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Açúcar, moral e assim

‘As Boas Maneiras Ainda São Importantes?’ é a pergunta que dá título a este livro. A resposta é afirmativa – É uma forma de resistir à estupidez
Francisco José Viegas 4 de Julho de 2010 às 00:00
Açúcar, moral e assim
Açúcar, moral e assim

Esta semana li dois romances. Um deles é ‘A Morte do Ouvidor’, de Germano Almeida (Caminho) – porque vou encontrá-lo na próxima terça-feira, no Mindelo, Cabo Verde, e quero felicitá-lo. O outro é ‘O Papagaio de Flaubert’, de Julian Barnes (Quetzal), e deve ser um dos romances que li mais vezes, juntamente com ‘Os Maias’ e ‘A Cidade e as Serras’, de Eça, ‘A Brasileira de Prazins’, de Camilo, e ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, de Machado de Assis. Acabei de publicá-lo eu mesmo e não resisti a lê-lo mais uma vez.

Depois, deparei com ‘As Boas Maneiras Ainda São Importantes?’, de Lucinda Holdforth (Bizâncio), um livro que aparece nas estantes das livrarias reduzido à secção de auto-ajuda. É uma pena. Lucinda Holdforth não escreve mal. Melhor do que isso: não pensa nada mal. E o livro não é de auto-ajuda, não pertence a essa categoria moral da pobre posologia para os tempos da miséria. Pelo contrário, coloca problemas essenciais, servindo-se de exemplos que retira da filosofia e da literatura, o que justifica – mas não serve – o subtítulo pomposo: "Em defesa do comportamento civilizado num mundo bárbaro".

A questão devia ocupar-nos a todos: podemos ser melhores? Podemos sempre.

MONA LISA

Claro que nós olhamos para a fotografia de Lucinda Holdforth e pensamos que não queremos ser como ela: prestável, bem vestida, com aquele ar de ninfa quarentona australiana, um sorriso naquele rosto de Mona Lisa da Tasmânia. Mas, repito, a questão devia ocupar-nos a todos para lá da auto-ajuda primária. As ‘boas maneiras’ são uma espécie de antídoto contra a barbárie: a barbárie política, amorosa, cultural, a barbárie da rua.

Eu tenho saudades dos cavalheiros de antigamente – na política e na vida em sociedade. Alguns casos eram simpáticos demais: uns canalhas que sorriam, certamente, mas que ofereciam um isqueiro quando uma senhora queria acender um cigarro, ou que iam buscar uma cadeira quando alguém queria juntar-se à mesa. Os canalhas de hoje já não são cavalheiros.

As senhoras, por exemplo, sofrem com isso porque, como de costume, apaixonam-se por cafajestes e canalhas com mais frequência do que por cidadãos exemplares — que são aborrecidíssimos. Mas os cafajestes e canalhas de hoje em dia já desaprenderam as boas maneiras com que deviam compensar as suas atribulações de carácter. A adolescência, por exemplo: as famílias já não educam os adolescentes para uma "boa aparência em sociedade". Deviam, porque não faz mal nenhum. Arrumar o quarto. Dizer frases com sujeito, predicado e complemento directo.

Não é preciso ser-se conservador para ter boas maneiras. É uma maneira de resistir à estupidez e ao desleixo. No meu emprego havia uma senhora que nunca cumprimentava ninguém no elevador (era feia, e suponho que ainda é). Derrotei-a com ‘bons dias’ sucessivos. Hoje ainda não me fala, mas creio que é por vergonha. Continua feia. 

RESUMO

Ensaio sobre as boas maneiras e o seu papel na vida em sociedade.

AUTOR

L. Holdforth

EDITORA

Bizâncio

PÁGINAS

190

FILME: ‘O SEGREDO DOS SEUS OLHOS’

"Este filme argentino não tem nada a ver com o cinema argentino. Isso seria reduzi-lo a uma geografia e a um degrau abaixo no pódio. É grande cinema, uma história belíssima e uma cinematografia com várias estrelas".

RESUMO

Um antigo polícia decide escrever um romance para contar a história de um crime passado há 25 anos.

Título original: ‘El Secreto de Sus Ojos’

Realizador: Juan J. Campanella

FESTIVAL: SUPER BOCK SUPER ROCK

"Os festivais de Verão são uma praga. Eu não vou lá, mas não me importo que os meus filhos vão ao Super Bock Super Rock, para ouvir os Beach House, Vampire Weekend, The National, Jamie Lidell, Empire of the Sun ou Julian Casablancas. Por isso, podem comprar os bilhetes, rapazes".

Local: Meco

Data: dias 16, 17 e 18 deste mês

Preço: 40 euros (diário); 70 euros (3 dias)

Mais informação: www.superbock.pt

CONCERTO: AL GREEN

"A revista ‘Egoísta’ comemora 10 anos de existência – é a mais bonita revista portuguesa e Patrícia Reis está de parabéns. Imagine quem vem tocar no aniversário: Al Green. E não vem sozinho: traz a sua voz espantosa, a sua maneira de estar no palco e as recordações do melhor da soul".

Local: Casino Estoril

Data: Próxima terça-feira

Preço: 120 euros (com jantar; necessário fato escuro)

Mais informação: www.casino-estoril.pt

FUGIR DE...

LULA PENA

"É injusto para Lula Pena, que tem algumas canções maravilhosas em ‘Phados’ e mesmo em ‘Troubadour’. Mas são canções, não são descobertas de uma nova galáxia, como pretendem ela e parte dos seus admiradores. A sua voz é originalíssima, certo, e bonita. Mas transformar isso numa nova metafísica é injusto para nós. Oiça o disco, que é bom, mas fuja da religião".

Resumo: cantora portuguesa que surgiu em ‘Pasión’, de Rodrigo Leão

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