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Correio da Manhã

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A tia ucraniana

O miúdo, despachado, balbucia o pedido - o bolo empanturrado de creme que o seduz da montra
Victor Bandarra 13 de Maio de 2012 às 15:00
Revolução, 24 de Abril, Eanes, Soares, Sampaio, Paulo de Carvalho, FMI
Revolução, 24 de Abril, Eanes, Soares, Sampaio, Paulo de Carvalho, FMI FOTO: João Miguel Rodrigues

Sorriso embevecido, o avô chega-se ao balcão da esplanada do jardim com o neto agarrado às pernas. O miúdo, despachado, balbucia o pedido – o bolo empanturrado de creme que o seduz da montra. Em troca, recebe um semicerrar de olho azul da rapariga loura, justamente enfiada em moderníssima calça de ganga rasgada. "Qué que vocé quéer!?", enjoa-se a lourinha, displicente, carregando na sílaba final e engolindo as do meio, no estilo fonético a que alguém convencionou chamar "sotaque à tia de Cascais".

Junto à alva criatura, outra jovem, crioula, mantém-se impávida a lavar copos, chávenas e pires. O homem, sotaque nortenho, babado com as vontades do rapazito, repete o pedido: "Um bolito desses que estão aí prantados..." A loura franze a testa e alteia o pescoço. "O queeê? Não pecebo..." Impaciente, ao rapaz dá-lhe para pontapear as mesas. O avô, afervorado, cerra os dentes e aponta a morena. "Aquela menina cabo-verdiana sabe que bolo é este que o meu neto quer!" Serena, olhos baixos, a crioula faz-lhe orelhas moucas e esfrega os copos com mais força.

A clientela arregala olho e apura ouvido. Os fregueses certos conhecem bem a menina bem, filha da senhora bem que, por falta de bens, decidiu abrir "um espaço onde também se come", o que só lhe fica bem. Alguns até conhecem o velho, provinciano que a crise obrigou a deixar a aldeia para acompanhar a mulher até casa da filha, trabalhadora em Lisboa. Porque alguém tem que ficar a tomar conta do neto depois das 5 da tarde...

A loura, candidata a altos estudos, fala uma ‘língua’ estranha aos ouvidos do ultramontano. Na verdade, o ‘falar à tia’ é apenas um modismo transformado em tique fonético, ao contrário do sotaque sedimentado do avô nortenho. Uma mania recente que havia de provocar calafrios a boa gente antiga, bem-falante e melhor escrevente, da Marquesa de Alorna ao Conde de Ficalho, do rei D. Carlos à Marquesa de Cadaval. E que causa risinhos de zombaria ao Povo saloio de Cascais.

Nervoso, senhor da sua lusitanidade linguística, o avô avança com defensiva xenofobia. "Olhe! Porque é que não volta para a sua terra?" A lourita pestaneja e embatuca. "A menina é ucraniana, não é?" A rapariga aponta uma mão à barriga. "Eu, ucraniana?! Mas puquê?!" O velho hesita. "Com essa maneira estranha de falar, pensei que fosse ucraniana..." Escutam-se risadas na esplanada. A loura prega ao velho um olhar de raiva. A crioula, em silêncio, abre-se em sorriso de vingança.

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