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Correio da Manhã

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A última batalha

Tinha prometido abandonar a política activa. Dedicar-se aos livros e à família. Não resistiu e voltou ao combate. Para um derradeiro frente-a-frente com o eterno rival Cavaco Silva. História de um combatente que se recusa a cruzar os braços.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
A última  batalha
A última batalha FOTO: Jorge Paula
O prédio onde habita fica na aorta do Campo Grande. A rua dispõe do nome de seu pai, João Lopes Soares, pedagogo notável, activista republicano, fundador do Colégio Moderno. Homem que, a determinada altura, foi padre capelão militar mas, não é pela curta passagem que cruzou com o sacerdócio que na placa está inscrito “ilustre”.
Mal abre a porta da sua casa, diz-nos num tom acolhedor: “Venham. Subam”, como se na véspera tivéssemos deixado a prosa a meio. Alámos a um céu que é a sua extraordinária biblioteca. Encontramos um compartimento com quartos cheios de livros. Prateleiras apinhadas de livros. Estantes que se confundem com livros. Entendamos: entrámos no paraíso de um fiel discípulo de Agostinho da Silva. Obras suas publicadas chegam a quarenta, ‘As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga’, ‘Democratização e Descolonização’, ‘Portugal Amordaçado’, ‘Escritos do Exílio’, ‘Intervenções’, ‘Portugal Europeu’, ‘Um Mundo Inquietante’, entre outras, e a última, por enquanto, ‘A Crise. E Agora?’.
Pelo jeito emocional como guia esta travessia à literatura pressinto o que certifico, quando já sentados frente a frente no seu escritório: não se entrevista, conversa-se com Mário Alberto Nobre Lopes Soares – o candidato presidencial que conta com o apoio do Partido Socialista, partido fundado por este político convicto e intrépido combatente contra a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano, que o deportaram para São Tomé e Príncipe e o forçaram ao exílio. Desde que regressou a Portugal, em 27 de Abril de 1974, a política assemelha-se ao oxigénio: é imprescindível.
Mário Soares formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas e em Direito. É na política, palavra que repetirei às dúzias neste texto, que o seu nome faz pensar. Republicano, laico, agnóstico que acredita no progresso e na humanidade, histórico secretário-geral do PS, desempenhou a esmagadora maioria das funções políticas nacionais. Uma curta espreitadela ao seu curriculum pode avivar a memória: ministro sem Pasta, ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro, deputado e Presidente da República. Cargos que exerceu mais do que uma vez.
SIM, TINHA DITO, NO MESMO DIA em que rompeu o ventre de Maria Elisa Nobre Baptista, sua mãe, na festa de aniversário dos seus 80 anos, que iria sair da tela política para se dedicar, unicamente, a escrever artigos para jornais, revistas, livros, manter o seu programa de televisão, ter mais tempo para as suas longas caminhadas a pé, para nadar, sempre e só no mar. Mas, Mário Soares não faltou à promessa. Não é incoerente. Mais uma vez, “não deixei o País.” A situação que define como de “momento difícil” obriga-o a voltar ao cenário político. Todos notámos o seu regresso. Uns ficaram surpresos, outros acostumados ao seu entusiasmo, renderam-se à evidência: Mário Soares não ficaria de braços cruzados à espera de um messias político. Não há telejornal, jornal que não lhe capte a presença e não lhe apanhe a voz. Ele, um pouco zangado com a Comunicação Social, acusa-a de parcialidade em relação ao professor. Cavaco Silva. A imprensa respondeu-lhe: pura fantasia.
Por instantes, afianço que pode ter sido um engano da aritmética da natureza. Mário Soares completou 81 anos, mas não os aparenta. Nasceu em Lisboa, no mês de Dezembro, e de facto, em 1924, no dia 7, número que dizem ser místico. Talvez também por isso, a lei cronológica lhe fique, implacavelmente, invisível. Talvez.
