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"A vida valia muito pouco"

Pobres, analfabetos, católicos. Assim eram os portugueses no primeiro ano da Grande Guerra
31 de Março de 2014 às 15:00
Ricardo Marques, de 39 anos, é jornalista
Ricardo Marques, de 39 anos, é jornalista FOTO: Tiago Sousa Dias

Era um país saído de uma revolução republicana, pouco ciente de que em breve mergulharia no inferno das trincheiras. Em ‘1914, Portugal no Ano da Grande Guerra' conta-se a vida quotidiana dos portugueses.

Retrata um país abissalmente diferente do de hoje, mas não teve a sensação de que há muita coisa que não mudou assim tanto?

Essa foi a conclusão mais surpreendente. O objetivo do livro é perceber  - há 100 anos, na eminência de acontecer uma guerra tão terrível - o que é que entretinha as pessoas, o que as preocupava, como era a vida nesses primeiros instantes. É um país com uma diferença abissal a relação a hoje, mas muito do que nos preocupa hoje já era discutido há 100 anos.

 

No Parlamento discutia-se a dívida...

É curioso. Muitas vezes pensamos nos problemas e achamos que é tudo muito grave. Faz-nos falta pensar que já estivemos bem pior e fizemos grandes progressos. Se calhar há problemas que são mesmo uma característica nossa.

 

O livro começa por falar de saúde, ou antes da falta dela...

As condições de vida estavam muito degradadas. Estamos a falar de um país analfabeto, pobre e cuja vida passa toda pelo Porto  e, sobretudo, Lisboa. O resto do país era mesmo paisagem. Lisboa era o sítio onde tudo acontecia, mas era um país muito atrasado.

 

Qual era o papel da mulher?

Era educada para ser boa mãe. As mulheres não votavam. Começa a surgir um discurso de emancipação, mas a verdade é que as mulheres eram criadas, donas de casa, mães de filhos. Mas até para isso havia ciência. Ensinava-se a ser boa mulher e boa mãe.

 

Fala da visita a Portugal de Virgínia Quaresma, uma jornalista portuguesa no Brasil que causou espanto....

Era uma situação impensável em Portugal. Tanto que a visita dela foi tratada como um acontecimento insólito, como era possível uma mulher emancipada ser jornalista no Brasil? Era uma ave-rara, um coisa exótica que vem à Europa estudar os países e depois regressa ao Brasil.

 

Fala-se de educação, que era uma das bandeiras da República. Houve progressos?

Estamos a falar de 1914. O regime tem apenas quatro anos, as coisas estão muito pouco consolidadas. Tudo é uma necessidade de afirmação da República, seja a educação, a separação do Estado e da Igreja, os grandes desígnios que tanto podiam ser o turismo como a agricultura, tudo servia para se tentar mobilizar o país. A educação é uma grande aposta, como é o culto da árvore. São marcas de um regime que está na fase decisiva. Politicamente vivia-se uma estável instabilidade, como sempre aconteceu até 1926. O regime era como uma criança que dá os primeiros passos, de forma muito atabalhoada.

 

O Estado dizia-se laico. Mas conseguia-se resistir ao catolicismo da esmagadora maioria dos portugueses?

É engraçado porque as mesmas pessoas que defendem o laicismo depois participam em romarias e vão à missa. É um país completamente desfasado desse radicalismo que se adotou com a separação entre o Estado e a Igreja. Multidões saíram à rua para ver o regresso dos bispos que tinham sido afastados, no Porto e Lisboa. Até se mandaram rezar missas pelo rei -era uma coisa terrível mas fazia-se. Há coisas que não se podem acabar por decreto.

 

Também os pobres não se acabavam por decreto. Como funcionavam as esmolas?

A esmola era uma instituição. Hoje olhamos para isso como uma coisa estranha, essa prática de dar esmola e mandar publicar o nome dos que se ajudam no jornal. Mas por outro lado a esmola era importante e muita gente era ajudada assim. Era uma estrutura informal de apoio que dependia da boa vontade dos patronos. Os testamentos incluíam esmola para os pobres, as famílias tinham os seus pobres, os jornais tinham os seus pobres. Era uma rede eficaz.

 

E que problema era esse com as criadas?

A noção que hoje temos do politicamente correto, do cuidado com a forma como se fala e como se olha para as pessoas não existia em 1914. As criadas, como diz uma senhora, eram uma classe à parte. Viviam no seu mundo e era muito difícil encontrar boas criadas. Havia muitos casos de roubos, era um escândalo.

 

O ano é marcado pela violência nas ruas, sobretudo no caso da greve dos ferroviários...

