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Correio da Manhã

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Águas passadas

“[...] melhor do que tudo o resto naquele restaurante, há o pôr-do -sol, lento sobre o mar”
Tiago Rebelo 18 de Novembro de 2012 às 15:00
O homem estátua
O homem estátua

A esplanada fica no alto de uma ravina por cima da praia e é bastante concorrida ao fim da tarde porque, melhor do que tudo o resto naquele restaurante, há o pôr-do-sol, lento sobre o mar, que, nos dias limpos, se pode ver com uma perplexidade espiritual até onde a beleza existe, lá longe onde a água e o céu muito azul se confundem.

Ele está sentado a uma mesa de amigos, homens a beberem cervejas e a falarem de trivialidades. A noite caiu, as luzes acenderam-se, vieram mais cervejas e uns pratos variados que foram pedindo. Noutra mesa distante, de três casais, ele repara nela. Lembra-se do seu nome, mas não está certo de que seja mesmo ela. Passaram vinte anos, talvez um pouco mais. Mas ela leva as mãos ao cabelo comprido enquanto conversa, junta-o atrás da cabeça num rabo-de-cavalo e deixa-o cair sem chegar a prendê-lo, e então ele tem a certeza. Viu-a repetir aquele gesto vezes sem conta.

Ainda pensa nela, ocasionalmente, como uma boa recordação, porque o tempo tende a preservar só as melhores memórias, a esquecer os desentendimentos, as discussões, o que ela desejava ansiosamente, o que ele não estava preparado para dar já, e ela não queria esperar. Desencontraram-se enfim, num derradeiro dia em que foi ter com ela à estação do Metro, disposto a tudo o que lhe exigia para não a perder. Mas chegou atrasado, e a porta do comboio fechou-se. Ele, fora, a dizer-lhe amanhã aqui à mesma hora, ela, dentro, lendo-lhe nos lábios a sua mensagem, assentindo com a cabeça, com uma expressão triste de derrota. Não voltou. Telefonou-lhe vezes sem conta, procurou-a em todos os lados, mas ela desapareceu, até hoje, este encontro fortuito.

A certa altura, ela repara nele. Vão trocando olhares furtivos, de relance, sem chegarem a assumir o reconhecimento. Ele vê o empregado levar a conta à mesa dela, levantar-se com os amigos. Ela passa pela sua mesa e há um instante em que se encaram, têm um quase sorriso, ténue, como se cada um espere do outro a iniciativa de dizer qualquer coisa. Mas é tudo muito rápido e, no último momento, ela desvia a cabeça e segue em frente. Ele quer falar-lhe, mas sente que perdeu a oportunidade.

Ela foi-se embora, e ele fica a remoer consigo próprio por não a ter cumprimentado. Teria gostado de lhe falar. Pensa que talvez possa contactá-la pelo Facebook, desliga-se da conversa à mesa, a imaginar o que lhe dirá, mas, finalmente, quando os amigos lhe perguntam se está noutra dimensão, ele ri-se, diz que voltou a aterrar. E afinal, pensa, não vai tentar contactá-la, pois não saberia o que lhe dizer, talvez já não tenha nada para lhe dizer.

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