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A zombificação da minha pessoa

“Eu suporto tudo nesta vida de pai: birras olímpicas, acidentes escatológicos, carnes esfaceladas”
14 de Outubro de 2012 às 15:00
A zombificação da minha pessoa
A zombificação da minha pessoa FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

A Rita é definitivamente uma querida mas eu estou definitivamente a ficar velho. O resultado de juntar a primeira parte da frase com a segunda é que apesar de a Ritinha estar a ser uma bebé muito mais calma, e mais querida, e mais simpática do que os seus irmãos alguma vez foram quando tinham a sua idade, nem assim me safo de parecer um zombie narcoléptico. Bastou ter voltado a acordar duas ou três vezes por noite para os meus níveis de produtividade terem caído para um nível tal que receio vir brevemente a ser intervencionado pela troika.

Eu suporto tudo nesta vida de pai: birras olímpicas, acidentes escatológicos, carnes esfaceladas, comportamentos impróprios. Suporto tudo, menos não dormir. Quer dizer, nem sequer é bem não dormir ou dormir pouco – é a maneira como somos consecutivamente acordados ao longo da noite. Se eu dormir cinco horas de seguida, não fico fresco como uma alface, mas consigo computar pensamentos e executar certas acções. Mas se eu dormir cinco horas aos solavancos, a ser acordado a cada hora por cólicas, pesadelos ou desejos lácteos, a minha cabeça fica com mais buracos do que as contas do Estado e o meu humor pior do que o de um muçulmano depois de ver o vídeo de Maomé.

E por isso, dormir mal todos os dias tem a consequência triste de arrastar o ambiente familiar para o lodo, porque a minha paciência fica com a espessura do papel vegetal. Se o Gui está a comer e deixa cair arroz para a roupa, apetece--me rachar-lhe o prato na cabeça. Se o Tomás fala mais alto do que é suposto, sinto o desejo intenso de o amordaçar com as suas próprias meias. Se a Carolina dá um carolo num dos irmãos, fico com uma vontade incontrolável de a pendurar pelas orelhas no estendal da cozinha. Em suma, quando não durmo torno-me num homem e num pai encantador.

E num marido espectacular, claro. Se um tipo tem vontade de amolgar a penca dos próprios filhos, imaginem as torturas que está disposto a infligir à sua mulher só porque um livro, uma escova de dentes ou um par de calças desapareceu do sítio onde repousava pacificamente – coisa que está sempre a acontecer nesta casa, utilizando como desculpa o verbo "arrumar". Em suma, se um dia destes vir um tipo de barbas aos gritos pelas ruas de Lisboa e quatro filhos e uma mãe a fugirem à sua frente, já sabe do que se trata. Sou eu. Cheio de soninho.

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