A luta dos ferroviários foi a mais intensa e violenta. Houve atos de sabotagem à bomba, tiros, intervenção da Guarda. Foi uma greve muito violenta, que aconteceu no início do ano, mas depois o resto de 2014 até foi pacífico. Era uma sociedade muito violenta, não só pela questão das lutas laborais, como pelo próprio crime.

 

O que o surpreendeu nos crimes que se praticavam?

Todo o crime era inacreditável. A vida valia muito pouco, matava-se por tudo e por nada. Uma discussão acabava com facadas e tiros. Era impressionante a quantidade de armas, parecia que toda a gente andava armada. Nos hospitais entravam diariamente uma quantidade enorme de feridos a tiro e à facada.

 

Os ricos resolviam a coisa mais civilizadamente...

Faziam-se duelos. Embora se note que o governo faz um esforço para acabar com estas práticas. Os duelos eram uma coisa engraçadíssima. Faziam-se ali na Estrada da Ameixoeira, sempre perante testemunhas. Era um ritual de cavalheiros, havia um médico para cada um e testemunhas. O ritual do duelo implicava uma troca de correspondência. Eram as testemunhas que faziam o desafio e oferecia-se a hipótese de o ofensor se retratar. Ou então partia-se para o combate de sabre, que acabava quando um dos adversários ficasse incapacitado e ambios ficassem contentes com o resultado. Não se combatia até à morte.

 

O que era a fofa?

Era uma dança portuguesa que surgiu com o tango. O tango era uma coisa muito mal vista, a igreja era muito crítica e a fofa foi uma das respostas que surgiram. Veio nas páginas da ‘Ilustração Portugueza', que enaltecia a dança portuguesa "não imoral". Havia menos contacto

 

Nota que já existia o gosto de ira à praia...

Sim, havia uma espécie de crónicas que chegavam da praia, sobretudo do Algarve, em que se dava conta de quem está, quem não está, quem chegou. As pessoas iam de féria muito tarde, no fim de Agosto, início de Setembro. Era todo um país que existia com o se fosse uma bolha, as pessoas juntavam-se, faziam as festas, as senhoras jogavam às cartas na sala das senhoras, os senhores na sala dos senhores - e quando não é assim torna-se uma coisa discutidíssima. É um país estranho que contrasta com a miséria geral.

 

Que noção tinham as pessoas em 1914 dos perigos da Guerra?

As pessoas não se preocupavam com isso até aos acontecimentos de Sarajevo. Claro que se falava da questão de as grandes potências se estarem a armar, mas havia ali aquele frágil equilíbrio do sistema de alianças. Quando se dá o atentado de Sarajevo, em que morre o Arquiduque Francisco Fernando, há uns dias em que é como se nada tivesse acontecido. Quando se começa a perceber o que se passa, Há um efeito de dominó, começa tudo a cair e a Europa entra numa guerra que ninguém tem ideia de como vai acabar.

 

Mas os portugueses perceberam que Portugal ia estar nessa guerra?

Creio que por uma questão de afirmação do regime republicano, há uma colagem muito rápida à Inglaterra. Não entramos em Guerra, o que só acontece em 1916. Mas rapidamente, logo em 1914, enviamos militares para Angola e Moçambique. O que nos preocupa é preservar a integridade dos nossos territórios ultramarinos, porque se cria que eram muito cobiçados, quer por ingleses quer por alemães.  Entramos em combate com os alemães em Angola, há tiros e pessoas que morrem, mas não há ainda declaração de guerra. Na frente europeia estamos ao lado de Inglaterra e em África vamos tentar guardar o que é nosso. Nos anos seguintes vamos perceber que o conhecimento que tínhamos dos territórios era mínimo. Não sabíamos o que lá estava. As primeiras comissões que chegam a Moçambique morrem de doenças sem ter dado um tiro. Nem se conhecia o clima. Vamos conhecendo as colónias à medida que entramos no mato, é a guerra que nos obriga a conhecer o que era nosso, com um custo enorme.

 

Era um país de apenas 3500 carros, mas havia muitos acidentes...

Acelerava-se bastante, havia muita gente atropelada. As ruas que eram ocupadas por pessoas, cavalos, carroças e, nalguns casos, elétricos são tomadas por uma nova máquina que ninguém tem bem noção de como funciona. Não se sabia qual a velocidade, como aquilo travava, a máquina matava muito. O carro era um luxo, os homens que os conduziam eram os ‘sportsman', gente endinheirada que levava uma vida santa., feita de carros, esgrima, equitação, festas, uma categoria muito interessante. Começaram a aparecer algumas ligações de carreiras entre algumas cidades do país, mas ter um carro era uma excentricidade. As estradas eram más, nem se conseguia chegar ao algarve. O comboio era o meio de transporte.

