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Correio da Manhã

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A vida é uma tragicomédia

O actor regressa ao teatro no mesmo papel de Villaret, a sonhar com a sua estreia atrás das câmaras, no cinema, o seu amor maior.
3 de Abril de 2005 às 00:00
Nicolau Breyner
Nicolau Breyner FOTO: Sérgio Lemos
Esta noite choveu Prata’, de Pedro Bloch, estreou em 1954 no Teatro Avenida, em Lisboa. João Villaret interpretava os três papéis desta peça para um actor só. Nicolau Breyner, pequeno, estava com os pais na assistência. Mais de 50 anos depois, ele rouba a cena a Villaret - é o negociante português, o actor brasileiro na decadência e o violinista italiano doente desta peça em três actos que vai do humor à tragédia.
Há 20 anos que Nicolau Breyner não fazia teatro. Ele tinha dito que a rotina era a mãe de todos os males e o teatro cansava-o. Volta agora e em tournée pelo país, em 62 salas.
Ainda mantém que a rotina é a mãe…
- … de todos os males. Nos casamentos e na profissão. Neste caso, a rotina está quebrada; em cada fim-de-semana tenho um novo público, uma terra diferente. É uma corrida de fundo. Acredito que aguento bem. E isso faz-me feliz.
Como tem sido a reacção do público?
- Muito boa. As pessoas começam por se rir no primeiro acto, que é quase uma stand-up comedy. Depois sorriem num segundo acto muito romântico. O terceiro é uma tragédia. São três peças diferentes numa só.
Como se fosse a vida real em três actos.
- É a vida, sim. Nada é inteiramente cómico ou trágico. Num enterro há sempre pessoas a rir e nas maiores alegrias há sempre uma pessoa que chora. O que mais se assemelha à vida é a tragicomédia.
À sua vida também?
- À minha e à de todos nós. O que é importante é que na tragédia saibamos ver o lado cómico. Eu rio imenso comigo próprio. E quando me zango, as pessoas fartam-se de rir comigo também, acham graça à forma como barafusto. O que me deixa zangado. Acho que damos demasiada importância a coisas que não são nada importantes. Hoje acordei num dia chato, com chatices para resolver. Entrei para o carro chateado. Quando passei junto à morgue havia um enterro. Pensei: ‘Tu estás mas é maluco. Estás vivo, tens dois braços, duas pernas. Merda. Problema tem aquele gajo, está morto. Paz à sua alma.’ E comecei a sorrir. É estúpido arranjar problemas.
Tem mudanças de humor repentinas?
- Sou um bocadinho borderline, hoje diz--se bipolar. Tenho mudanças de humor bastante acentuadas. Normalmente, não sou uma pessoa com mau humor porque tento que os outros não o percebam. Ninguém tem nada a ver com isso. Os meus problemas são meus. Não sou maldisposto na aparência mas tenho mudanças de humor. Isso tenho.
E na juventude tinha fúrias.
- Ai, sim.
Era um rebelde sem causa.
- Sim, vesti muito a minha geração, era o James Dean, completamente um rebelde sem causa. Era um bocado agressivo e achava que tudo se resolvia de maneira violenta.
Foi nessa altura que se estreou no teatro.
- No Teatro da Trindade, numa peça encenada pelo Ribeirinho, a ‘Leonor Telles’.
Nessa altura como era o teatro?
- Uma grande aventura. Não sei se agora é assim. Não fazia teatro há 20 anos e agora estou em palco sozinho. Trabalhávamos que nem doidos. Na revista fazíamos duas sessões diárias, três ao domingo e não tínhamos folga. Se havia um feriado junto a um domingo fazia-se seis sessões. Mas estávamos sempre a gozar uns com os outros, a pregar partidas…
E a noite era um prolongamento desse ambiente?
- E a noite era diferente. Tinha alguma violência que se resolvia com dois murros e um pontapé. Havia muitos copos, é verdade, mas na minha geração os pais não viviam ansiosos - ‘Ai, o que lhe aconteceu?! Onde é que ele anda?!’ Se calhar, até estávamos numa esquadra, presos. Aconteceu várias vezes. Mas resolvia-se tudo, olho negro a mais ou menos. Aquilo era um bocado o ambiente da televisão quando comecei; fazíamos aquilo por amor. Quando fizemos a Vila Faia, vivemos seis meses como uma família: trabalhávamos juntos, almoçávamos juntos e íamos jantar juntos.
