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Correio da Manhã

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A ilha das Flores

Descobri a ilha do arquipélago dos Açores, sobre a qual Raúl brandão escreveu – “uma vasta desolação monótona”.
28 de Fevereiro de 2016 às 16:00

MARIA FILOMENA MÓNICA

O arquipélago dos Açores é a única parcela do território nacional onde a natureza e as cidades foram preservadas. Ao longo dos anos, visitei com prazer as suas ilhas: faltava-me uma. Ao descobrir ser o ponto mais ocidental da Europa – não, não é a ilha do Corvo – parti para as Flores. Além da localização geográfica, queria ver as hortênsias, que eu imaginava já estarem em flor, e sobretudo observar os pássaros que só ali existem, como o garajau rosado, o papagaio-do-mar e a galinha-d’água.


A CHEGADA.
Cheguei ao fim de uma tarde luminosa. Antes de subir às montanhas, entrei numa igreja da vila. Os meus olhos ficaram presos a uma menina de ar doce no interior de uma urna de vidro. De mãos postas, com uma capa de veludo roxa, bordada a oiro, tinha a cabeça apoiada numa almofada de renda. A posição, o perfil e os cabelos fizeram-me lembrar a Ophelia pintada por John Everett Millais.

Quis saber quem era, mas no turismo não mo conseguiram dizer. Devia ser "a mãe de Deus", comunicou-me a funcionária, pois fora isso que lhe dissera a sua avó.


Reparei então que, no cimo dos morros, existiam umas colunas altíssimas cujo objectivo me escapava. Um transeunte explicou-me que tinham sido "os franceses", sim, os do hotel onde eu estava alojada, que ali as haviam colocado. Foi então que recordei que, após o trauma de ter sido um parceiro menor durante a II Grande Guerra, de Gaulle pretendera ser independente dos dois blocos – EUA e URSS – para o que congeminara um plano de defesa autónomo. Em 1964, a notícia da autorização dada por Portugal para ali se poderem colocar aqueles "espetos-espiões", bem como a permanência de submarinos em águas portuguesas, foi recebida com agrado nos círculos de Lisboa.


Outra foi a reacção do povo local, apavorado com o que, de início, julgou serem baleias gigantes. Para meu espanto, num local onde há pouquíssimos automóveis, deparei-me com inúmeros sinais de trânsito. Ao subir a montanha, notei as cascadinhas que, nascendo no alto, desembocam no mar. Os regatos são idílicos, mas a charneca, essa "vasta desolação monótona", como a designou Raul Brandão, é agreste. Alem disso, em vez dos pássaros que ambicionava conhecer, só vi coelhos anões. A certa altura, entrei num café, onde estava pendurada uma fotografia de um navio, o ‘Carvalho Araújo’. Na parte debaixo, podia ler-se: "O único meio de comunicação exterior, de mês a mês, desde 1930 a 1956, serviu esta ilha mais de 40 anos". Era o isolamento total. Se ali tivesse nascido – a ilha tem apenas 4000 habitantes – acabaria por enlouquecer. Para umas férias, as Flores são uma delícia; para uma vida, não.

 

+info: A ilha situa-se no grupo ocidental do arquipélago dos Açores. Tem uma área de 141,7 km2, na sua maior parte terreno montanhoso, caracterizado por ravinas e falésias. O ponto mais alto da ilha é o Morro Alto, a 914 metros de altitude. Ali residem

3793 pessoas (2011).

 

ligações aéreas Voos de lisboa e Porto, com escala em Ponta Delgada, Terceira, Pico, Horta ou Santa Maria (ver www.

visitazores.com)

 

MÚSICA

Grande anfiteatro da Fundação Gulbenkian

Conheço um número razoável de salas de música europeias, mas poucas são tão belas quanto este anfiteatro. Gosto das cadeiras cor de mel, da sobriedade das frisas laterais e da visão do arvoredo quando se abre a parede do fundo. A coroar tudo isto, o restauro recente – da autoria da arq. Teresa Nunes da Ponte – é exemplar. programação gulbenkian.pt

 

EXPOSIÇÕES

Museu Nacional de Arte Antiga

Sei, por experiência própria, quão difícil é dinamizar uma instituição nacional. Tendo em conta a inércia ancestral, até julgava ser impossível. O director do MNAA, António Filipe Pimentel, provou- -me não ter razão. Não estou a falar apenas das excelentes exposições que montou, mas da ideia de expor nas ruas cópias dos seus mais famosos quadros.

+info museudearteantiga.pt

 

PATRIMÓNIO

Ermida de N. Sra. da Conceição

Pode passar desapercebida. É um crime, pois trata-se do mais puro exemplar do classicismo italiano em Portugal. Quem siga pela estrada entre a cidade e o Convento de Cristo deparar-se-á com esta igrejinha mandada edificar por D. João III. Pare e admire. Nem sempre é fácil encontrá-la aberta, mas pode solicitar a chave no convento.

local Tomar

 

FUGIR DE 

Ministério da Educação

Desde há décadas que o Ministério da Educação se tornou num covil de alucinados. Depois de Crato, imaginei que se tinha chegado ao ponto zero, mas eis que surgiu um Ministro que, sem tino, aboliu e modificou tudo e mais alguma coisa. A sugestão é simples. O Ministério – reduzido a cinco funcionários – deveria fornecer a cada escola um cheque e os directores, os professores e os pais administrariam as escolas. Pior do que a situação actual, não pode ser.

Escolhas Maria Filomena Mónica
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