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Alentejano e amante da arte

Museu Municipal de Elvas guarda uma das maiores colecções privadas de Arte Portuguesa.
7 de Fevereiro de 2010 às 00:00
António Cachola e a peça ‘Sagrada Família nos Degraus’, de Rui Sanches, reconstruída para o MACE
António Cachola e a peça ‘Sagrada Família nos Degraus’, de Rui Sanches, reconstruída para o MACE FOTO: Nuno Veiga

Campo Maior, 1980. A cidade alentejana entra no mapa das artes ao organizar os Encontros Ibéricos de Arte Moderna. Durante dois anos sucedem-se exposições de artistas portugueses e estrangeiros. Um jovem licenciado, acabado de ingressar na Delta – a empresa de cafés que é a maior empregadora da região – deixa-se encantar pelo mundo das artes.

Começa aqui a história de uma das mais importantes colecções privadas de arte do País. António Cachola, licenciado em Economia, nasceu na vizinha Elvas. Estudou em Lisboa, no ISEG, e voltou depois ao "seu" Alentejo. O gosto pelas artes, espevitado em Campo Maior, prolonga-se nas viagens da juventude: "A partir dos anos 70 comecei a viajar muito pela Europa e visitei os grandes museus". O emprego corria bem – chega a director financeiro da Delta – e começa a procurar peças de artistas portugueses. "Comecei a comprar nos anos 80, mas só na década seguinte é que se formou a ideia de expor a minha colecção em público".

A oportunidade surge em 1999, através do Museu Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporaneo, em Badajoz. "Conhecia o director e ele convidou-me a expor as minhas obras. Foi uma prova de fogo, a partir daí percebi que havia condições para ir mais longe", lembra António. Levou a Espanha vários autores portugueses – José Pedro Croft, Rui Chafes, Pedro Calapez e Rui Sanches, entre muitos outros e ainda hoje a sua colecção se faz de artistas nacionais – "Faz-se arte de grande qualidade em Portugal", explica António Cachola. O coleccionador apostou em autores em início de carreira – foi dos primeiros a descobrir Joana Vasconcelos – conseguindo peças hoje muito valiosas por preços ao alcance da sua bolsa.

O passo seguinte do sonho concretizou-se em 2008, com a criação do Museu de Arte Contemporânea de Elvas, onde está depositada a colecção de António Cachola. No próximo mês de Setembro o MACE faz uma troca com o Museu Berardo – as peças de autores portugueses vão para Lisboa e parte da colecção internacional de Berardo vai para Elvas. Cachola recusa comparações com o empresário madeirense: "Espero que o Comendador Berardo não fique ofendido, porque eu sou um coleccionador muito mais modesto". Mas ‘pelo menos’ é "uma das pessoas mais felizes do Alentejo".

ADMIRADOR DE ARTISTAS

O artista plástico Rui Chafes conheceu António Cachola no final dos anos 80. "Ele convidou-me a ir a sua casa em Campo Maior. Achei-o muito simpático, muito entusiasta das artes portuguesas. Era bom que houvesse mais gente como ele, até para descentralizar a arte de Lisboa e do Porto", conta Chafes. António Cachola sente grande afinidade com a geração de artistas que começou a despontar nos anos 80 e 90. Rui Sanches é outro exemplo.

A mais recente exposição do MACE tem uma instalação que o artista fez em Nova Iorque no início da carreira e que tinha sido destruída. "Consegui convencê-lo a reconstruir a peça e agora ela pode ser vista em Portugal pela primeira vez", conta Cachola.

PERFIL

Tem 53 anos, é casado e tem uma filha. Vive em Campo Maior mas nasceu na vizinha Elvas, onde a sua colecção está patente ao público. Avesso a falar de números, António Cachola garante que não sabe quanto vale a sua colecção, que inclui obras de dezenas de artistas nacionais. Em casa guarda um quadro de Fernando Calhau, que considera especial. Diz que ainda lhe falta uma peça de Julião Sarmento na colecção.

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