Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
3

"A Guiné destruiu a minha vida"

Depois de África, nunca mais fui o mesmo. Soube que os meus pais tinham morrido e tive vários problemas de saúde.
Ana Maria Ribeiro 8 de Março de 2015 às 10:00
Com uma G3, em Fulacunda
Com uma G3, em Fulacunda FOTO: D.R.

Era um menino quando fui mobilizado para a guerra. Tinha 21 ou 22 anos e fazia a minha vida normal, trabalhando como mecânico. A notícia da mobilização veio abalar tudo. Até cheguei a considerar a hipótese de fugir para o estrangeiro, mas meteram-me num barco e mandaram-me para o meio do mato. A mim e à minha companhia: fomos todos destacados para Fulacunda, na Guiné-Bissau, onde passámos meses de pesadelo. Não tínhamos casernas, apenas abrigos, e já nem parecíamos homens, mas toupeiras.

Comíamos muito mal – às vezes sobrevivíamos à base de manga e caju – e todos os dias havia combate. Essa era a única certeza que tínhamos: se, durante o dia, não ouvíssemos um tiro, já sabíamos que a noite seria de luta. Nessa fase, nem sei se matei alguém ou não. Assim que ouvia tiros, pegava na G3 e disparava em todos os sentidos.

Como estava encarregado das viaturas, sentia-me mal, porque a maior parte das mortes que ocorreram durante os meus 18 meses em Fulacunda deveram-se ao rebentamento das minas. As viaturas eram apanhadas e os meus camaradas iam pelo ar. Às tantas, dizia que não tinha peças para reparar os carros, para que eles não tivessem de sair e arriscar a vida. Ali, era preferível fazer 500 quilómetros a pé do que metermo-nos dentro dos carros.

MATARAM-NOS NA VALA

Um dos piores episódios de que tenho memória, e que me deixou profundamente marcado, aconteceu quando foram capturados 30 terroristas. Quer dizer, chamávamos-lhes terroristas mas terroristas éramos nós, que entrámos na casa deles... O capitão mandou que fizessem uma vala e quando estavam lá dentro, com o buraco feito, mandou-os matar. Eles pressentiram o que ia acontecer, mas nada havia a fazer. Foi muito violento e vêm-me as lágrimas aos olhos quando me ponho a pensar nisto.

Ao fim de 18 meses, fui castigado. Andávamos no mato, quando se deu um rebentamento de uma mina, com muitos mortos. Eram cabeças, braços e pernas por todo o lado. Eu e um camarada meu pegámos nos corpos que conseguimos e voltámos para os abrigos, e quando o capitão me disse para voltar e recolher os corpos que restavam, disse-lhe que não iria, de forma alguma. O homem que foi fazer o serviço morreu logo a seguir, noutro rebentamento. Se tivesse obedecido, não estaria a contar esta história.

Então, cumpri uma pena na prisão militar, fui despromovido, tiraram-me as divisas e mandaram-me de castigo para Cuntima, onde passei o tempo que restava da minha comissão com outra companhia, de Estremoz. Foi a melhor coisa que podia ter acontecido. Aí fiquei melhor alojado, com acesso a melhor alimentação, e, acima de tudo, não tive de disparar nem um único tiro. Mas o pior da guerra ainda não tinha passado. Quando regressei à metrópole, dois anos depois de ter partido, soube que os meus pais tinham morrido, com poucos meses de intervalo. Eu era muito chegado aos meus pais, por isso sofri muito quando soube. Depois, vieram as doenças. Tive paludismo e, logo a seguir, várias operações ao estômago e aos intestinos. As águas podres que bebíamos em África deram-me cabo do sistema digestivo e perdi qualidade de vida. É por tudo isso que sou revoltado. A guerra deu cabo da minha vida. Da minha e de toda a mocidade da altura.

JOSÉ PEREIRA

Comissão  

Guiné, 1963-1965

Força  

Companhia de Artilharia 565

Atualidade

Reformado, tem 72 anos. É casado, tem duas filhas e duas netas

Guerra Colonial Guerra do Ultramar A Minha Guerra Ex-combatente José Pereira Angola
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)