E nunca se fartavam uns dos outros?
- Não, fazer telenovela é ir para uma espécie de legião estrangeira. Mas toda a gente estava bem disposta e vibrava com as coisas que fazia - esta televisão desapareceu, sinais dos tempos. Tenho muita saudade.
É um saudosista?
- Não. Nunca digo ‘no meu tempo’. O meu tempo é este, em que estou vivo. O tempo é da criança de dois anos e do homem de 90. Quando falo daquele tempo é para dizer que se perderam coisas. A qualidade se calhar até é melhor. Mas perdeu-se a emoção, a camaradagem.
Isso é reflexo desta sociedade, apressada?
- Apressada, mais competitiva, mais carreirista.
Hoje os actores pensam mais em fazer carreira?
- Ai sim. E eu nem sei o que é, isso de pensar uma carreira. A vida é que me leva. As coisas aconteceram-me sempre por acaso, as boas e as más.
Apesar de tudo tem a carreira que muitos não tiveram.
- Sou católico praticante, acredito que Deus está lá em cima a olhar por mim. E deve achar que sou um grande asneirento. Deve dizer: ‘Ai, ele fez outra vez um disparate’.
Imagina-O como um pai que o protege?
- Deus só tem razão se for o pai. Acho que Deus está lá em cima a tomar conta de todos nós e de mim também. Mas quando as coisas me correm mal, a culpa nunca é Dele. O padre Vítor Melícias contou-me uma história que era mais ou menos assim: Numa terra houve uma inundação. A água começou a subir e o padre não deixava a Igreja. Passou um barco e o barqueiro chamou o padre: ‘Venha daí, por amor de Deus. O padre respondeu: ‘Não, Deus vai tomar conta de mim’. A água continuou a subir, o padre subiu para o coro, depois outro barco, a cena repetiu-se. A água continuou a subir, o padre já ia no campanário e passa outro barco e o barqueiro diz-lhe a mesma coisa e o padre não, que ficava... A água continuou a subir e o padre morreu afogado. O padre chegou lá acima furioso: Eu sou um padre, acreditei em Ti mas mataste-me. Deus respondeu-lhe: Eu matei-te? Mandei-te três barcos!’
Deus manda sempre os barcos, nós apanhamos ou não. Os disparates que fiz na vida, foram os barcos que não apanhei.
Perdeu muitos barcos?
- Bastantes. Alguns, podiam ter mudado a minha vida, sobretudo os barcos da profissão, ou não os apanhei ou saltei deles.
Mas pelo menos teve sorte imensa em ter ainda trabalhado com…
- … com o Ribeirinho, ainda no Conservatório. Ele foi meu mestre e colega. No fim da sua carreira, dirigi-o numa peça.
Como é que o aluno dirige o mestre?
- Não se dirige nada. Diz-se: ‘Oh mestre faça lá isso’. E ele dizia-me: ‘ Diz lá tu como queres que eu faça’.
Sentia-se acanhado?
- Completamente. Dizia-lhe: ‘Por favor, Mestre Chico não me faça isso’ Nunca lhe chamei Ribeirinho, para mim e para todos era o Mestre Ribeiro ou o Mestre Chico. Tive o grande privilégio de trabalhar com a Laura Alves, era uma lição constante. Quando se acaba o conservatório sabe-se muito pouco, só se aprende a fazer. E então apanhei o Henrique Santana, o António Silva, os tempos de representação dele eram perfeitos. A comédia vive dos tempos de representação, um segundo a mais ou menos, a piada vai para o galheiro.
Tem a memória da primeira vez que encontrou essa gente?
- Foi na peça ‘Leonor Telles’. Entro no Trindade para ensaiar com Eunice Muñoz, com o Rogério Paulo, o Canto e Castro, o Carlos Wallenstein, o Armando Cortês, caramba! Eu entro e estavam lá, no palco, estes e ainda o Costa Ferreira, a Carmen Dolores, todos, o que havia de bom em Portugal estava lá. Eu fiquei… Não, não fiquei nada. Eu era totalmente inconsciente.
