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Correio da Manhã

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AGORA CHAMAM-ME MC BOMBAS

A notícia é bombástica. A equipa do ‘Conversas de Sonho’ estava em Chelas, num trabalho sobre bairros degradados, e acabou por encontrar o homem mais procurado do mundo: Saddam Hussein. O ex-líder iraquiano nem parece o mesmo. Está mesmo bem disfarçado.
27 de Abril de 2003 às 00:00
Desculpe, o senhor não é o Saddam Hussein?
Claro que não!! Por Alá, eu nem sei de quem é que estão a falar.
Saddam, o ex-líder iraquiano, fugido às tropas norte-americanas?
Fugido aos norte-americanos? Mas eu até curto os ‘states’. Ponham os olhos nestes ténis Nike, gamados num ‘shoopping’ ainda há dois dias. ‘Bué’ da ‘cool’.
Oiça, não vale a pena fingir. Ninguém aqui se referiria a Alá?
Isso é uma nova expressão do ‘people’ do bairro. Não estou a perceber a vossa conversa. Bazem daqui.
Podemos pô-lo à prova?
Malta, estão à vontade. Não tenho medo de nada!
Já alguma vez matou alguém?
Claro, mas isso é normal aqui.
E matou com o quê?
Com um chaimite. Aquilo era do Exército português, estava acabado, e disparou por acaso. Foi sem intenção…
E onde é que aprendeu a guiar um chaimite?
A malta ia todas as noites para a Ponte Vasco da Gama às 2 da manhã. Fazíamos despiques com os tipos de Alcochete, em contramão. A festa só acabava às tantas, com tiros de metralhadora para o ar. Ah, Alá! Como eram bons os tempos em Bagd…
Então sempre confessa…
Pronto, chega, eu admito, sou mesmo
o Saddam Hussein.
Porque é que veio para Chelas?
Disseram-me que a CIA nem sabe bem onde fica Portugal. Para os ‘yankees’, vocês são um arquipélago algures no Atlântico com uma base aérea.
Sim, mas Chelas não é propriamente um exílio dourado…
Realmente não é. Mas já me sinto em casa. Isto é uma guerra diária e com mais danos colaterais e ‘fogo-amigo’ do que no deserto de al-Sharqat.
Com tanto dinheiro amealhado, não podia estar ainda no Médio Oriente, a viver bem, debaixo da alçada de um país vizinho?
Podia, mas estava farto do calor e das tempestades de areia. E então o cheiro a petróleo… já me enjoava.
Como é que passa os seus dias?
Tá-se bem. Curto bué isto aqui, porque sempre tive uma grande facilidade em comunicar com a população. Ninguém me chateia. Por falar nisso, até já faço música rap com a boca. Sou do ‘best’. Agoram chamam-me MC Bombas. Topam?
Sim, sim. Mas deve ser uma vida monótona, tendo em conta que você vivia escondido, sempre de um lado para o outro para não ser apanhado pela CIA?!
O Bush enganou-os bem, ‘brother’. Então não vêem que isto foi tudo combinado com ele, que queria sacar o petróleo ao pessoal e tinha de inventar uma desculpa?
Ai sim? Então a história de o senhor querer destruir os poços antes de fugir?
Mano, tás a reinar, só pode. A malta lá já nem conseguia pôr um Mig no ar, quanto mais incendiar os poços de petróleo.
Trouxe alguma recordação importante?
Claro. Uma sanita em ouro.
Porquê?
É que eu, nas necessidades, gosto de continuar a sentir-me um verdadeiro rei!
Esta entrevista nunca aconteceu. Vimo-lo mas não o conseguimos entrevistar.
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