A sorte que protege os audazes

Meio século de bravura dos homens que lutam pelo País. Os comandos são um exemplo para as tropas internacionais
08.07.12
A sorte que protege os audazes
Neste exercício, um atirador foi ‘atingido’ Foto Bruno Colaço

Em cinquenta anos de história – assinalados no passado dia 29 de Junho – apenas uma mulher se atreveu a concorrer ao exigente curso de Comandos portugueses. Mas nem terá passado da primeira fase. "Mesmo na parte teórica há uma grande pressão sobre os instruendos. E só os melhores é que se aguentam", explicou à Domingo o coronel Gonçalves Soares, actual comandante das Tropas Comandos.

Pelo rigor, pela exigência e pelos níveis de resistência testados ao limite são muitos os que ficam pelo caminho. Mas quem permanece, luta com orgulho e audácia. E nunca esquecem o que passaram, seja bom ou mau. Quem é comando uma vez, é comando para sempre. "Há uma união imensa naquilo que fazemos. Não é por acaso que, mesmo depois de saírem do Exército, os militares se continuam a encontrar", referiu o capitão Pereira. A formação desta tropa especial remonta aos anos da Guerra Colonial.

Em 1961, quando os militares portugueses chegaram a Angola, rapidamente se percebeu que o nosso Exército não estava preparado para tantas adversidades. As características do terreno, do clima e da guerra subversiva exigiam aos nossos homens uma forma de luta para a qual não estavam preparados. Assim, a 12 de Setembro de 1961, o comandante das Forças Armadas de Angola, o general Venâncio Deslandes, emite um despacho: "A experiência já demonstrou que o tipo de guerra que vimos enfrentando mostra que há necessidade de dispormos de uma 4ª força com a missão especial de contraguerrilha."

A 29 de Junho de 1962 nascem então, em Zemba, Angola, os primeiros seis grupos de tropas do Exército português adaptadas à guerra do Ultramar. Mas só quatro anos mais tarde é criado um centro de instrução em Portugal – Lamego; e em 1974 – já finda a guerra colonial – na Amadora. Actualmente, o Centro de Tropas Comandos encontra-se na serra da Carregueira, em Belas, Sintra.

No meio século de existência, uma das datas mais importantes foi o golpe de Estado do 25 de Novembro de 1975. Evitaram mortes, mas sofreram três baixas. E impediram uma guerra civil que estava iminente, no ambiente infernal trazido pelo ‘Verão Quente’ no pós-25 de Abril.

A surpresa da extinção chegou em 1993. O Regimento de Comandos é extinto e a especialidade Comando é temporariamente suspensa, sendo reactivada nove anos depois. Mas nesse intervalo de tempo, uma força de Comandos participou em exercícios nacionais e estrangeiros. Na Bélgica impressionaram: foram a única força especial, entre militares europeus e norte-americanos, a concluir as missões sem qualquer captura sofrida.


CURSOS DE COMANDOS

O grau de dificuldade mantém-se, mas o curso de Comandos foi sendo reformulado ao longo do tempo. Durante 12 semanas os instruendos são testados – em condições árduas –, sendo avaliados em termos físicos, mas sobretudo em termos psicológicos. Durante o curso tudo é imprevisível: num momento podem estar numa sala a aprender técnicas de socorrismo e, num outro, a correr quilómetros (48 km!) com vários quilos às costas. "Eles não conhecem o horário. Nunca sabem o que vem a seguir. Têm de estar sempre preparados", afirma o comandante. Até porque mesmo dentro das camaratas, na hora do suposto descanso, são sujeitos a sons de guerra… a qualquer hora da noite. E podem ser ordenados exercícios, mesmo nos momentos mais imprevisíveis. "Às vezes estão a tomar banho e têm de formar. Mas aqui não há desculpas. Têm dois minutos para estarem prontos."

Actualmente, a taxa de sucesso situa-se entre os 25 e os 40%. Para o próximo curso, que começa em Outubro, já estão inscritos cerca de 50 homens. Mas pelo caminho já ficaram vários. Antes de serem aceites para iniciar a instrução os candidatos são sujeitos a vários testes médicos e psicológicos. Só entra quem tem capacidade de resistência. "Queremos os melhores dos melhores", ressalva Gonçalves Soares.

Há três anos o curso de Comandos sofreu uma reformulação. Hoje em dia a dificuldade vai sendo gradual. "As características dos jovens voluntários mudaram e nós tivemos de nos adaptar. Agora têm um nível intelectual maior, mas capacidades físicas menores. Passam muito tempo a jogar PlayStation", brinca o comandante.

A primeira fase do curso – de aquisição de conhecimentos – tem a duração de oito semanas. A segunda corresponde à aplicação dos conhecimentos, integrando os instruendos em unidades de escalão Grupo de Combate. Aqui, são testados fisicamente em vários cenários: floresta (Pinhal de Leiria); montanha (serras do Marão e do Alvão); planície/água (região da barragem do Alqueva).

