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Correio da Manhã

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A verdade da mentira

António foi acusado pela filha de abuso sexual. Uma historieta infantil que lhe roubou seis anos de vida. O emigrante conta como sobreviveu à humilhação.
15 de Outubro de 2006 às 00:00
O juiz de instrução pergunta: “Que tipo de actos lhe fez ele?” A adolescente não responde. O juiz reformula a pergunta: “Tratavam-se de carícias ou ia mais longe?” Ela responde que o pai ia mais longe. Depois, o juiz pergunta a Virginie se eram penetrações pela frente ou por trás. Ela responde pela frente e naquele dia, 28 de Maio de 1999, durante o processo de instrução, à medida que às perguntas sucediam as suas respostas, ela começava a condenar o pai, António Madeira, a 12 anos de prisão.
“Nos primeiros anos, preso, queria-lhe mal mas não era um grande mal. Era uma espécie de raiva. Interrogava-me por que é que ela me tinha acusado de uma coisa que não tinha feito.” O emigrante português em França está em liberdade condicional, cumpriu metade da pena. Já abraçou muitas vezes a filha. A única que tem e aquela que o acusou de abuso sexual continuado entre os seis e os 14 anos.
António Madeira regressou a casa em Fevereiro. Já não é a vivenda de 360 metros quadrados que construíra para a família, essa foi vendida. É uma estreita moradia, entalada entre outras, numa rua de uma localidade de Nancy. Mora com a mulher e o filho mais novo. A Entreprise General Madeira, a sua empresa de construção, fechou.Trabalha como antes, como quando começou emigrante em França, é pedreiro.
Aos fins-de-semana, depois da universidade, Virginie vai a casa. Em Setembro, ela publicou ‘J’ai menti’, um livro que escreveu para tentar a reabertura do processo judicial, para provar a inocência do pai. Para dizer que há sete anos, mentiu.
A mentira saiu-lhe para impressionar uma colega. Podia ter dito que o pai era astronauta e andava em órbita. Podia até ter dito que o pai como o Super-Homem, perdia poderes com a kryptonite. Mas já tinha passado da idade dos desenhos animados, via Sunset Beach, uma série americana cheia de dramas adultos. Num episódio, uma das protagonistas acusa o pai de abuso sexual.
A 4 de Maio de 1999, com a heroína de Sunset Beach na cabeça, Virginie diz à sua colega Melanie: “Mon père a abusé de moi...” (O meu pai abusou de mim). A francesa tinha-lhe dito que o pai enganava a mãe. Virginie procurava selar a amizade ao contar-lhe uma história ainda mais extraordinária. Como não tinha, inventa. Deviam ambas guardar segredo. Melanie não o faz, conta à directora do colégio, dando início a uma história que não cabe em nenhuma vida pacata.
PARAÍSO FRANCÊS
António nasceu em Portunhos, freguesia de Cantanhede, numa altura em que o trabalho não escolhia idades e a pobreza corria a todos. Acartou pedra aos oito anos, chegava serradura ao forno da cal aos 12. Aos 14 foi resineiro. Antes da maioridade fez o que a maioria fazia, foi para o paraíso francês. Lá trabalhou como pedreiro.Veio a Portugal cumprir o serviço militar.
Na sala da casa estreita, António trauteia uma música então na moda, Grândola Vila Morena. No recomeço da vida de emigrante em França, já casado e com o primeiro filho, tudo é mais difícil. Quando o recorda vai-se-lhe a Grândola e mesmo que agora, na sala da sua casa, os olhos brilhem da água não é ainda nada comparado às lágrimas que chorou depois de 5 Maio de 1999, quando recebeu uma chamada telefónica da directora da escola de Virginie, a dizer-lhe que não valia a pena ir buscá-la ao meio-dia.
No dia seguinte, António é interrogado por dois polícias: “Eles saíram logo com aquela frase: você violou a sua filha. Ora imagine-se como eu fiquei... Ninguém pode imaginar! Como iria fazer uma coisa dessas?! Foi como se metessem uma faca no coração.”
Durante 32 horas, salvo a noite, tentaram que o português confessasse o crime. António lembra-se e lembrar-se-á sempre: “Era assim, você violou a sua filha; a sua filha tem uma coisa maior que a avó e outras coisas piores. Porco! Já lá vão sete anos e é como se fosse hoje. Foi uma humilhação.” Faz o gesto do arremesso, são os clip que os polícias lhe atiraram então em cima. Caíam-lhe como se fossem pedras.
Quando é presente ao juiz, está acompanhado pelo advogado da sua empresa, que o aconselha a confessar ter feito carícias a Virginie – ele tratará de remediar as coisas. A falsa confissão consegue levar António então para casa, mas ajuda a condená-lo. A 24 de Junho, um recurso põe-no em prisão preventiva. Fazia 47 anos. Na prisão trabalhou sempre no ofício de pedreiro.
NO JULGAMENTO
Em 2001, no julgamento, já sabe quem o acusou. António não consegue identificar bem o momento em que soube ter sido a filha a dizer: ‘Mon père a abusé de moi...”
As sequelas de uma operação urológica feita na infância corrobora a tese de abuso sexual. Virginie não abre a boca. António acaba por validar a acusação, receia apanhar 20 anos. “Ela pouco a pouco conseguiu tirar-me a raiva. No fim do julgamento, achei que já via uma luz. Quando a polícia me levou algemado, Virginie saiu do banco, correu e abraçou-me. Disse-me em francês: Je te demand pardon (peço-te perdão). Correram-me logo as lágrimas.”
