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Correio da Manhã

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Absolutamente fãs

De Norte a Sul de Portugal, centenas de seguidores da banda irlandesa gastam fortunas em discos, coleccionam raridades, fazem jantaradas, discutem concertos. Viagem ao mundo daqueles que só vêem U2.
14 de Agosto de 2005 às 00:00
César Calisto dá o primeiro gole da noite numa ‘pint’ de ‘Guinness’, o suficiente para ficar com o contorno da espuma beje, espessa, ligeiramente marcado nos lábios. A capa de ‘How to Dismantle an Atomic Bomb’ estampada na t-shirt que traz vestida, denuncia-lhe o gosto musical. Aos 34 anos pertence à chamada ‘velha guarda’ dos verdadeiros fanáticos pelos U2, aqueles que seguem sem hesitar todos os passos do quarteto irlandês que há mais de duas décadas domina o pop/rock à escala planetária. “Não sei muito bem como hei-de transmitir o que sinto mas, ao contrário de outras pessoas, eu até adoro a pior canção deles”, explica deliciado pouco antes de confidenciar que em Setembro de 1998, meses após trocar alianças, chegou ao cúmulo de arrastar a recente esposa para uma lua-de-mel no romantismo de… Dublin.
Em vez de hotéis de sonho, paisagens deslumbrantes de sol e mar, cenários capazes de transformar o mais duro dos corações num pinga-amor, o casal contentou-se com o tom acastanhado do Rio Liffey, com a paisagem industrial do porto da capital irlandesa, na ínfima possibilidade de encarar com um dos ‘dubliners’ responsáveis por álbuns como ‘War’ ou ‘Achtung Baby’. Juntos, César e Carla até chegaram a ir de comboio à procura das casas de Larry Mullen Jr e de Bono Vox. Encontraram-nas, mas quer o baterista, quer o vocalista, nunca apareceram à porta a convidá-los para entrar.
César não guarda ressentimentos: “Tirando a minha família, os U2 são de certeza os meus melhores quatro amigos: não me chateiam a cabeça, dão-me grandes alegrias, nunca me desapontam. Era capaz de dar um ordenado por um bilhete do concerto.”
A paixão pelos U2 não morrerá nesta geração da família. A pequena Margarida tem apenas dois anos mas de cada vez que entra dentro do carro já grita: “Papá, papá, ‘uno, dos, três, catorze’”, a pedir que César cumpra o ritual de fazer de ‘Vertigo’ a banda-sonora para mais uma viagem. Ele cumpre sempre, sem oferecer resistência, a vontade à petiz.
COLECCIONADORES DE RARIDADES
Hugo Martins, 29 anos, ainda não passou o legado a outra geração, embora sofra de idêntica doença, que de tempos a tempos o arrasta para ‘clínicas’ fora de Portugal. Até há uma semana tinha visto nove concertos dos U2, entre os quais em Inglaterra e na Alemanha, e até tem bilhetes para Boston e Nova Iorque, embora não saiba se desencanta dinheiro que chegue para a viagem e a estadia. “Vai ser difícil, mas se não conseguir à última hora vendo-os e fico por cá”, lamenta.
Juntos no pequeno bar irlandês do Cais do Sodré, César e Hugo vão ao cúmulo de discutirem qual a melhor canção tocada ao vivo desde os longínquos anos 80, numa conversa que poderia ser incluída num sketch do ‘Gato Fedorento’. Tal como outros fanáticos dos quatro rapazes que mudaram a história do rock, conhecem de cor os alinhamentos de todos os espectáculos, coleccionam actuações sacadas na internet, armam-se em espiões para tentarem descobrir qual o hotel onde o grupo pernoita de cada vez que assenta arraiais neste ‘rectângulo à beira-mar plantado’. A loucura é tanta que antes da explosão da internet Hugo chegou a entrar na discoteca ‘Carbono’, puxar da carteira e “gastar de uma assentada 50 contos em gravações piratas.”
Em escudos ou na recente moeda europeia, o dinheiro deixa de ter importância quando a missão é encontrar aquele disco que quase ninguém tem. Que o diga o portuense Vitor Jogling. Com três décadas de vida, o consultor de sistemas informáticos que começou a escutar a banda na ressaca de ‘The Joshua Tree’, “numa cassete com gravação xungosa”, passa hoje o tempo entre Portugal, Dinamarca e Estados Unidos, um luxo servido de bandeja, com o qual muito se regozija.