Na memória ficam condições extremas a que são sujeitos propositadamente, para estarem aptos a enfrentar qualquer situação. A ‘Semana Macaca’ ainda existe, mas já não é tão temida pelos instruendos. Nas décadas de 70 e 80, essa semana marcava um dos momentos mais difíceis de enfrentar. Durante sete dias, o objectivo é tirar os homens do contexto da rotina normal, para ver até onde aguentam psicologicamente. O almoço é à meia-noite, o jantar é às 07h00 e o pequeno-almoço às 19h00. No meio, rigorosos exercícios a qualquer hora, enfrentando o frio ou o calor extremos. "Essa semana já não é tão temida, porque os jovens de hoje em dia já não cumprem horários. Almoçam tarde, jantam tarde", explica Gonçalves Soares.

Na fase prática havia ainda a GAM. De nome técnico Ginástica de Aplicação Militar, era e é conhecida entre os instruendos como ‘Ginástica até à Morte’, devido à dureza dos exercícios. Rastejar de costas numa manilha com cerca de quatro metros cheia de água e óleo; rastejar no mato com arame farpado a poucos centímetros da pele; correr numa roda com uma espingarda G3 no ar, sem poder baixar o braço um único milímetro sequer. Estes são apenas alguns exemplos.


A nível psicológico, uma das provas mais complicadas é o ‘Passo Fantasma’. Durante três horas, pela madrugada, debaixo de calor ou frio, os instruendos são levados para um eucaliptal. Aí, treinam pisar o terreno – com folhas secas de eucalipto – sem serem ouvidos. Primeiro colocam o calcanhar, depois o restante pé. Mas ao mínimo ruído voltam a fazer tudo novamente. E é muito raro haver silêncio.

MISSÕES

Em 2005, os Comandos vão pela primeira vez para o teatro de operações no Afeganistão, actuando como Força de Reacção Rápida do comandante da ISAF (International Security and Assistance Force), que não lhes poupou elogios: "Cada homem mostrou uma conduta, determinação e entusiasmo implacáveis. Provaram que são um exemplo real para as outras unidades com quem trabalham e que o seu magnífico rumo deve ser seguido pelos outros." Entre várias referências elogiosas, destaque ainda para a do general Hillier, chefe do Estado-Maior de Defesa do Canadá. Em 2007, escreveu: "A sua firme actuação debaixo de fogo é uma prova da sua valentia. Numa emboscada, rapidamente responderam com disciplina e controlo ao ataque. Neutralizaram os atacantes e asseguraram que não haveria vítimas."

Nos Comandos desde 1988, o coronel Gonçalves Soares tem bem presente na memória os meses que passou nas suas missões no Afeganistão – em 2006 e 2008. Há cerca de quatro anos, enquanto falava com a mulher através do Skype – programa na internet que permite falar através de uma webcam –, um rocket atingiu a zona do acampamento onde estavam, em Cabul. "Ela ouviu o estrondo e perguntou logo o que era. Inventei que tinham batido contra uns contentores e desliguei logo, senão ela começava a ouvir as sirenes. Só lhe contei quando cheguei a Portugal."

Em 2006, mostraram a sua valentia. Houve a informação de que vários talibãs estavam reunidos numa zona conhecida pelo ‘Vale dos Talibãs’. Sem aviso prévio, numa hora totalmente improvável, os 40 homens de Gonçalves Soares dirigiram-se ao local e despistaram uma eventual ameaça dos terroristas. Nem os EUA tiveram coragem de lá ir, apenas os nosso homens. O lema assenta na perfeição: ‘A Sorte Protege os Audazes’.

EXERCÍCIOS ATÉ ATINGIR A PERFEIÇÃO

Quem termina com distinção o curso passa para o Batalhão de Comandos. Mas a formação nunca pára. Todos os dias os militares praticam inúmeros exercícios, que só terminam quando são feitos na perfeição. A Domingo teve oportunidade de assistir a uma dessas provas. No meio do nada, o atirador de um veículo militar – num grupo de três – é ‘atingido’ por um snipper. De imediato, os gunners dos dois restantes veículos baixam-se, para ficarem protegidos pelo blindado, e as viaturas saem a alta velocidade para uma zona de segurança. "Tem de haver uma mecanização para que seja automático quando estiverem no teatro de operações", explicou o tenente Monteiro.

André Pereira e Edgar Silva, ambos soldados, 27 anos, estão nos Comandos há três. Vão integrar o grupo que irá para o Afeganistão em Setembro e, apesar de deixaram as famílias em Portugal, não se arrependem: "É um orgulho estar aqui. São uma segunda família."


NOTAS

FORMAÇÃO

Cada companhia tem um instrutor, mas para as especialidades há sempre um instrutor diferente.

SOCORRO

As técnicas de socorrismo são dadas pelo 1.º sargento Rafael Rodrigues, enfermeiro de 30 anos .

ADAPTAÇÃO

Há casos em que os veículos recebidos necessitam de ser adaptados à realidade das Tropas Comandos.

BENFICA

O Sport Lisboa e Benfica associou-se aos 50 anos dos Comandos. Nos jogos, vai divulgar actividades.

