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Alma-naque

‘O Sentido do Fim’ é o mais recente livro de Julian Barnes. É uma reflexão de um autor genial sobre vários aspectos da vida, mas também da morte
Joana Amaral Dias 14 de Outubro de 2012 às 15:00
Alma-naque

O meu primeiro livro de Julian Barnes foi o ‘Nada a Temer’, qualquer coisa entre o ensaio e a autobiografia. Comprei-o, há uns anos, porque se tratava de uma obra sobre a morte, se calhar o último grande tabu. Parece que quanto mais se vive, mais se cria a ilusão da eternidade e menos se fala da morte, que deixou de pertencer às famílias e suas casas para se inscrever na prestação de serviços e processos sanitários.

A QUESTÃO

Hoje, os entendidos no último suspiro já não são as anciães ou os patriarcas, são gente de bata ou fato que não tem qualquer laço com o falecido, enquanto os familiares sobre o luto nada entendem. Deixou de haver morte para só existir óbito. Como diz Paul Virilo, "a nossa sociedade materialista, que exorta ao consumo, baniu a morte da consciência. Tudo o que é grave e perigoso é escamoteado– a começar pela morte, ou seja a própria vida, o objectivo da vida. Afinal, só nascemos para morrer, vivemos porque somos efémeros. Consequentemente, não se pode esboçar uma visão filosófica fundamentada sem reintroduzir a questão da morte".

SAUDADES D'ELE

Eis um livre-pensador a tornar visível o descomunal elefante no meio da acolchoada sala de estar das civilizações ocidentais e, pouco depois de o sublinhar, lá tropecei em Julian Barnes. Logo no início, afirma: "Não acredito em deus, mas tenho saudades dele". Foi o suficiente para que a leitura fosse predatória. Aliás, há uns meses, nesta mesma crónica e a propósito do filme ‘Inquietos’, de Gus Van Sant, citei o ‘Nada a Temer’, prova da sua durabilidade. E lembrei-o, justamente, a reboque do silêncio sobre a morte, já que Barnes segue paralelo à ideia de Montaigne, que afirmava que se fosse um escrevinhador, faria um compêndio sobre as várias formas pelas quais os homens têm morrido, pois qualquer um que ensinasse a humanidade a morrer, ensiná-la-ia a viver.

Pois é. Dá-se o caso que o meu último livro de Barnes foi ‘O Sentido do Fim’. Desta feita, com mais ficção e menos ensaio, mas com a mesma arte da fuga aos espartilhos dos géneros literários, as mesmas frases miraculosas e o mesmo sentido de humor. Mas agora não é só a morte, o desencarne, a extinção, ‘tanatos’. Barnes interroga-nos sobre como se constrói uma vida, o sentido da história, sobre a infidelidade da memória e a traição do tempo. Talvez ‘O Sentido do Fim’ seja, também, uma resposta às interrogações que o autor deixara em ‘Nada a Temer’. Talvez este mais recente trabalho, apontando para a possibilidade de dar sentido ao passado como forma de dar sentido à existência, ou seja, à morte, devesse figurar no almanaque de Montaigne. Caso ele tivesse tido uma segunda vida, claro.

RESUMO

O mais recente livro do autor de ‘O Papagaio de Flaubert’ é, entre muitas coisas, uma memória de família; uma meditação sobre a mortalidade e o medo da morte; uma celebração da arte e dos artistas; uma discussão com e sobre Deus e uma homenagem ao escritor francês Jules Renard.

Título: ‘O Sentido do Fim’

Autor: Julian Barnes

Editora: Quetzal


LIVRO: ‘TODAS AS PALAVRAS’

Ler boa poesia contemporânea é um luxo. Já ler boa poesia contemporânea portu-guesa e ainda assistir à evolução do seu autor, tudo reunido num mesmo livro que ultrapassa o precoce desaparecimento de alguns trabalhos anteriores, é obra.

Resumo: Todo o trabalho poético do autor de 1974 a 2011

Autor: Manuel António Pina

Editora: Assírio & Alvim

Páginas: 400

LIVRO: ‘O VARANDIM SEGUIDO DE OCASO EM CARVANGEL’

Eis duas boas tragédias à moda antiga, uma peça clássica de grande efeito surpresa, com um domínio da língua portuguesa exemplar e a constante abdicação de toda e qualquer banalidade. A susceptibilidade magnética é quase perigosa e só agrava o amargo de boca final.

Autor: Mário de Carvalho

Editora: Porto Editora

Páginas: 224

EXPOSIÇÃO: ‘FLAGRANTE DELEITE’

Esta alemã, depois de ter provocado a cena artística masculina nos anos 80, continuou a desafiar as hierarquias políticas, sociais e estéticas, criando, por exemplo, uma casa para porcos e pessoas, na qual um clã de suínos vivia sendo observado por hordas de humanos.

Autor: Rosemarie Trockel

Local: Culturgest, Lisboa

Data: Até 6 de Janeiro de 2013

+info: www.culturgest.pt


FUGIR DE...

‘O LEGADO DE BOURNE’

Franco bom senso foi o que Matt Damon e Paul Greengrass revelaram ao recusarem protagonizar e realizar a quarta aventura Jason Bourne. É um filme de acção e nesse sentido cumpre, mas nada mais. Tudo é gratuito e comum. A coisa não tem carisma nem densidade. Pior. É o primeiro desta saga que não deixa vontade de mais um. Definitivamente, este não é o legado de Bourne.

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