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Correio da Manhã

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A grande festa

‘A Noite Mais Longa’ faz o filme da festa que levou famosos ao Estoril enquanto Salazar estava internado.
Francisco José Viegas 2 de Novembro de 2014 às 12:00

Foi uma noite tão peculiar que, por volta das quatro da madrugada, António de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho, pergunta ao contra-almirante Américo Thomaz, Presidente da República, se a "festa Patiño" estava a correr bem. A essa hora, de facto, no Estoril, em casa do milionário boliviano Antenor Patiño estavam Zsa Zsa Gabor, Hepburn, Lolobrigida, o mundo chique de Lisboa; era "o baile do século", um desfile de gente rica ou apenas poderosa. Salazar sabia que as filhas de Américo Thomaz tinham sido convidadas – e queria saber. O Presidente do Conselho estava deitado numa cama do Hospital da Cruz Vermelha, o Presidente da República estaria sentado ao seu lado. O primeiro aguardava para ser operado; o segundo, como de costume, aguardava que tudo passasse. Este é apenas um dos episódios que marcam a noite histórica de 6 para 7 de setembro de 1968 e que mudou Portugal – mesmo que nenhum dos seus protagonistas o soubesse, aquelas 13 horas foram fatais para o regime e para o País.

Elas têm início às 20 horas do dia 6, quando Salazar inicia a viagem que o levaria ao hospital – e só terminariam às 9 da manhã de dia 7, quando Pedro Moutinho, aos microfones da Emissora Nacional, anuncia que Salazar tinha sido "operado esta noite a um hematoma", na sequência "de uma queda na sua residência de verão, no Estoril". A seu lado, estava Paulo Rodrigues, subsecretário de Estado da Presidência, que retirara do comunicado a expressão "hematoma intracraniano" (a outra correção é de Thomaz: "noite" em vez de "madrugada").

O LIVRO DA FESTA

Estas 13 horas estão descritas no novo livro de Miguel Pinheiro, ‘A Noite Mais Longa’ – uma notável reconstituição, tão completa quanto informada, cheia de pormenores, incidências, segredos revelados, coincidências entre os reflexos de comédia (a maior, claro, é a realização da "festa Patiño" nessa mesma noite) e de pavor (a reação do regime e dos seus órgãos à necessidade de operar Salazar). Miguel Pinheiro estabelece o cenário e a data correta da queda de Salazar no Estoril – a 1 de agosto (e não a 4 ou 5, como era admitido), quando se preparava para uma sessão com o seu calista. Pelo meio, personagens seguros (Anselmo Costa Freitas, o secretário de Salazar) e cenas quase cómicas: por volta das cinco da tarde, o ministro de Estado e da Presidência, Mota Veiga, pede uma audiência urgente a Thomaz (para o informar), mas em Belém ninguém sabe onde anda o Presidente – estava em almoço e cavaqueira conspiratória num restaurante do Guincho, e só aceitou a audiência para as 22h00.

Francisco Balsemão é uma dessas figuras do conjunto de coincidências: sai da festa Patiño, vai para a casa, em Cascais, mas acaba por seguir para Lisboa tratar da edição do ‘Diário Popular’ (de que era administrador e secretário de direção). Em vez de uma primeira página inteiramente dedicada à noite de Patiño, a manchete é a operação a Salazar – tudo o resto vem no soberbo livro de Miguel Pinheiro. Um relato de filme.

 

Editora: Esfera dos Livros (sai a 7/11) 

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Série TV

‘Segurança Nacional’

Já toda a gente recomendou, não foi? Às quintas-feiras abro exceção no hábito de me deitar cedo – e persigo a história de Carrie Mathison entre o Afeganistão, o Paquistão e Washington, resistindo à tentação de lhe dar bofetadas. Depois da quarta semana pergunto por que razão cada episódio não tem duas horas, mas sigo.

Canal Fox

Horário: Quintas-feiras, 23h00

Livro

‘Passageiro Clandestino’

Leonor Xavier descobriu que "o clandestino assaltou o corpo". O "clandestino" é o cancro – num livro discreto, sem espetáculo nem exibicionismo (longe disso), a autora de ‘O Ano da Travessia’ fala desse combate sem remissão e que nos condena à mais trágica das solidões. "A minha condição é um ínfimo detalhe", escreve.

Autora: Leonor Xavier

Editora: Temas e debates  

 

DVD

‘Os Primeiros Clássicos’

Mais do que "eternidade" (que é uma doença), o Barroco fala sempre de "infinito", que é um prelúdio de disponibilidade. A Orquestra Barroca da Casa da Música vem a Lisboa para que possamos ouvir o cravo de Masaaki Suzuki e a música original de Carl Philipp Emanuel Bach (esse, o filho) e – como suplemento, Haydn.

Local: Igreja de São Roque, Lisboa.

Data:Sexta, 7, 21h00.

 

FUGIR DE:

O caso dos jihadistas portugueses Abdu e Umm

Respetivamente: Fábio e Ângela. Ele queria ser futebolista. Ela queria fazer páginas sobre o Islão na net. Estão naquilo que já foi a Síria, entre a metralha do Estado Islâmico (onde são felizes degolando e cortando mãos aos que bebem cerveja), e a imprensa em geral tem por eles uma curiosidade alarve. Depois da 46ª reportagem sobre o assunto, peço um terramoto no meio do deserto.

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