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A voz do mostrengo nasceu há 100 anos

Imortalizado pela poesia, João Villaret foi uma figura do teatro português e ainda fez cinema, numa vida cheia de apenas 47 anos.
5 de Maio de 2013 às 15:00
Teatro, revista, cinema e poesia preencheram a carreira de João Villaret
Teatro, revista, cinema e poesia preencheram a carreira de João Villaret FOTO: Arquivo do Museu Nacional do Teatro

O cabelo completamente branco de João Villaret na hora da sua última despedida foi encarado pela maioria daqueles que acorreram à Basílica da Estrela, de onde o cortejo fúnebre partiu para o Cemitério dos Prazeres, como a natural consequência da infeção generalizada que matou um dos artistas mais completos de Portugal, cujo centenário será celebrado na sexta-feira. Na madrugada de 21 de janeiro de 1961, a última de uma vida preenchida, ele tinha apenas 47 anos.

Embora o seu estado de saúde tenha piorado nos últimos meses de vida, ao ponto de impedir que estreasse ‘Ratoeira’, aquela que deveria ser a sua última peça de teatro, a cor dos cabelos do homem que todos os domingos levava poesia aos telespectadores da RTP tinha outra explicação, avançada no livro ‘João Villaret – Sua Vida... Sua Arte’, de Mário Baptista Pereira. Desafiado pelo realizador Augusto Fraga a interpretar um fidalgo septuagenário na longa-metragem ‘Raça’, ordenou que lhe aplicassem a tinta necessária para tentar somar esse papel a uma carreira cinematográfica que nunca se comparou à que teve enquanto ator de teatro e declamador de poesia.

A voz ao mostrengo nos mais conhecidos versos da ‘Mensagem’ de Fernando Pessoa – aqueles em o homem atado ao leme por vontade de D. João II ouve a pergunta "Quem é que ousou entrar/Nas minhas cavernas que não desvendo/Meus tectos negros do fim do mundo?" – nasceu em Lisboa, bem perto do Tejo, na Rua da Boavista. O pai, médico e músico amador, morreu quando tinha oito anos, deixando-o com a mãe, Josefina, e os irmãos José, Carlos e Henrique. Mais tarde confessaria ter ficado a olhar para o pai morto muito tempo, "talvez a noite inteira".

Muito cedo João demonstrou interesse pelas artes, contando com o incentivo da mãe, por quem nutria absoluta adoração. E enfrentando a mais feroz de todas as críticas no colégio em que estudava, pois foi excluído de uma peça por uma professora que lhe apontou falta de talento. Nunca mais tais palavras ouviria, apesar de as notas no Conservatório terem sido más, e a 16 de outubro de 1931 fez a estreia no Teatro Nacional Almeida Garrett (hoje em dia D. Maria II), com a peça ‘Leonor Teles’, de Marcelino Mesquita.

MORDAZ COMEDIANTE

Integrar a companhia de Robles Monteiro e Amélia Rey Colaço valeu-lhe participações em dezenas de peças, incluindo ‘A Ceia dos Cardeais’ – a que regressaria várias vezes, e em diversos papéis –, ‘Frei Luís de Sousa’ e ‘Amor de Perdição’, mas em 1944 juntou-se aos Comediantes de Lisboa.

No ano seguinte chegou à companhia fundada por António Lopes Ribeiro (realizador de ‘O Pai Tirano’) e pelo seu irmão Ribeirinho a jovem Carmen Dolores, que recorda "um homem brilhante, muito irónico e por vezes mordaz nas suas críticas". Tanto assim que a atriz de 20 anos, com experiência na rádio e um papel de protagonista no cinema (fora a Teresa de Albuquerque em ‘Amor de Perdição’, estreado em 1943), admite ter-se "assustado um bocadinho" com o colega de palco no Teatro da Trindade.


"Se calhar tinha receio que ele fizesse alguma troça de mim. Estou a dizer-lhe isto com o coração nas mãos, à distância destes anos, porque nunca pensei nisto a fundo", disse a atriz, de 89 anos, sobre um dos seus cinco tios (os outros eram António Silva, Ribeirinho, Assis Pacheco e José Amaro) na peça ‘Cinco Judeus Alemães’. Mas a verdade é que Carmen Dolores lembra, no livro ‘No Palco da Memória’, que Villaret chegou a dizer-lhe que "dava uma boa ‘Dama das Camélias’", numa peça que acabaria por ser feita com Maria Lalande, outra das (muitas) estrelas da companhia.

ESCASSOS FILMES

Carmen Dolores reencontraria João Villaret na rodagem de ‘Três Espelhos’, na única vez em que o homem que se referia ao teatro "como se fosse a minha própria casa" protagonizou um filme. Na longa-metragem do húngaro Ladislao Vajda, estreada em 1947, ele era o inspetor ‘Moisés’, a quem cabia descobrir o culpado de um homicídio entre um elenco que incluía o espanhol Rafael Durán e a italiana Paola Barbara.

"Teve então o seu grande papel de cinema, porque foi o mais importante que lhe deram. Era brilhante", sublinha a atriz, destacando ainda as participações em ‘Frei Luís de Sousa’, ‘O Primo Basílio’, ‘Camões’ (era o rei D. João III) e ‘A Garça e a Serpente’. Também Carmen Dolores entrou nos dois últimos filmes, sem fazer qualquer cena em que estivesse presente "um ator que acreditava em si próprio, com uma presença que se impunha".

