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Adónis traídos por imagens ao espelho

E se o espelho lhe mentisse sobre a sua imagem? Não são só as mulheres que se sentem gordas quando, na verdade, são magras. Há homens que se sentem esqueléticos, sendo musculados.
15 de Outubro de 2006 às 00:00
Os miúdos gostam de fazer competições para ver qual já tem os músculos maiores. Mas há adultos que não param de comparar o seu corpo e caem no exagero do exercício físico compulsivo. O problema é quando vêem a sua imagem reflectida no espelho. Não gostam. Não tem nada a ver com o que idealizaram. Querem muscular mais a sua imagem. A este distúrbio comportamental – não reconhecido como doença – chamou-se vigorexia.
“Só tenho um ou dois sintomas de vigorético, estou sempre a olhar-me ao espelho, peso-me continuamente (todas as semanas, mais ou menos), não vejo os avanços que já consegui e só penso no ginásio. Bolas, mas isso não é mau!” A ansiedade de conseguir o corpo perfeito – tal como o próprio o idealiza – parece não incomodar este espanhol, da região da Corunha, no testemunho deixado num fórum de discussão sobre vigorexia (em www.fitness.com). A aparência musculada tornou-se um objectivo a conseguir a todo o custo.
“O melhor conselho é parar e pensar: “Estou aqui [treino] a fazer o quê e para quê.” Para o personal trainer José Baptista esta é a pergunta que se impõe. “Depois insere-se as respostas na vida global do indivíduo.” É certo que a tarefa não é fácil. O próprio instrutor já se deparou com circunstâncias em que teve de intervir junto das pessoas que acompanhava nos ginásios onde trabalhou. “Procurava fazer uma abordagem que não fosse agressiva, porque estas pessoas têm um comportamento compulsivo – emocionalmente não se conseguem libertar do treino compulsivo.” A maioria recusava ajuda. “Em outros, fazia-se luz na cabeça e percebiam que o desporto não era solução para todos os seus problemas”, conta José.
O especialista em psicologia do desporto, Duarte Araújo, considera que este comportamento é potenciado por factores externos. O sedentarismo (obriga a gastar menos energia), maus hábitos alimentares (mais calóricos) e a ideia do modelo social de homem de sucesso: elegante e charmoso. “Nem toda a gente lida bem com estas pressões contraditórias, que fazem com que a pessoa não se sinta bem com o seu corpo”, justifica. “Não é um problema de exercício físico. É, sobretudo, social e de imagem corporal.” O ginásio só surge aqui como meio para atingir a imagem corporal adequada ao seu modelo social. Acontece que a sua própria exigência pode levar à prática excessiva de exercício físico (com pesos) e até à ingestão de substâncias que possam alterar o corpo mais rapidamente.
A vigorexia é uma perturbação que a pessoa tem da sua imagem corporal e, segundo Duarte Araújo, que gera um conjunto de comportamentos que ocupa muito do tempo da pessoa. A ajuda deve ser psicológica. Mas, neste capítulo, as pessoas mais próximas têm também um papel importante. “O fundamental é fazer com que a pessoa se sinta à vontade o suficiente para falar sobre este assunto”, explica o especialista. Mais: “É preciso demonstrar que se gosta desta pessoa como ela é e como interage. Não pelo seu corpo.”
No mesmo fórum de discussão na internet sobre vigorexia, uma espanhola disse que “90% das pessoas que frequentam os ginásios não treinam mais que uma hora por dia, nem aparecem todos os dias da semana. Por isso, há pouca gente vigorética.”
Uma perspectiva partilhada pelo personal trainer José Baptista, que arrisca avançar números: “Cinco a dez por cento das pessoas que vão aos ginásios dos grandes centros urbanos têm este comportamento. É uma moda – onda de fitness que chegou nos anos 90 – que faz as pessoas procurarem treinar para render mais que o colega do lado.”
O pior é o consumo de esteróides e de anabolizantes – para aumentar a massa muscular. “Há ginásios onde alguns colegas [instrutores] influenciam a tomar anabolizantes”, denuncia à Domingo José Baptista. O que é um perigo. “Provocam cancros variados, impotência, morte prematura (AVC e enfartes), etc...”, adverte o especialista em psicologia desportiva, Duarte Araújo. Muitas vezes, o consumidor final desconhece as substâncias que está a tomar e estas tornam-se bem mais nocivas para a sua saúde. Certo é que há quem treine várias horas seguidas e mais de quatro vezes por semana só para se sentir bem com o corpo – meta nunca atingida, já que a sua concepção da imagem perfeita está em mutação. Mais: muitos ainda consomem aditivos alimentares.
O QUE PRECISA DE SABER SOBRE VIGOREXIA
UM ADÓNIS QUE NÃO RECONHECIA O SEU PRÓPRIO CORPO REFLECTIDO NO ESPELHO
A vigorexia (síndroma de Adónis) é uma perturbação comportamental que afecta, principalmente, os homens obcecados pela musculação. Apesar de já terem um corpo suficientemente musculado, olham-se ao espelho e vêem uma imagem distorcida de si: Fracos, com o corpo flácido e até esquelético. Sentem que precisam de treinar mais. Comparam o seu corpo com outros e sentem vergonha de si. Muitos recorrem a aditivos perigosos, como os esteróides anabolizantes, para aumentar a massa muscular.
