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A minha guerra

Estive em Nampula e mesmo sem ter combatido pude ver camaradas feridos, estropiados, mortos.
Ana Maria Ribeiro 8 de Novembro de 2015 às 10:00
Em Bragança, a dar instrução a um pelotão de sapadores
Em Bragança, a dar instrução a um pelotão de sapadores
"Cumpri o serviço militar na Escola Prática de Infantaria em Mafra; no Batalhão Caçadores nº3, em Bragança; na Escola Prática de Engenharia, em Tancos; na Região Militar de Moçambique, em Nampula; e no Colégio Militar, em Lisboa. Mobilizado para o Ultramar, embarquei no navio ‘Vera Cruz’ a 4 de fevereiro de 1970 e regressei de avião no dia 30 de março de 1972. Sendo alferes miciliano sapador de infantaria, fui integrado na companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Caçadores 2907, que foi desmembrado quando chegámos a Lourenço Marques. Por esta razão, a companhia foi colocada nos órgãos de transportes da Região Militar de Moçambique.

Testemunhei os horrores da guerra em Cabo Delgado, com as evacuações vindas para o Hospital Militar de Nampula: militares com amputações, em estado de coma e alguns mortos. Sendo dador de sangue, tive a sensação de que também eu podia ser ferido em combate e ficar deficiente para toda a vida, como tantos outros. Perdi o sono, que só recuperei com tratamento médico, quando já estava à beira de um esgotamento nervoso. Mas não faltei ao serviço. Tenho a grata recordação de ter sido louvado por proposta do senhor coronel José Pedro Paixão (chefe de serviço) e do general Kaúlza de Arriaga, Comandante Chefe das Forças Armadas de Moçambique.

25 DE ABRIL DESILUDIU

Quando regressei a Portugal procurei emprego na Socotel, de António Champalimaud, onde tinha trabalhado antes, mas esta tinha sido extinta, razão pela qual optei por continuar na vida militar como oficial miliciano. No verão de 1972 fui colocado na Escola Prática de Infantaria em Mafra, na secção de Justiça, onde estive seis meses, pedindo depois transferência para o Colégio Militar em Lisboa, onde fui docente. Perspetivei na altura a frequência da Academia Militar para passar ao quadro permanente do Exército. Conhecia as razões que levaram os capitães à Revolução dos Cravos. Sendo democrata, também era contra o regime do Estado Novo, que podia ter evitado a guerra no Ultramar caso as eleições para a Presidência da República de 1958 tivessem sido livres, permitindo a eleição do General Humberto Delgado.

Mas a descolonização foi conduzida desastrosamente e nós abandonámos os povos à sua sorte, sem paz nem formação. Ouvindo, no verão de 1975, os desabafos dos retornados que utilizaram a ponte aérea de Angola para Lisboa perdi a vontade de prosseguir a carreira militar. Saí do Colégio Militar para ser hoje um homem realizado, com 23 anos de atividade profissional privada e 27 de vida pública (20 como presidente da Câmara Municipal de Pombal e sete de vida militar). Lamento que 40 anos depois da Revolução os valores da democracia não sejam aqueles por que lutámos. Os partidos políticos imprescindíveis num Estado de Direito democrático precisam de estadistas competentes e honestos que saibam governar o País sem consentimento da corrupção. Os portugueses devem repudiar e penalizar os compadrios políticos e a gestão danosa com enriquecimento ilícito, as injustiças sociais, a corrupção que enriquece alguns em prejuízo de um todo nacional. Exige-se uma Justiça célere e ética. Em conclusão, e citando Sá Carneiro: "A política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha." 

Narciso Mota
Comissão: Moçambique, 1970-1972
Força: Batalhão de Caçadores 2907
Atualidade: Tem 69 anos, 50 de atividade profissional. Engenheiro de formação, é casado, tem dois filhos, uma filha e seis netos. Vive em Leiria.
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