NA VERDADE, NÃO SE NOTA, não se sente, não se lhe vê a idade crescida. Pergunto-lhe o segredo. O pretendente à cadeira de Belém larga um sorriso instintivo. Percebo a dica. Não existem fórmulas matemáticas para ser sócio cativo do dinamismo. Tem razão o dr. Soares. Não existem receitas para a vitalidade. A sua revelação supera a minha curiosidade por uma confidência que, afinal, se resume: “O que eu tenho é motivação interior.” Mais adiante, entendo que o culto dos sigilos e Mário Soares nunca poderiam casar. Quando foi obrigado ao exílio entrou na Maçonaria francesa, mas em Portugal, “embora tenha muita consideração pelos maçons”, não vestiu os aventais: “Não sou dado ao secretismo. Acho os rituais da Maçonaria um pouco patéticos e não são para o meu feitio.” Essa França, que lhe deu guarida, reafirmou-lhe a certeza: ”Fez-me sentir muito que era, e sou um português até à raiz dos cabelos”, deixando-lhe boas reminiscências: “Fiz contactos internacionais no plano político, jornalísticos, que ainda hoje se mantêm.”
“Ou se gosta muito de mim ou detestam-me” é a frase que agarra, por eu recordar as agressões a que foi sujeito em duas eleições Presidenciais. A primeira, em 1986, na Marinha Grande e agora, em Barcelos. As razões para o ácaro concentram-se nos “adversários da descolonização”, gente que ainda pensa “no império” ou “comunistas muito estreitos.” Não tem dúvidas, são ideias inventadas, como a de que tinha pisado a bandeira nacional, ou a mais recente: “Que eu tinha comprado terrenos na Ota, como se alguma vez me tivesse passado isso pela cabeça, ou tivesse dinheiro para o fazer.”
Fiquei nos “comunistas estreitos.” Percebo os desencontros políticos. Mas o que importa, o que conta na vida de Mário Soares, são os encontros. No ano lectivo de 1941-1942, no Colégio Moderno, Álvaro Cunhal é o seu efémero professor de Geografia, e é por essa ocasião que faz os primeiros contactos com o PCP. Passados 33 anos, todos vimos, Cunhal e Soares a darem um sentido abraço fresco da liberdade do 25 de Abril de 1974. Isso é o que vale. Esta é a memória.
Rodeado incessantemente por amigos. Confidência que a sua vida foi sempre “muito almofadada”, mesmo nas piores circunstâncias, e foram esses amigos “a valer” que, por serem solidários, nunca o deixaram sozinho. A sua Comissão de Honra, que engloba mais de 500 pessoas, poderá representar esse punho de amizade.
AO FALARMOS DESSA AFEIÇÃO, seria impossível seguir sem Manuel Alegre. Um amigo que esperou que o telefone tocasse. Nunca tocou, porque Mário Soares concebe que “há coisas que ele disse que não são exactas.” Não adiantou mais. Não quer comentar. Indubitavelmente, a palavra e o sentimento não mudaram: é amigo.
Até ao dia das eleições, Soares, ex-Presidente da República Portuguesa tem uma meta: ir à segunda volta eleitoral. Se assim for, está, como nos garantiu, “convicto que ganhará.” Será pela terceira vez Chefe de Estado. “Os portugueses não vão cometer o erro de dar vitória a alguém que não fala e que segue um guião.” Esse “alguém” é o prof. Cavaco Silva. Veremos. No dia 22 de Janeiro.
CENAS DA VIDA DE UM CANDIDATO
SOARES, PAI E AVÔ ORGULHOSO
Tem fama de espontâneo. Talvez por isso mesmo, no dia das últimas eleições legislativas apelou ao voto no seu filho, João Soares. O antigo Presidente refuta o verbo apelar. Ele, pessoa “autêntica”, simplesmente respondeu a uma pergunta feita por uma jornalista: “Então eu que sou o pai não iria querer o seu êxito?”
Não dá para não acreditar na expressão: “Sou uma pessoa muito afectiva.” Quando fala dos quatro netos a política desanda, o advogado desaparece, a filosofia, inatamente, permanece. Vejo um avô de peito cheio de orgulho.
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