 

No Parlamento não era raro haver cenas de cacetada...

...e da boa, com armas, murros, pancadaria. A oratória era muito interessante, muito mordaz e descambava em cenas de violência. Lá está, o regime só tinha quatro anos, se calhar ainda se pensava que tudo era possível. A luta política, apesar de ser muito pragmática tinha muito de ideal. Achava-se que todos os problemas podiam ser resolvidos. Havia esperança. A própria revolução continha em si essa esperança de que as coisas podiam mudar. A realidade ainda não tinha chegado com muita força.

 

Bernardino Machado, que era na altura embaixador no Brasil, é chamado ao Governo. Precisava-se de um salvador?

Ele chegou como o Messias, que veio de barco para resolver tudo. A viagem é quase uma via-sacra, por onde ele passa há um cerimonial. Vem resolver todos os problemas da pátria, mas o governo nem chegou ao fim do ano. Mas uma queda de um governo não era como a queda de um governo de hoje. Vinha outro a seguir.

 

A imprensa era muito mais variada do que nos tempos de hoje...

Havia muitos jornais e revistas. Cada terrinha tinha o seu jornal, havia folhas de uma só página a circular. Não havia muitos leitores mas os que existiam consumiam muito. Os jornais eram o espaço público por excelência, para além dos cafés. Quantos desses duelos de que falámos não nasceram de artigos de jornal. Já havia telefone, mas a sua expansão era reduzida.

 

Como foi o trabalho de pesquisa?

Passei por alfarrabistas, bibliotecas, arquivos, foram meses intensos. Houve um aspeto angustiante, a ideia de contar como foi um ano parecia simples, mas é um risco imenso porque há sempre alguma coisa que vai ficar de fora. Procurei cruzar a informação, ler a mesma coisa em dois ou três sítios, acompanhar as histórias nos jornais ao longo da semana. Foi uma trabalheira.

 

Destas histórias investigou alguma para saber o que tinha acontecido nos anos seguintes?

Não. Por princípio não quis fazer isso, senão o trabalho tornava-se completamente improdutivo. Há no livro muitas histórias que por si só valem investigações para os anos seguintes. Não o fiz porque se o fizesse nunca teria acabado o livro. Não saí do que se sabia em Portugal entre Janeiro e Dezembro de 1914, decidi contar as coisas como se estivesse lá.

 

O que encontrou nos hábitos dos portugueses de 1914 que se mantém nos dias de hoje?

Há uma imagem engraçada, todos os dias havia trabalhadores desempregados que iam ao Governo Civil pedir emprego. Essa ideia de nós encaramos o Estado e a coisa pública como uma forma de resolver os problemas ainda se mantém. Não discuto se isso é bom ou mau mas o facto é que se mantém.

 

Quando se lê os argumentos que se usavam no debate político de 1914, não teve a ideia de que afinal só passaram cinco minutos?

Sim, e isso é angustiante. O que eu retiro daí é que não vale a pena dramatizar. Há 100 anos, no final de Março ninguém sabia o que ia acontecer. Veio uma guerra, e depois outra e um século XX de uma violência extrema e afinal estamos cá. Olhámos para trás e dizemos que isto nunca mais pode acontecer, mas há 100 anos não se sabia que ia começar. Temos de ter consciência de que há muito pouco que é novo. As instituições mudam, as pessoas mudam, mas as coisas tendem a repetir-se.  Não é a minha ideia preferida, essa de que tudo se repete na história, mas o passado é interessante por isso. Ajuda-nos a perceber que as pessoas tendem a voltar a fazer as mesmas coisas porque têm os mesmos objetivos.

 

Depois de ter passado tanto tempo a estudar o ano de 1914, sentiu alguma vontade de viver nesta época?

Não, de todo. É bom para ir lá visitar, mas não morava lá. E isso é o melhor elogio que podemos fazer a nós próprio, andámos muito nestes 100 anos. Tendemos sempre a olhar para os que fazem melhor, o que nos faz sentir pior. Olhas para 1914 e pensas, não estamos nada mal, mas se olhares para a Suécia em 2012 se calhar estamos mal.

 

É uma questão de baixa autoestima?

Não sei se é isso. Somos tal e qual como somos, ao ponto de dizermos que não temos autoestima. Ou se calhar foi porque ouvimos dizer isso. Somos o europeu que passa metade da história a fugir da Europa e depois quer ser da Europa. Somos ambivalentes. Encurralados pela Espanha, fugimos para o mar, mas o que é que isso faz de nós? Mas não somos assim tão especiais, não há nada que aconteça aqui que não aconteça noutro países.

Ricardo Marques entrevista livro 1914 portugal no ano da grande guerra
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