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“Ainda hoje trago a guerra no corpo e na alma"

Em Moçambique fui retirado duas vezes em coma para o hospital e só por milagre, acredito, não morri.
Marta Martins Silva 2 de Junho de 2019 às 11:00
“Ainda hoje trago a guerra no corpo e na alma'
“Ainda hoje trago a guerra no corpo e na alma'
Embarquei no ‘Vera Cruz’ no dia 25 de abril de 1970 sem imaginar o quanto a guerra iria mudar a minha vida. Um desgraçado que andou a dar a vida pela pátria - diziam que aquilo era nosso - e, como eu, tantos camaradas, com tantas outras histórias.

Há milhares de ex-combatentes que nem sabem como estão cá hoje. Como eu, que fui por duas vezes retirado em estado de coma para o hospital durante a guerra, tanto que ainda hoje não sei como saí vivo do Ultramar. Foi um milagre.

O primeiro episódio aconteceu logo no início da comissão, devia ter passado pouco mais de um mês da nossa chegada. O desastre foi perto da Barragem de Cahora Bassa. Foram dar comigo lá no meio do monte, no capim, dizem que parecia morto. Ouviram-se tiros dentro e fora da picada e foi tudo pelo ar, por causa das minas.

Fui levado ao hospital com um traumatismo craniano e muitas outras mazelas e estive internado mais de dois meses. Saí do hospital muito debilitado e meses depois ainda andava a coxear. De tal forma que os meus amigos – éramos todos amigos – levavam-me o rádio (eu era de transmissões) para não ir carregado.

Mesmo assim eu ainda tinha de levar seis ou sete cantis de água, as cartucheiras, a G3, granadas e uns farrapos para dormir, pois de noite era um cacimbo que até cortava o coração. Mas às dez da manhã já estavam 30 e tal graus e à hora de almoço passava dos 40.

No Ultramar, nesse primeiro rebentamento, parti a clavícula, a cana do nariz, os dentes, o pé direito em dois ou três sítios; ainda tenho estilhaços na rótula do joelho esquerdo, já o direito parecem dois joelhos por causa de uma queda que dei. Foi quando me atirei de uma Berliet para baixo para me safar, porque tinham começado a chover tiros. Fiquei com a coluna num oito e ainda hoje doem-me os joelhos e o pé.

Em dezembro de 1970 apanhei malária cerebral e pela segunda vez fui retirado. Antes de atacarmos uma base fui encher o cantil num charco, tal era a sede. Comecei depois a sentir frio, diarreia, dores de cabeça, desmaios e estive internado seis meses, num quarto sozinho, com duas garrafas de soro, uma de cada lado. Aquilo foi um horror e ainda hoje sinto dores de cabeça à conta disso.

Quando regressei trouxe metade da guerra comigo. A minha mulher toda a vida ouviu-me falar da guerra. A guerra está comigo até hoje, no corpo e na alma, é impossível ultrapassar uma coisa assim, é impossível não lembrar.

O regresso
Regressei no dia 21 ou 22 de maio de 1972 a Portugal, uma pessoa completamente diferente da que fui. Quando cheguei, fui trabalhar para um hotel em Albufeira. Uma vez houve lá uma festa dos pescadores, em que começaram a mandar tiros e eu, que estava a servir os estrangeiros, mandei-me logo para o meio do chão - foi pratos, vidros, tudo pelo ar. Era a guerra ainda atrás de mim.

Já liguei muitas vezes para o Ministério da Defesa mas dizem que não há nexo de causalidade entre os problemas que tenho e o que lá passei em Moçambique. Olham para mim como se vissem um pobrezito qualquer. Os meus processos têm andado de associação em associação, de hospital em hospital, e nada.

Ganho uma reforma de trezentos euros, tenho uma filha deficiente que precisa de fraldas e de medicamentos, que ganha duzentos e poucos euros, mais os cento e pouco ganhos pela esposa - é muito pouco para conseguir fazer face às despesas mensais que são mais do que muitas em medicamentos e hospitais. Eu gostaria de dar um pouco mais de conforto a esta inocente que aqui tenho: a minha menina de 39 anos.

Ninguém olha para mim, que servi a pátria como me pediram e de lá vim marcado sem que nada me tenham dado em troca. Nem a mim nem aos camaradas que de lá vieram iguais.

Nome Gilberto da Conceição Pereira
Comissão Moçambique (1970-72)
Força Companhia de caçadores 2729
Info Tem 71 anos, é casado, tem quatro filhos, três netas, um neto a caminho e um bisneto
Vera Cruz G3 Ministério da Defesa Ultramar Berliet Portugal Albufeira Moçambique Info política
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