POR MARES NAVEGADOS

Capaz de conciliar recitais de poesia e teatro de revista, Villaret não hesitou quando lhe deram a oportunidade de procurar plateias no além-mar. Partiu a 17 de agosto de 1948 para o Rio de Janeiro, a bordo de um avião fretado pela Companhia de Revistas e Operetas do Variedades, e quatro dias depois já estreava ‘Alto Lá com o Charuto’. Regressou em fevereiro do ano seguinte, desta vez a atravessar o Atlântico no paquete ‘Brasil’, e não mais perdeu o gosto pelas digressões. Nesse ano levaria teatro e poesia aos Açores e à Madeira, passando o Réveillon novamente no Brasil, onde teve um programa semanal de televisão que lhe permitiu entrevistar Amália Rodrigues.

Um novo retorno a Portugal, no paquete ‘Serpa Pinto’, no qual seguia o almirante Gago Coutinho, foi efémero, pois não passou um trimestre até aceitar o convite do Ministério do Ultramar para levar a sua arte a Angola e Moçambique, em 1950, com uma incursão a Leopoldville (atual Kinshasa), no que era então o Congo Belga. "Tenho os pés pequenos para o meu corpo", queixou-se, na viagem de barco para Lourenço Marques, sem poder adivinhar que a sua morte precoce estaria relacionada com essa parte do corpo e esse mesmo continente.

Lisboa recebeu-o de braços abertos em 1951 e ele retribuiu com o regresso ao teatro. A peça chamava-se ‘Está Lá Fora um Inspector’ e no Teatro Avenida contracenou com um jovem que pertencia a uma família ligada aos palcos. "O meu personagem cometia um crime e eu tinha um monólogo de confissão. Estava a ensaiar e ele pediu-me para dizer as palavras. No final, observou: ‘Está muito bem, mas mudas isto e aquilo.’ No final, mudou quase tudo", recorda Ruy de Carvalho, de 86 anos, mais de seis décadas depois.


Villaret era, mais uma vez, o inspetor, enquanto Maria Lalande, Assis Pacheco e Igrejas Caeiro completavam o elenco. "Ele fazia o favor de ser meu amigo e eu tinha uma grande admiração por ele enquanto artista", lembra Ruy de Carvalho, que ainda hoje lamenta o preconceito com que João era brindado por "algumas pessoas a quem ele fazia bem e que nem mereciam", devido à sua orientação: "Ele era homossexual, nunca o escondeu e tinha a coragem de o dizer."

O SEU PÉ DIREITO 

Do Brasil trouxe ‘Esta Noite Choveu Prata’, peça escrita por Pedro Bloch, em que fascinava o público com sucessivas metamorfoses. A estreia foi no Teatro Avenida, em Lisboa, onde ouviu a dama dos palcos Palmira Bastos dizer-lhe, no camarim: "Você excedeu tudo quanto eu tinha pensado acerca das suas reais possibilidades".

Mas também foi essa peça, que "deixou marca" em quem a viu, como Carmen Dolores, e teve Ruy de Carvalho a fazer trabalho de bastidores, que ficou associada à sua desgraça. Em 1957 aceitou o convite de um empresário argentino para levar ‘Esta Noite Choveu Prata’ a Buenos Aires. Ninguém o esperava no cais, o que encarou como mau presságio, confirmado na estreia, pouco concorrida, em que escorregou e tombou no fosso da orquestra.

"Não tive público! Em Lisboa já se sabe disto e a minha carreira terminou!", desabafou com o inseparável secretário Henrique Vidal, que não sossegou até lhe arranjar um contrato no Brasil. Já no final de 1957 estava a terminar uma representação em Coruche quando soube que a mãe, Josefina, tinha morrido. E foi ainda na terceira e última digressão colonial, em 1958, que pediu a um barbeiro de Nova Lisboa (Huambo) que lhe cortasse um calo no pé direito. Avisou que era diabético, mas um corte infetou e a maleita foi alastrando, por falta de cuidado.

Ainda estava a tempo de dizer poemas ao domingo na RTP, chamando a atenção de um jovem que seguia o seu programa. "Houve um grupo de pessoas que me levaram a gostar muito de poesia. João Villaret está entre esse grupo de notáveis que me motivaram", garante Vítor de Sousa, um dos maiores ‘dizedores’ portugueses, que ainda se lembra das sessões à hora de almoço no cinema São Jorge, com a voz gravada do falecido a encher uma sala que só tinha uma luz a incidir sobre o palco.

"Sei que saio, como sei que não voltou", disse Villaret ao ser levado da sua casa de sempre, no primeiro dia de 1961. Foi no Hospital da CUF que esperou um desfecho garantido, que hoje seria evitado com hemodiálise. Não sem antes sair do coma, na véspera da morte, para deixar uma garantia ao amigo Vasco Morgado: "Ainda vamos fazer grandes espetáculos!".


RECORDADO PELA SPA E PELA RTP MEMÓRIA

O centenário de João Villaret não irá passar despercebido, apesar de a faceta de declamador de poesia ser praticamente a única que o tem mantido na memória dos portugueses. Na próxima sexta-feira, 10 de maio, a RTP Memória vai fazer uma programação especial, com excertos do seu programa de poesia a passarem ao longo do dia, enquanto Carmen Dolores, que com ele trabalhou no teatro e no cinema, estará com a jornalista Maria João Gama no programa ‘Há Conversa’, que passa às 19h15. Nesse espaço serão apresentadas imagens das digressões do artista português pelo Brasil.

Também na Sociedade Portuguesa de Autores estará patente uma exposição sobre a obra de João Villaret, em colaboração com o Museu Nacional do Teatro, mostrando parte do seu espólio. "É um artista que faz falta e hoje tenho pena que muita gente não se lembre de que ele existiu", refere Ruy de Carvalho.

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