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Ah, ah, ah, muito engraçado

“Resultado: ouço mais vezes a palavra ‘salsicha’ à hora de jantar do que numa linha de enchidos da fábrica Nobre”
27 de Novembro de 2011 às 00:00
Ah, ah, ah, muito engraçado
Ah, ah, ah, muito engraçado FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

As refeições da minha família têm desde há uns tempos uma novidade que poderia ser patrocinada pela Colgate: os ataques de riso do Tomás. Visto de fora, parece uma coisa muito gira. Eis uma criança alegre e feliz, que ainda acha o mundo um lugar divertido. Mas não se enganem, caros leitores. Enquanto a boca do Tomás está ocupada com as gargalhadas, várias coisas acontecem: 1) A comida vai-se perpetuando no prato. 2) O seu irmão mais pequeno apanha boleia no desvario. 3) A sua irmã mais velha esquece-se da idade que tem. 4) A mesa da nossa cozinha transforma-se na plateia de um filme cómico. Infelizmente, ninguém com mais de oito anos percebe onde está a graça.

Eu exemplifico. No princípio está quase sempre o pequeno Gui, o desestabilizador-mor do reino. Depois de ter percebido que é mais fácil pôr a rir o irmão do que calçar um par de meias, ele não descansa enquanto não instala o caos à mesa de jantar. E para isso basta-lhe dizer... "salsicha". A sério. Salsicha. O Gui está à mesa, diz "salsicha" (ele tem uma forma engraçada de dizer "salsicha", é verdade) e o Tomás desata de imediato a rir. É tão simples - e tão parvo - quanto isto. Resultado: ouço mais vezes a palavra "salsicha" à hora de jantar do que numa linha de enchidos da fábrica Nobre.

Está certo que o humor faz bem à saúde, e que o Tomás tem um riso contagiante, todo ele dentes e boca. Mas as suas gargalhadas gastronómicas são uma mistura de parvoíce pura e dura e nervoso miudinho que se vai agravando à medida que a temperatura da cabeça dos pais atinge o ponto crítico e a pressão só consegue ser aliviada com um carolo no cocuruto. Só que mesmo assim o Tomás não chora, não amua, não pára: continua a rir-se, faz um esforço genuíno para se conter mas as gargalhadas acabam por rebentar o dique da seriedade, numa réplica daquela cena do ‘Panda do Kung Fu' em que o malvado ‘Tai Lung' tenta espancar o gordalhufo ‘Po' só que cada murro apenas lhe provoca cócegas.

O que fazer nesta situação? Sei lá. A melhor solução que encontrei até ao momento foi enfiá-lo na casa de banho com o prato da comida ao lado do lavatório e obrigá-lo a rir para os sabonetes. Não deixa de ser um pouco triste castigar um miúdo por excesso de boa-disposição, mas para tudo tem de haver limites. E, tal como a mostarda, as salsichas já me chegaram ao nariz.

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