"O TREINO DE UM COMANDO ERA E É DURÍSSIMO" (General Almeida Bruno, 1º Comandante do Batalhão de Comandos Africanos na Guiné, de 1971 a 1973)

Na cerimónia dos 50 anos dos Comandos, sensibilizou-nos a mensagem do Presidente da República, que se dirigiu aos veteranos e aos que estavam em formatura, jovens, nascidos no final do século XX. Estamos em 2012, a situação é diferente, mas os valores dos Comandos são inalteráveis: amor pela pátria, respeito pela comunidade, respeito pelos portugueses.

Durante a condecoração dos cinco guiões, em que se lembraram propostas feitas em 1973, pensei nos meus oficiais, sargentos, e alguns praças, assassinados pelo PAIGC, contrariamente ao que tinha sido assinado nos acordos de Argel. E eu estava ali a olhar o Império e a dizer que esta condecoração é para eles. Foi assim que interpretei a condecoração do guião do meu batalhão.

O treino de um comando era e é duríssimo. E o comando de hoje é igual ao de 1964. Ser o mais condecorado, com 32 condecorações, não é importante para nós, soldados, que passámos situações de risco. Eticamente, uma condecoração não se agradece. Fui condecorado Oficial com palma da Torre e Espada a 10 de Junho de 1973, no Terreiro do Paço.


"ORGULHO-ME DOS HOMENS QUE ESTIVERAM COMIGO" (Coronel Matos Gomes, 1ª Cia. do Batalhão de Comandos Africanos, comissões em Moçambique, Angola e Guiné, de 1967 a 1974)

Ingressei nos Comandos em 1969. Era tenente de cavalaria, tinha 22 anos e fui porque não gostava de ser como a maioria, não gostava das missões cumpridas pelas unidades ditas normais, que ocupavam posições fixas no território. Os comandos tinham à partida o aliciante de todos serem voluntários e o voluntariado é assumido como uma responsabilidade individual.

Nos Comandos todos sabem que devem sobreviver em todas as circunstâncias. E essa convicção é a sua grande força. Formei-me no Centro de Instrução de Comandos – o CIC – em Luanda em 1969. Fui adjunto da 21ª Companhia de Comandos, e comandante de um grupo de comandos, que depois de combater em Angola foi transferido para o norte de Moçambique.

Desde 1967 combati em Moçambique, no norte de Angola e na Guiné. Orgulho-me dos homens que estiveram comigo. Estou certo de que pertencem a uma elite dos que se ultrapassaram. Lembro com emoção os mortos que caíram a meu lado. Lembro-os muitas vezes, sem alarde, tenho-os no fundo e no silêncio domeu coração.

"FOMOS OS ÚNICOS QUE NÃO TIVEMOS MORTOS" (Major-general Arnaldo Cruz, Comandante da 33ª Companhia de Comandos Angola, de 1971 a 1973)

Entrei para os Comandos quando tinha acabado uma comissão com uma companhia de tropa normal, uma companhia de Caçadores. Integro uma geração que fez a guerra e portanto as opções eram fazer ou não fazer a guerra. Não fui para os Comandos porque acreditasse mais na guerra ou menos, ou porque tivesse convicções reforçadas em relação àquilo que nos fazia estar em África, mas tão-só porque me pareceu que tendo de fazer a guerra ali era a forma mais segura de a fazer, para mim e para os meus homens.

Comandei a 33ª Companhia de Comandos de Angola. Do curso lembro-me que foi exigente, duro, principalmente porque nos sujeitava a grandes sacrifícios, grande intensidade de esforço, uma arritmia constante. A minha companhia de Comandos foi a única que, tendo tido contacto com o inimigo de guerra em todas as operações que fez, não teve mortos, não sofreu baixas, o que me envaidece. Este mérito, de conseguirmos trazer toda a gente de volta, é dos soldados, sargentos e oficiais que nunca se desleixaram no cumprimento das regras, essenciais na guerra.


"NESSE TEMPO HAVIA UMA CULTURA DOS BRAVOS" (Tenente-coronel Santos e Castro, Fundador e 1º Comandante do Centro de Instrução de Comandos em Angola)

O meu tio Gilberto era um homem extraordinário. Era irmão do meu pai e alguém com quem me entendia bem. Gilberto Santos e Castro nasceu em Angola e era um oficial do exército, distinto, brilhante, muito respeitado pelos camaradas de armas. Foi comandante no quartel de Mafra e seguiu para Angola, fundar os Comandos. Recordo-me que a sua cultura militar era de grande partilha de risco. Havia nesse tempo uma cultura dos bravos.

Pai de três filhos, abraçou de forma apaixonada os Comandos. Participou na criação do primeiro símbolo e no grito de comando ‘Mama sume’, expressão de uma língua nativa africana que significa ‘aqui estamos’. O meu tio Gilberto é o meu herói privativo. Uma pessoa de enorme simplicidade e alegria, totalmente consequente.

Português e angolano, tinha grande desconfiança dos políticos e depois do 25 de Abril, quando se demitiu das Forças Armadas e optou por combater em Angola contra os movimentos de libertação, dizia que se os bravos de todos os lados se sentassem à mesa teriam resolvido a situação de outra maneira. Perdeu e morreu triste em Portugal em 1996.

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