Entrou no Trindade, o rapaz Nicolau…
- … mais a rapariguinha Florbela, o rapazinho João Lourenço, o Benjamim Falcão. O Ribeirinho chamava-nos de coirões pequenos. O meu primeiro sonho foi a ópera, queria ser cantor. Só fui aprender teatro como complemento.
Por causa do seu pai.
- Ele disse-me que se queria ser cantor de ópera, tinha de o fazer bem. O meu pai queria que se fizesse as coisas bem, fosse eu sapateiro, médico, advogado. Em boa hora insistiu. E lá estava eu, na minha estreia, extasiado com aquilo tudo, com gente divertidíssima que me acolheram e aos outros novos de igual para igual. Agora, mete-me um bocado de impressão, as pessoas atingem determinado estatuto e ficam distantes.
Ficam cheias de si?
- Sim. Eu fui recebido por grande actores da época e de sempre, como igual.
E de repente achou que era actor…
- Logo no conservatório, confesso. Ouvia: ‘És bestial, és óptimo’. Para o exame do conservatório escolhi uma farsa, normalmente ia tudo para o drama. E o Ribeirinho disse-me: ‘Fizeste bem, fizeste bem’. E ele dava-nos broncas todos os dias: ‘Esses pés! Esses pés! Essas mãos!’
Era então espectador de teatro, de cinema?
- Sim, mas já não me lembro do quê. Foi há 42 anos. Logo a seguir veio a ‘nouvelle vague’, que nós vimos todos com um ar intelectual, mas não percebíamos nada. Via o Totó, o maior comediante de todos os tempos.
Na comédia fez coisas mirabolantes. Por exemplo, o travesti da Vera Lagoa.
- Exactamente. E a Golda Meir. Fiz vários. Eu odeio fazer travestis porque tenho de me pintar, de vestir ‘collants’. Mas fiz tantos, que ainda hoje ponho baton e faço risco nos olhos tranquilamente.
Sem espelho?
- Quase. Para pintar a boca não preciso de espelho. Fiz uma coisa com o Ribeirinho que era ‘Três Mastronças num cabeleireiro’. Houve poucas revistas em que não fiz travestis. As pessoas achavam que eu tinha jeito.
E não é uma coisa fácil de se fazer…
- Não é fácil, não. Uma coisa é fazer um travesti, outra uma bicha, é completamente diferente. E bichas!!! Fiz não sei quantas. Fiz uma celebérrima, numa peça chamada ‘Morra agora e pague depois’, era um fotógrafo de moda. Fiz muitos travestis e bichas, mas não me dão especial prazer.
É mais difícil fazer rir?
- É, muito mais do que fazer chorar. Como dizia já não sei quem - isto, quando se tem a minha idade começa-se a citar os outros - com uma cebola toda a gente chora e não há nenhum legume que faça rir. É muito difícil fazer comédia, é preciso perceber o público que tem. O actor é como um toureiro, quando entra tem de saber que toiro tem pela frente, para saber como o vai tourear.
Como é que reage ao humor, por exemplo, do Gato Fedorento?
- Eu gosto do Gato Fedorento, mas não gosto de tudo. Já o disse ao Ricardo Araújo Pereira. Há coisas que se fazem hoje, consideradas grandes achados, e que já se fazia há 40 anos. O non sense aparece no teatro com o Ionescu, não é uma invenção de agora.
Acha que hoje em dia há a tentação da piada fácil?
- Eu não sou a madre Teresa de Calcutá, não sou puritano e falo muito mal.
Diz muitos palavrões?
- Digo imensos. Agora ir fazer comédia e dizê-los por dizer, acho que não vale a pena. O palavrão pode ter graça se inserido em determinado contexto. Há estados de espírito que só podem ser traduzidos por um palavrão. Agora chorrilho de palavrões, não tem graça.
Como é que se transmite dor?
- Se calhar sentindo dor.