Tal privilégio tem dado os seus frutos. O baixista Adam Clayton assinou-lhe há pouco mais de duas semanas, à porta de um hotel em Copenhaga, o histórico ‘single’ ‘U2 Three’, comprado há uns anos por 70 dólares, no site de leilões ‘E-bay’. A raridade está guardada a sete chaves juntamente com outras bem mais dispendiosas, que em determinados casos ultrapassam os 200 dólares. Vítor nem consegue fazer a conta ao que já gastou com os U2: “É melhor nem entrar nessa matemática. Quero entrar todos os dias em casa tranquilo, sem ter de modificar a fechadura”, afiança.
Em Maio, esteve no Madison Square Garden, em Nova Iorque, onde após o concerto teve o privilégio de trocar umas palavras com The Edge e Larry Mullen Jr. “Foram extremamente simpáticos, embora eu não tenha conseguido dizer nada de inteligente. É curioso que passamos muito tempo a pensar no que gostaríamos de lhes perguntar e naquela altura há uma espécie de bloqueio e ficamos naquilo do ‘Olá, eu sou de Portugal’. Tornamo-nos nuns putos de 15 anos.”
Hoje, Vítor só tem pena de ainda não ter sido inventada uma máquina do tempo, engenhoca meio destrambelhada do tipo ‘Regresso ao Futuro’, que o levasse até Vilar de Mouros, em 1982, quando os U2 deram o seu primeiro concerto em Portugal.
Andreia Valente nasceu precisamente nesse ano, nunca poderia lá ter estado, e apesar da tenra idade já é uma das maiores fãs lusitanas dos U2. Este ano viu-os em Dublin, um motivo de orgulho capaz de causar invejazinhas. Afinal, são poucos os portugueses que tiveram tal sorte. Ouve a banda desde que se conhece como gente, por culpa dos três irmãos mais velhos que sempre lhe impingiram os álbuns. Ela nunca ofereceu resistência. “Os U2 sempre tocaram lá em casa, é um vício de família e só tenho remorsos de não ter estado em 1993 em Alvalade. Os meus irmãos quiseram levar-me, mas era muito pequenina e a minha mãe não deixou. Mas fui ao concerto da PopMart. Já não é mau.”
UNIDOS PELA CONFRARIA
Se no futebol existem ódios de morte entre Norte e Sul, na adoração aos U2 a união é total, com fãs espalhados do Minho ao Algarve. Que o diga Pablo Gomes, portuense que com Hélio Martins e Alberto Estêvão formam o trio de grão-mestres da Confraria U2 Norte.
A ‘mui nobre’ instituição, em crescente de popularidade, cumpre à risca as normas de qualquer congénere, tem uma série de regras estabelecidas e ritos a cumprir de cada vez que na primeira sexta-feira do mês os confrades se reúnem à mesa, num cada vez mais pequeno restaurante de Gaia. A meio do repasto toda a gente se levanta, abraça-se e começa a cantar ‘Sometimes’, tema escolhido de forma mágica logo no primeiro jantar, realizado “aos vinte e um de Janeiro do ano da graça de 2005”, quando nove pessoas decidiram criar a confraria. Mais do que um hino, é um ritual a quem ninguém fica indiferente e que tem chegado a várias cidades circundantes ao Porto. “Não estamos fechados a ninguém e até já veio pessoal do Algarve para o jantar”, sublinha Pablo.
Hélio acompanha a cantilena com a guitarra acústica, a dar outra beleza à versão. Também ele é grão-mestre da confraria, também ele começou a ouvir a banda no final dos anos 80, princípios de 90, quando ‘Achtung Baby’ mudou o panorama do rock com uma sonoridade nova, estranha, viciosa. Além do tema, o grão-mestre destaca a presença de uma ameaçadora (mas pacífica) colher de pau gigante, que anda sempre com o grupo de um lado para o outro: “É só um acessório, nunca tivemos de dar com ela em ninguém.”
UMA NOITE COM OS 2U
Não se assustem, os flashes que vão ver durante este concerto são de um trabalho para a revista do ACP”, dispara em tom irónico Nuno Castelhanito pouco antes de soltar a voz e começar a trautear os primeiros versos de ‘Vertigo’. Passam 15 minutos da uma da manhã de sábado, está um calor abrasador no Xafarix, bar alfacinha onde os 2U costumam actuar semanalmente, e a clientela assídua que não fugiu para o Verão algarvio já sabe o que vai ouvir durante as próximas duas horas: hinos dos U2 cantados em catadupa.
