depois, graças a um telefone satélite emprestado pela CNN, Ana Leal fazia prova de vida, com uma entrada no jornal da meia-noite, directamente de Sarajevo.

Perfil

Ana Leal tem 34 anos, feitos a 9 de Outubro. “Passei o dia a montar a reportagem que fiz em torno do caso do Rui Pedro. No ano anterior, no dia de anos, estava no Paquistão em reportagem...”. É a vida, diria alguém. E a vida de Ana Leal já dava um livro. Tirou o curso de História, na Faculdade do Porto, enquanto se tarimbava como jornalista, primeiro na Antena Um ( 1984 ), depois na Rádio Comercial ( 1985/94 ). Quando acabou o curso, rumou a Lisboa, ainda ao serviço da Comercial. O fascínio da televisão apanha-a em 1994, quando entra para a TVI. Três anos depois, ingressa nos quadros da RTP para integrar a equipa da Grande Reportagem. Em Março de 2000 volta à TVI.
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