“A guerra fez mal à minha geração”

Podia ter ficado em Moçambique como civil mas senti-me sozinho.
Por Ana Maria Ribeiro|25.01.15
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“A guerra fez mal à minha geração”
Grupo de combate no quartel de Marara Foto D.R.

Fui para Moçambique com 18 anos trabalhar numa empresa de artigos elétricos. Seis meses depois concorri aos Caminhos de Ferro de Moçambique. Fiz a inspeção militar em Lourenço Marques, atual Maputo. A 14 de janeiro de 1972, com 20 anos, fui para Boane, a 30 quilómetros da capital, para fazer a recruta. Cinco dias depois fazia 21 anos.

Após os três meses da recruta tirei a especialidade em reconhecimento de cavalaria na antiga Vila Pery (Chimoio). Em três meses aprendi tudo sobre carros de combate, as célebres Panhard e as Fox. Ainda estive um mês em Pemba, a antiga Porto Amélia, antes de ser mobilizado para Macomia, palco de guerra no norte de Cabo Delgado.

Aí começou, para mim, a verdadeira guerra colonial. Vivia-se em estado de permanente sobressalto e apesar de não ter muitas razões de queixa, porque nunca fui ferido, o meu grupo detetou minas, teve uma rebentada num Unimog, sofreu uma emboscada no Moja  e teve um ataque à morteirada ao quartel, no Natal de 1972.

Fazíamos patrulhamentos para proteção às colunas civis que transitavam entre Ancuabe e Macomia e entre esta e o Chai. Nisto, apenas há a lamentar os feridos na mina rebentada. Perdi companheiros de luta, sim, mas em acidentes. Em Macomia faleceu Artur Lopes, furriel, ao cair de uma viatura em andamento e, em Tete, o Filipe Alves, também furriel, esmagado quando a Panhard se virou no desaterro à saída da cidade. Eram ambos da minha especialidade. Com ele faleceu também o cabo atirador. Só se salvou o condutor.

ESCREVER UM LIVRO

Passado um ano fui transferido para Marara, no distrito de Tete, que ficava a meia distância entre Tete e a barragem de Cahora Bassa. Em Tete foi pior. Quando cheguei ainda não tínhamos blindados e andávamos a dar o corpo às balas como atiradores de cavalaria. Os carros chegaram passados meses e aí um pelotão de Marara passou a fazer proteção às colunas de Changara para Tete e daqui para Cahora Bassa.

Quando se deu o 25 de Abril estava a fazer proteção num aldeamento de Boroma, onde havia uma missão de padres e freiras italianos. Na altura houve agitação. Tentativas de golpes da Frelimo que nós fomos sempre controlando. Nessa altura, por indicação superior, voltei à base de Marara e, finalmente, para Maputo, em junho de 74, transferido para o esquadrão militar da cidade.

Quando pensávamos que estava tudo a correr bem, deu-se o 7 de Setembro. Para comemorar o Acordo de Lusaka e a transferência de poderes para a Frelimo, os negros da periferia invadiram a cidade com insultos aos brancos. Estes revoltaram-se e ocuparam as instalações do Rádio Clube.

Foi complicado. Começaram as revoltas e os morticínios. Matava-se quem quer que entrasse na cidade e nós tínhamos de andar a proteger as pessoas. Chegámos a andar 40 horas seguidas em cima de uma Panhard a fazer patrulhamentos entre o aeroporto e a cidade. Foi então que começou o êxodo dos lusos.

A 20 de outubro de 74 passei à disponibilidade e voltei a trabalhar nos Caminhos de Ferro, mas sentia-me sozinho e acabei por regressar a Portugal em maio de 1975. No meu livro ‘Vozes no Charco’ recordo a guerra colonial e os malefícios que causou à minha geração.

depoimento de FERNANDO BRITES

Comissão: Moçambique, 1972-1974

Força: Cavalaria

Atualidade: É casado, tem dois filhos. Aos 64 anos, é reformado da Segurança Social

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