GUIA PARA SE IDENTIFICAR OS SINTOMAS
CURA
O conflito da imagem que uma pessoa tem de si própria, por não ser como gostaria de ser, leva muitas vezes a desordens, como a anorexia ou vigorexia. A cura depende da aceitação da imagem que se tem de si próprio e de regras alimentares e desportivas, que devem ser acompanhadas por especialistas.
INSATISFAÇÃO
Há diversos factores que provocam uma certa insatisfação com o corpo. Muitos deles são sociais e até culturais. Psicologicamente podem ser condicionados por uma baixa autoestima, introversão e isolamento. Há quem se sinta pressionado pela sua aparência para ser aceite pelos outros.
LESÕES POR ESFORÇO
O excesso de actividade física pode provocar lesões. Acontece que este desporto provoca prazer libertado pela endorfina. E se para curar lesões é preciso interromper, para quem sofre de vigorexia é sinónimo de angústia. O que pode provocar danos irreversíveis para a saúde.
PROBLEMAS SEXUAIS
A vigorexia pode provocar, a médio prazo, problemas sexuais por alterações hormonais. É que a adição de anabolizantes ou de testosterona, para aumentar a massa muscular, baixa os níveis de testosterona. Causa dificuldades de erecção e a diminuição do desejo sexual.
DICAS
Os condicionalismos da vida moderna pressionam bastante a aparência das pessoas. Siga alguns dos conselhos para viver melhor com a sua imagem.
REGRAS DESPORTIVAS
Fazer desporto é saudável, mas os excessos comportam alguns riscos. A melhor forma de os evitar é através do acompanhamento por um personal trainer, no ginásio. Estes profissionais, melhor que ninguém, poderão aconselhá-lo a dosear os exercícios e a opinar sobre a aparência e estado físico.
REGRAS ALIMENTARES
Para cuidar da melhor forma a condição física é preciso ter cuidados alimentares específicos. Os nutricionistas podem prescrever uma dieta alimentar que produza este efeito. Não faça cortes drásticos na alimentação, já que isso pode traduzir-se num desequilíbrio. Ganhe hábitos alimentares.
ADITIVOS PERIGOSOS
Para quem sofre de vigorexia, cair em tentação de tomar esteróides ou anabolizantes é muito fácil. Se isso lhe acontecer é conveniente consultar o seu médico de família para o ajudar a evitar os aditivos. Atenção que há outros produtos não farmacêuticos que podem ter o mesmo efeito, sem que saiba.
CONFIANÇA EM SI
Procure destacar-se nas actividades que lhe dão prazer e em que consiga melhores desempenhos. É uma forma de elevar a sua auto-estima. No que toca ao seu corpo, não tenha medo de perguntar aos seus amigos e familiares se algo lhes parece que esteja mal. Não se feche sobre si próprio.
DOENÇA DOS ADÓNIS (Opinião da jornalista Dulce Garcia)
As doenças da imagem têm nome feminino. Que grande surpresa! A fixação das mulheres pela magreza chama-se anorexia, a obsessão dos homens pelos músculos tem o bonito nome de vigorexia, ou doença de Adónis. A saber: distúrbio do comportamento que leva os indivíduos a olharem para o ginásio como um fanático religioso para o seu templo. Dia em que não façam 500 flexões e 600 abdominais, não é dia. E sempre que falham o culto, experimentam o arrepio do inferno. Mais: quando perdem um grama, perdem toda a auto-estima.
A tendência – empolada pela febre dos ginásios, nos anos 80 – tem vítimas por toda a Europa e Estados Unidos. Calcula-se que um milhão dos nove milhões de americanos que praticam musculação tenha desenvolvido a doença, ainda que a um nível mais inofensivo. E na Europa, onde se crê que existam 16 milhões de viciados em máquinas e em músculos, cerca de 6 por cento recorre a anabolizantes (esteróides para desenvolver a massa muscular).
Ao contrário da anorexia, onde a magreza extrema é um espelho da fragilidade interior (timidez pura, dificuldades de integração social, traumas com o corpo), a vigorexia aparece mascarada, como a maior parte dos sentimentos masculinos. Todo aquele volume, toda aquela carne esculpida só querem dizer uma coisa: Cuidado, homem frágil. E não sou eu que o afirmo, são os médicos, para quem a obsessão com os músculos corresponde a uma clara rejeição do corpo, sempre visto como pequeno e fraco demais.
À primeira vista – e à segunda e à terceira…– toda aquela exuberância física parece indiciar um alto desempenho sexual (ou alguém está a ver o Schwarzenegger e o Van Damme com problemas de impotência?). Mas não, há aqui um supremo golpe de ironia: uma das consequências físicas da vigorexia (sobretudo quando a pessoa recorre a anabolizantes para ‘encher’ mais depressa) é a perda de desejo sexual.
Para o caso de haver para aí uns rapazes que se andem a matar nos ginásios para agradar às raparigas, fica o conselho: mais vale estarem quietinhos. Em última instância, é sexualmente mais proveitoso.
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