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"A sorte esteve sempre do nosso lado"

Fomos emboscados e atacados a tiro. Tivemos logo duas baixas.
Vanessa Fidalgo 23 de Agosto de 2015 às 09:30
Em Zemba, com quatro companheiros, no dia de folga
Em Zemba, com quatro companheiros, no dia de folga

Fui inspecionado a 18 de julho de 1966 e assentei praça em Viseu a 18 de julho de 1967. Curiosamente, também regressei de Angola a 18 de abril de 1970, casei-me a 18 de julho de 70 e saíram-me dez mil contos, em dinheiro antigo, numa lotaria na Alemanha num dia 18.


O 18 tem muito que se lhe diga na minha vida! Embarquei no Cais da Rocha de Conde de Óbidos e fui direto para Zemba. Foi uma viagem bonita. Fomos render o batalhão 1909, que já tinha sofrido muitas baixas durante a sua comissão. Cinco meses depois, seria a vez de o meu batalhão (batalhão de caçadores 2833, companhia 2309) sofrer as primeiras baixas.

Foi na zona de Três Marias, também em Zemba, durante uma operação de nove dias no mato. Acampámos durante a noite e de manhã, quando formámos para seguirmos caminho em fila, apareceu um cão. Confesso que não lhe ligámos muito, mas era um cão dos turras. E momentos depois fomos atacados a tiro por eles. Era uma emboscada.


Morreu logo o furriel e o sexto da fila, que estava à minha frente. Estávamos cercados e a confusão foi de tal ordem que para sairmos da zona tiveram de vir dois bombardeiros.


Outra situação complicada foi numa outra operação em que acabámos por passar três dias no mato sem comer nem beber porque nos perdemos. Até já chorávamos.


A bússola não apanhava nada, até que ao fim de três dias lá deu um sinal qualquer e içou-se o radar de emissões o mais alto possível para pedir ajuda. Saímos de lá também de avião, já comidos e bebidos. Pouco depois sofríamos mais uma baixa e três feridos, por causa de uma mina, noutra emboscada, na zona de Folha Verde. 


CAMARADAGEM

Mas também houve alguns episódios caricatos. Uma vez, quando o batalhão circulava pela estrada nacional que liga Carmona a Luanda, deparámo-nos com uma jiboia que estava naquele preciso momento a engolir uma gazela. O animal ainda estava metade dentro, metade fora, e o nosso alferes ordenou que fosse morta com uma G3.  Levámo-la connosco e pesámo-la: tinha cinco metros e 80 quilos!

Quando fomos para Ambriz tivemos uma vida mais calma, pois o nosso trabalho resumia-se mais a patrulhas nas zonas das fazendas.


Certa vez, numa operação curta, durante a noite, estava apenas o meu batalhão e afastei-me do grupo e não disse propositadamente a contrassenha. Depois, como era uma zona de folhas secas e eles perguntaram ‘quem vem lá?’. Ao princípio não respondi, para os deixar mais atrapalhados, mas depois disse: ‘É o menino Jesus!’. Eles acharam que eu me tinha arriscado a levar um tiro, mas também é ilustrativo da camaradagem… Acredito que a sorte esteve sempre do nosso lado. Na guerra em Angola estive 26 meses, que apesar de alguns momentos menos bons até recordo com alguma saudade. Não tenho saudades da guerra, isso não! Mas sinto-a pela camaradagem que nos uniu ao longo da vida fora. Um dia descobri na internet que a minha companhia organizava almoços comemorativos do regresso aos quais comecei a ir em 2007 e nunca mais parei.


É bom rever os meus alferes, os meus furriéis e muita gente boa que lá conheci e com quem tenho fortes laços, mesmo depois de tantos anos…

JOAQUIM PEREIRA
Comissão: 
Angola, 1967-1969
Força: Batalhão de Caçadores 2833, companhia 2309
Atualidade: Ex-emigrante na Alemanha, reformado e pai de dois filhos
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