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Correio da Manhã

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A voz

“Concentra-se nele, toma nota de todos os seus traços, memoriza-o”
Tiago Rebelo 5 de Fevereiro de 2012 às 00:00
O homem estátua
O homem estátua

Passados tantos anos, é difícil explicar aos mais novos porque só conhecia dele a voz. Mas nessa época ainda não havia telemóvel, nem CD, nem tablets, e, sobretudo, não havia internet. De modo que não tinha como conhecer-lhe o rosto. Não podia ligar-se à net e fazer uma busca, porque nem sequer havia PC. Havia a voz dele, só a voz, que ouvia todas as noites. Ela entra numa discoteca e põe-se a remexer os álbuns de vinil no expositor à procura de uma música que escutou na véspera.

Quando descobre o disco que lhe interessa dirige-se ao balcão, onde o empregado da loja atende um cliente habitual. Percebe que é um frequentador da loja pela familiaridade com que falam um com o outro. Ao vê-lo não o reconhece, pois a sua cara não lhe diz nada e mesmo a sua voz, ligada a uma pessoa real, ali ao seu lado, em nada lhe desperta a atenção. Mas ao baixar os olhos para apreciar a capa do álbum a voz dele já lhe soa familiar, como se estivesse a ouvir uma pessoa de sempre e a reconhecesse pelo timbre das cordas vocais. No caso dele é uma voz grave, sedutora. Ela ergue a cabeça, olha para o lado, dá-lhe mais atenção, perguntando-se se estará a sonhar ou se será mesmo ele.

Concentra-se nele, toma nota de todos os seus traços, memoriza-o na ânsia de não se esquecer, caso volte a encontrá-lo noutra ocasião. Na realidade, não fica muito impressionada com a sua cara, que não corresponde à voz. Ela tinha a certeza que ele era outro, diferente deste. Pensava nele alto e tão elegante como a sua voz. É impossível que seja o mesmo, e no entanto só pode ser.

Quando ele sai com um aceno jovial ao empregado, ignorando-a, ela pergunta ao outro se ele é mesmo ele. O empregado confirma que sim, é ele.

Muitos anos mais tarde ela é contratada para directora da rádio e nessa altura já inventaram o computador, o Facebook, ele tornou-se famoso pela televisão, é capaz de o reconhecer em qualquer lado. De qualquer modo, são formalmente apresentados e ela sente-se tentada a contar--lhe a sua história, mas percebe a tempo que fará uma figura ridícula e agora, sendo sua superior, deve manter uma distância prudente.

De forma que fora apaixonada por aquele estranho, imaginando-o pela voz quando ouvia o seu programa na rádio e depois de o conhecer sem chegar a conhecer, na discoteca, a fantasia dissolvera-se com a realidade e ele passara a ser só um homem, real e desinteressante. E mesmo agora, conhecendo-o de facto, acha-o afável, gosta dele, é um tipo baixo, já a perder cabelo, um bom conversador, que sabe cativar com a sua eloquência, mas ainda assim ela não lhe encontra nada que a deslumbre.

Tiago Rebelo
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