De óculos escuros, Nuno faz de tudo para animar a clientela. Entre trejeitos à maneira de Bono Vox e danças por entre as mesas, incita o público a bater palmas, aponta o microfone a quem quer cantar um refrão. É um ‘one man show’, não há dúvida, apoiado em três músicos que conhecem de cor e salteado todos os sons criados pelo grupo irlandês a quem prestam tributo. As palmas no final de cada tema enchem-lhes o ego, dão razão de ser ao projecto. “Durante anos cantei U2 noutras bandas e não tem nada a ver com isto, porque a cena aqui é como se o nosso espírito, a nossa vontade, o nosso coração, estivessem todos direccionados para o mesmo objectivo. Sentimos muito as coisas, que flúem sem sequer nos apercebermos”, explica o vocalista antes de acentuar que só entraram no mesmo barco “por amor aos U2.”
A paixão com que todos falam sobre o mundo de Bono e companhia não resvalou para o ‘kitsch’, aquele lado piroso que leva muitas outras bandas seguidoras do quarteto de Dublin a copiarem--lhe até as indumentárias. “A nossa ideia não é ser igual a eles, apenas prestar homenagem àquela que é última grande banda do planeta”, explica João Diona, guitarrista e mentor dos 2U.
Também por isso, além dos óculos de Nuno Castelhanito, qualquer outra semelhança física com a realidade é pura coincidência: o baterista é careca, o guitarrista tem cabelo a mais, o baixista bebe uns copos mas não dá nota de ter a loucura encapotada de Adam Clayton. “Não queremos imitá-los, a nossa luta é apenas por prestar homenagem, até porque eles hão-de soar sempre melhor: são os originais”, sublinha Nuno Espírito Santo, que se ocupa das linhas do baixo.
HISTÓRIA RECENTE
A ideia de fundar os 2U surgiu por volta de 2001. João Diona passeava tranquilamente no carro com um amigo quando ligou o rádio, para abafar o barulho do trânsito lisboeta. Ouviu um tema de U2 e a tagarelice acabou por ir parar à criação de um tributo aos rapazes irlandeses que tanta companhia lhe tinham feito ao longo da meninice e adolescência.
Podia ter sido apenas conversa da treta mas a verdade é que o projecto nunca mais lhe saiu da cabeça, começando desde logo a juntar nomes que alinhassem na aventura: Nuno, com quem se encontrara em 1997 no concerto da digressão PopMart, seria o vocalista, porque se a voz não soava igual à de Bono, o carisma estava lá todo; Ivo Palitos, com quem tocava noutra banda, alinharia na bateria. Os baixistas foram aparecendo conforme a disponibilidade.
A ideia esteve em águas de bacalhau durante um ano, mas no Verão de 2002 lá viu a luz do dia, com Manel Costa, entretanto saído do colectivo, a encarnar Adam Clayton. Durante um mês fecharam-se dentro de quatro paredes e ensaiaram 20 temas dos U2, mostrados ao público no dia 15 de Outubro do mesmo ano. O espectáculo teve lugar no Jardim da Música, em Alvalade, então gerido por Ivo, que jamais esquecerá a data: “Já tocamos todos há muitos anos, noutros projectos, mas naquela noite estávamos borrados. Foi dos piores concertos que tivemos mas resultou muito bem em termos anímicos, porque o espaço estava cheio e o pessoal fartou-se de nos apoiar”, lembra o baterista. A missão tinha sido cumprida com sucesso.
Quase três anos e muitos concertos depois, os quatro 2U tocam afinadinhos e continuam a lutar para que tudo corra sempre bem: são eles mesmos que montam e desmontam o material, que assinam contratos para tocarem de Norte a Sul do país, que se ocupam da propaganda. Não têm ‘groupies’ – aquelas meninas que fazem tudo para estarem com um ídolo –, embora conheçam e sejam amigos das fãs mais acérrimas, aquelas que colocam mensagens no seu site (www.2uonline.org), ou que todas as sextas-feiras saem de casa para os irem ver ao Xafarix. Sempre em nome do amor aos U2.
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