António regressa à cadeia convicto de que a filha vai em breve retractar-se. Depois virão buscá-lo à cela, dir-lhe-ão que tudo foi um equívoco, um grande engano – Je te demand pardon. Nada disso aconteceu.
António larga um ‘ai’ prolongado, as mãos esfregam a cabeça. Virginie está lá, na casa estreita, veio para o fim-de-semana. Lembra-se bem do coração apertado quando ouviu o juiz condenar o pai a tantos anos. Nem durante o inquérito tinha tomado tanta consciência do que se estava a passar. Às perguntas difíceis imaginava o que queriam que respondesse, às que não percebia repetia o final da questão ou abanava a cabeça. Achava que se dissesse que sim tudo acabava mais depressa.
Virginie tenta explicar o inexplicável. Fala da menina que foi, envergonhada, solitária, que não disse que mentia porque ninguém lho perguntou. “Foi como se estivesse numa redoma de vidro.”
PROVA DE AMOR
António Madeira aponta no álbum uma fotografia da mulher, Lucília. Tinha aquela imagem, feita em pintura, pendurada na cela. “Ela esteve sempre comigo. Uma grande prova de amor. Eu sofria por estar fechado mas meio livre por trabalhar. Ela sofreu cá fora, quando diziam o teu marido é isto e aquilo.”
Durante dois anos e meio, Lucília não viu Virginie. Ficou interditada de se aproximar da filha, do colégio e de Melanie. Naquele início de Maio de 1999, ainda sem saber que a filha tinha incriminado o pai, vasculhou-lhe o quarto e leu-lhe o diário. Queria perceber porque lhe tinham levado a filha. A adolescente escrevia sobre um amor platónico e sobre Melanie. Lucília foi à escola em desespero, acabou judicialmente interditada – “acharam que queriam influenciar alguma coisa”.
Nunca desistiu de Virginie. Nas visitas que o filho mais novo do casal Madeira fazia à irmã, mandava cartas, coisas que a adolescente tinha deixado para trás, e até comida. Virginie não respondia. “Chorei muito mas não podia fazer doutra maneira. Nas cartas dizia sempre que gostava muito dela.”
Em Setembro de 2001, depois da condenação de António, houve uma abertura, os serviços de protecção de menores começaram a motivar Virginie a falar com a mãe. Um dia telefonou e Virginie atendeu. “Nunca deixei de andar à volta dela mesmo sabendo que a família de acolhimento não gostava muito disso.”
CARA DE MULHER
Lucília Madeira viu a filha pela primeira vez a 25 de Junho de 2002. A cara já não era a de uma menina, era de uma mulher. “Quando a revi não tive nenhum sentimento, abracei-a mas era como se não sentisse nada, estava anestesiada.” Lucília repete amiúde a palavra horrível, enquanto vai contanto a verdade da mentira que destruiu a vida da família Madeira. Foi ela que motivou a filha a escrever ao pai, foi ela que a levou a vê-lo à prisão. Já viviam juntas. Virginie voltou a casa um pouco antes da maioridade.
Na casa estreita, António ainda se comove quando se lembra das cartas cheias de coraçõezinhos que Virginie lhe mandava. “Ela soube trabalhar-me. Mandava-me cartas lindas, onde me pedia desculpa, despedia-se sempre com um beijinho.” E um dia apareceu à hora da visita. Escondeu-se no parlatório e quando o pai se sentou, apareceu de surpresa. “Caímos nos braços um do outro. E bom, era a minha filha.”
Em Fevereiro de 2004, Virginie fez a sua primeira viagem sozinha, até Coimbra, ao Instituto de Medicina Legal para fazer o que em França não é possível sem mandado judicial – um exame pericial de natureza sexual. O exame conclui: “ausência de lesões traumáticas quer recentes, quer antigas, bem como a ausência de permeabilidade aos dois dedos justapostos de um dos peritos que procederam ao exame, leva-nos a admitir que sobre a examinada não tenham sido exercidas práticas sexuais”.
Virginie Madeira escreveu ao presidente da República e ao ministro da Justiça franceses, ao procurador, a advogados, a deputados. A todos dizia que tinha mentido. Ninguém lhe ligou. “Escrevi o livro para os juízes me ouvirem, não é para me mostrar ou fazer dinheiro.”
Virginie ainda se cruzou com Melanie no liceu. Não se falaram. Continuavam a ser duas raparigas diferentes, sem qualquer afinidade.
ANA CATARINA FOI OBRIGADA PELA MÃE
OUTRA MENTIRA
Ana Catarina Domingo também mentiu. Violada aos 12 anos pelo companheiro da mãe, a menina acabou por acusar o progenitor. Mas a mentira de Ana foi induzida pela mãe, Maria Olinda, que pretendia proteger aquele com quem partilhava a vida. Durante anos, o pai, António Rosa, nunca perdoou a falsa acusação. A jovem portuguesa de Tomar foi ao programa da TVI, ‘Você na TV!’, de Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira, para contar o seu drama. Esta semana, Ana Catarina, que aos 21 anos tem dois filhos, reencontrou o pai e este perdoou-a. Chamou-lhe filha.
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