Aquelas actrizes de Hollywood que dizem que andam a viver com a personagem…
- … é tudo mentira. Como diz o Lawrence Olivier: ‘ I’m an actor, i just pretend’. É como aquela história com Olivier e o Dustin Hoffman. Eles estavam a fazer o Marathon Man e havia uma cena em que corriam. O director disse corta. Eles sentaram-se e o Hoffman pediu que o avisassem quando recomeçassem a filmar para uns minutos antes recomeçar a correr para ter um ar ofegante. Então enquanto o Hoffman corria, o Olivier lia tranquilamente um livro. Quando lhe perguntaram se não queria correr também, ele deu a tal resposta: Eu sou actor, eu só finjo.
Um actor é essencialmente um fingidor.
- Claro, se não matavam-se pessoas no palco, fazia-se amor com as pessoas no palco. Quando saíamos de cena estávamos apaixonados por aquela rapariga e com um ódio de morte àquele gajo. Por amor de Deus, isso não cabe na cabeça a ninguém.
Mas não é fácil criar grandes empatias com actrizes, por exemplo?
- Eu nunca fiz muitos papéis de galã romântico. Nunca tive empatia com uma actriz por fazer uma peça ou um filme com ela. Tive poucas cenas mais ou menos escaldantes, com envolvimento físico. Fiz algumas e nunca fiquei… É uma coisa tão programada… Não sei. Digo sempre não sei, porque nunca fiz uma cena de cama, de sexo. Não sei se me apeteceria fazer. Há coisas em que sou muito despudorado, noutras muito pudibundo. Não sei se sentiria alguma coisa, acho que é difícil sentir com 30 técnicos à volta, câmaras, luzes, corta. Deve ser castrador. Eu não conseguia mas se calhar há quem consiga. Até se fazem filmes porno...
Sempre que fala de actuar, fala de câmaras, de cinema.
- Tenho pelo cinema uma predilecção especial. Vou realizar um filme. Chama-se ‘Requiem por um D. Quixote’. É uma história policial do Dinis Machado que tem a ver com ética e com moral e mete um assassínio. Começo a filmar lá para Março do ano que vem.
A personagem principal é um homem?
- Sim, mas eu só vou realizar. Se bem que há lá um papel que gostava de interpretar - um capo da máfia, faz uma cena e é morto.
Imagina quem poderá ser o actor para o papel principal?
- Não. A personagem tem nuances complicadas, uma deles é que se trata de um americano. Gostaria que fosse um actor americano, mesmo.
Como é que um realizador português vai buscar um actor americano?
- Por que não? Eles são mais que nós? Só fazem mais filmes, têm mais dinheiro, apaparicam os seus actores.
Mas quem é que poderia ver no papel?
- Não sei. A personagem tem 40 e tal anos, logo não é um galã desses que há por aí.
Em relação a esta peça, interpreta três homens diferentes, da comédia ao drama. De alguma forma, o percurso da sua carreira.
- É, é um bocado isso. Primeiro o humor depois o drama.
Aos 64 anos está mais virado para o ‘fado’ do que para o ‘corridinho’?
- É verdade. Eu sou fatalista, acredito nos sentimentos, no amor, mas com uma grande descrença no ser humano - onde toca dá sempre disparate. Tocou na religião deu o que deu. Marx teve um ideal espantoso, depois fizeram o que fizeram…
Tem duas filhas pré-adolescentes sendo tão descrente no ser humano…
- Preocupo-me. Mas acredito no instinto de conservação. Quando se tiver percepção de que se caminha para o abismo, pode ser que se pare a tempo.
Qual é a melhor herança que pode deixar às suas filhas?
- Os valores da amizade, do amor, da condescendência, da tolerância. Se lhes deixar isso…
… já cumpriu o seu papel.
- Sim. Eu com elas passo o tempo a fazer disparates, a comentar as pessoas que passam: o chapéu de uma, o cão doutra.
Portanto fazem troça...
- … brincadeira. Brincamos com o senso do ridículo das pessoas.
É maior hoje em dia?
- As pessoas estão cheias de si. Andamos todos cheios de nós e não somos nada. Um dia destes estava no ginásio lá com os pesos e com aqueles gajos todos com 150 quilos de músculos e pensava que tanta força nada pode contra um vírus microscópico. Esta noção de ter é uma coisa enganadora. Nada se é, nada se tem. Um dia morre-se e não se leva nada. Como dizia o meu avó, não há caixões com gavetas. Fica cá tudo.
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